Venezuelanos foram torturados em prisão de El Salvador

WASHINGTON – Os 252 venezuelanos que o governo dos Estados Unidos enviou a El Salvador em março e abril de 2025 foram torturados e submetidos a outros abusos, incluindo casos de violência sexual, segundo um relatório publicado nesta quarta-feira, 12, pela organização Human Rights Watch (HRW).
Juanita Goebertus, diretora da divisão América da HRW, afirmou que “a administração Trump pagou a El Salvador milhões de dólares para deter arbitrariamente venezuelanos que depois foram submetidos quase diariamente a espancamentos brutais pelas forças de segurança salvadorenhas”.
O governo do presidente Donald Trump “foi cúmplice de tortura, desaparecimento forçado e outras graves violações de direitos humanos, e deveria parar de enviar pessoas para El Salvador e para qualquer outro país onde corram o risco de serem torturadas”, declarou Goebertus.
No relatório ‘Chegaram ao inferno: Tortura e outros abusos contra venezuelanos no Centro de Confinamento do Terrorismo de El Salvador (Cecot)’, criado pelo presidente Nayib Bukele para prender acusados de pertencer a gangues salvadorenhas, a HRW analisa o tratamento recebido pelos deportados.
Em março e abril de 2025, Washington enviou ao Cecot 252 venezuelanos, entre eles dezenas de solicitantes de asilo, “apesar de relatos confiáveis sobre graves violações de direitos humanos nas prisões salvadorenhas”, afirma o relatório.
Essas pessoas foram vítimas de devolução (envio de pessoas a um local onde correm risco de tortura ou perseguição), detenção arbitrária, desaparecimento forçado, tortura, condições desumanas de prisão e, em alguns casos, violência sexual.
Entre março e setembro de 2025, os pesquisadores entrevistaram 40 dos venezuelanos detidos no Cecot e outras 150 pessoas, incluindo familiares, advogados e conhecidos.
Eles analisaram fotografias de ferimentos, bancos de dados criminais, documentos migratórios e informações do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos EUA (ICE) sobre as deportações.
As denúncias foram corroboradas por análises forenses realizadas pelo Grupo Independente de Peritos Forenses e por uma investigação de fontes abertas conduzida pelo Centro de Direitos Humanos da Universidade da Califórnia.
Segundo informações apresentadas em processos judiciais, o governo dos EUA forneceu pelo menos 4,7 milhões de dólares a El Salvador para cobrir os custos de detenção dos homens enviados ao Cecot.
Aproximadamente metade dos venezuelanos enviados ao Cecot não tinha condenações criminais, e apenas 3% haviam sido condenados nos Estados Unidos por um crime violento ou potencialmente violento.
Outras verificações mostraram que muitos não tinham antecedentes criminais na Venezuela nem em outros países onde viveram.
No Cecot, os venezuelanos foram submetidos sistematicamente a abusos físicos, verbais e psicológicos graves por guardas e policiais antimotim salvadorenhos.
Esses abusos “constituem tratamento cruel, desumano ou degradante e, em muitos casos, tortura, de acordo com o direito internacional dos direitos humanos”, recorda a HRW.
Os guardas e a polícia antimotim frequentemente os espancavam, especialmente durante revistas diárias nas celas, por supostas infrações das regras – como falar alto, tomar banho fora do horário ou pedir atendimento médico.
“Todos os dias vinham fazer revista”, contou um ex-detido. “Nos tiravam da cela, nos colocavam de joelhos, algemados com as mãos para trás e braços na cabeça, e nos batiam com cassetetes, chutes e socos. Depois nos deixavam ajoelhados por 30 ou 40 minutos.”
Vários ex-detidos disseram que foram espancados após entrevistas com membros do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, durante uma visita ao Cecot em maio. Um deles relatou: “Os guardas continuaram me batendo no estômago e, quando tentei respirar, comecei a me engasgar com o sangue”.
Três detidos disseram ter sido vítimas de violência sexual. Um relatou que quatro guardas o abusaram sexualmente, “brincaram com seus cassetetes no meu corpo” e o obrigaram a fazer sexo oral em um dos agentes.
A HRW e a organização centro-americana de direitos humanos Cristosal concluíram que os casos de tortura e maus-tratos não foram incidentes isolados, mas sim violações sistemáticas de direitos humanos.
Os abusos “parecem fazer parte de uma prática destinada a submeter, humilhar e disciplinar. A brutalidade e a repetição constante indicam que os guardas e policiais atuavam com a convicção de que seus superiores apoiavam ou, no mínimo, toleravam os atos abusivos”, afirma o relatório.
Os venezuelanos também enfrentaram condições desumanas, como alimentação escassa e inadequada, más condições de higiene e saneamento e acesso limitado a cuidados médicos e medicamentos.
Familiares e advogados disseram aos investigadores que pelo menos 62 dos venezuelanos foram expulsos enquanto seus processos de asilo ainda estavam em andamento nos EUA, mesmo após terem passado na avaliação inicial de “medo credível”, que lhes dava direito a uma audiência completa.
Durante semanas, os governos dos Estados Unidos e de El Salvador se recusaram a divulgar informações sobre o paradeiro ou a situação dos venezuelanos — o que, segundo o direito internacional, constitui desaparecimento forçado.
Em meados de julho, o governo de El Salvador enviou os 252 venezuelanos de volta à Venezuela em troca de 10 cidadãos ou residentes permanentes dos EUA detidos pelo governo do presidente Nicolás Maduro.
Noah Bullock, diretor executivo da Cristosal, afirmou que “o governo dos Estados Unidos não esteve envolvido em atos de tortura sistemática nessa escala desde Abu Ghraib e a rede de prisões secretas durante a guerra contra o terrorismo”.
“Fazer pessoas desaparecerem nas mãos de um governo que as tortura vai contra os princípios que historicamente fizeram dos Estados Unidos uma nação de leis”, acrescentou Bullock.
Na imagem, transferência de detidos venezuelanos dos EUA ao Centro de Confinamento do Terrorismo em El Salvador / Presidência de El Salvador
Este texto foi publicado inicialmente pela Inter Press Service

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