Violência de gênero agrava desaparecimento de mulheres no Peru

Por Mariela Jara – IPS
LIMA — O desaparecimento de mulheres se intensifica no Peru ao mesmo tempo em que cresce a tolerância social à violência de gênero, enquanto o Estado não prioriza o enfrentamento desse grave problema de violação de direitos.
“O atual contexto de retrocesso de direitos no país aumenta a vulnerabilidade de todas as mulheres porque é claro o desinteresse do Estado”, afirmou Liz Meléndez, diretora do Centro da Mulher Peruana Flora Tristán, responsável pela campanha “Búscalas, no estamos todas”.
A iniciativa busca fortalecer o sistema de busca de pessoas desaparecidas, especialmente mulheres e jovens, que são maioria entre os casos.
Segundo a Defensoria do Povo, no primeiro semestre de 2025 cresceu o número de denúncias de mulheres desaparecidas em relação ao mesmo período de 2024.
“As primeiras horas do desaparecimento são cruciais e podem determinar se a vítima será encontrada ou não. Reclamamos que parem de justificar com estereótipos de gênero, dizendo que ‘ela deve ter ido com o namorado’ ou ‘está em uma festa’”, acrescentou Meléndez.
O relatório mensal da Defensoria, “O que aconteceu com elas”, registrou aumento de 31% nas denúncias de mulheres adultas desaparecidas e de 41% entre meninas e adolescentes nos seis primeiros meses do ano.
Esse cenário ocorre em um país com quase 34 milhões de habitantes, sendo 50,4% mulheres, e em meio à crescente tolerância social: pesquisa nacional publicada em julho revelou que 75,7% da população aceita, em algum grau, a violência de gênero — 17 pontos acima dos 58,9% de 2019.
A legislação peruana reconhece a desaparição de mulheres como forma de violência de gênero, associada ao feminicídio e ao tráfico sexual. No mesmo período, foram registrados 78 feminicídios, 11% a mais que os 70 de 2024.
“Com a desaparição, o que buscam é impunidade por seus crimes”, disse Katherine Flores, presidenta da associação Familias Unidas por Justicia. Sua irmã, Stefani Flores, foi assassinada em 2019 pelo ex-companheiro após denunciar tentativa de feminicídio. Ele foi condenado a 30 anos, mas o caso expôs falhas do Estado, que não ofereceu proteção.
Flores denuncia que a polícia não age de imediato e que famílias passam anos em buscas intermináveis. “Ao desaparecer o corpo, o feminicida busca ficar impune, enquanto nós ficamos em desgaste emocional, físico e econômico. O que queremos é justiça.”
Outro caso, relatado por Edson Tapuyima, mostra a falha das autoridades. Sua irmã Milena foi assassinada em 2018. A polícia demorou a agir, e o corpo só foi encontrado quando o feminicida tentava incinerar os restos. O autor foi condenado a 30 anos.
Em Cusco, região andina marcada pela mineração ilegal e pelo tráfico de pessoas, Rosario Salazar, do Movimento Amhauta, alerta para o aumento da desaparição de mulheres e adolescentes. “Vemos casos desde os 12 até os 17 anos. A pobreza e a discriminação criam condições de risco para cair nas redes de exploração sexual”, disse. Em 2025, os desaparecimentos na região cresceram 41%.
Frente ao quadro, Liz Meléndez defende melhorias no Sistema de Busca de Pessoas, incluindo protocolos com enfoque de gênero, atualização constante do registro nacional e geolocalização para casos de emergência. Também pede que a desaparição de mulheres seja tratada como agravante do feminicídio e que a polícia atue de imediato, como determina a lei.
“As primeiras horas são decisivas. Reiteramos que deixem de lado os preconceitos que impedem a busca diligente”, afirmou.
(+) Imagem em destaque: Integrantes da associação Familias por Justicia em manifestação diante da sede da Procuradoria-Geral da Nação, em Lima. Crédito: Cortesia de Katherine Flores / FUJ
(++) Publicado originalmente em IPS – Inter Press Service

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