4ª Oficina do Ciclo do Barão debate redes sociais como arena decisiva da comunicação sindical

Com exposição de Larissa Gould e coordenação de Rita Casaro, 4º encontro discutiu algoritmos, bolhas, engajamento, conteúdo nativo, trends, humor e o desafio de falar com a própria base. A 5ª Oficina será na próxima 3ªf, 19/05, Comunidades digitais com propósito, sob a condução temática de Camila Modanez
(por CARLOS TIBÚRCIO, Fórum 21, Fatoflix e Coordenação do Barão – transcrição e resumo feitos com apoio de IA)
A quarta oficina do Ciclo do Barão — O Movimento Sindical na Disputa Eleitoral de 2026 colocou em debate um dos temas mais difíceis e urgentes da comunicação contemporânea: O eterno desafio, como atuar nas redes sociais em um ambiente dominado por algoritmos, big techs, bolhas digitais e formatos que nem sempre favorecem a comunicação democrática, sindical e popular.
Realizada na noite de quinta-feira, 14 de maio, a atividade teve abertura e coordenação de Rita Casaro e exposição da jornalista, pesquisadora e sindicalista Larissa Gold. Integrante da coordenação do Centro de Estudos da Mídia Barão de Itararé, dirigente do Sindicato dos Jornalistas e representante do Barão no Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação — FNDC, Larissa conduziu uma oficina marcada por forte conteúdo prático e por uma leitura crítica das redes sociais.
Na abertura, Rita lembrou que a oficina chegava ao quarto encontro do Ciclo, depois das discussões sobre conjuntura política, desinformação e inteligência artificial. O tema da noite, destacou, era entender como obter resultados nas redes sociais “apesar dos algoritmos, das big techs e desse ambiente que não é muito favorável à luta dos trabalhadores, à luta progressista e à luta democrática”.
Larissa iniciou sua exposição com uma afirmação que orientou toda a oficina: as redes sociais são uma arena de disputa. As regras não foram pensadas para favorecer sindicatos, movimentos populares ou o campo democrático. Mesmo assim, não é possível se ausentar desse espaço. O desafio, portanto, é conhecer minimamente as regras do jogo para conseguir disputar atenção, engajamento, sentidos e vínculos.
A palestrante chamou atenção para um ponto decisivo: nem o campo sindical nem os movimentos sociais controlam os grandes meios de comunicação, tampouco controlam a internet. Ainda assim, as redes permitem que ações articuladas consigam gerar repercussão, pautar debates e, em alguns casos, pressionar a própria mídia tradicional. Para Larissa, a atuação nas redes deve ser pensada não apenas como comunicação digital isolada, mas como parte de uma estratégia mais ampla, capaz de extrapolar o ambiente online.
Redes não substituem base, mas mudam toda a comunicação
Um dos alertas da oficina foi contra a ilusão de que as redes sociais substituem formas tradicionais de organização. Larissa destacou que rede social não substitui reunião, cartilha, assembleia, conversa presencial, trabalho de base ou organização territorial. Ao mesmo tempo, a cultura digital mudou profundamente a forma como as pessoas consomem comunicação.
Isso significa que mesmo materiais impressos, cartilhas e atividades presenciais precisam dialogar com a linguagem digital. Um impresso pode levar a um vídeo por QR Code; um vídeo pode remeter a um site, a um Pix, a um material de aprofundamento ou a uma campanha. O importante, segundo Larissa, é pensar a comunicação de forma integrada, articulando online e offline.
A discussão sobre algoritmos foi outro ponto central. Larissa explicou que a internet não é um espaço livre e neutro. As plataformas operam por algoritmos personalizados, que observam comportamentos, preferências, tempo de visualização, curtidas, temas de interesse e até padrões de uso. Cada pessoa recebe um fluxo diferente de conteúdos. Por isso, é comum que militantes sequer sejam impactados por conteúdos que circulam massivamente em outros setores da sociedade.
Essa constatação levou a uma crítica importante ao chamado “fetiche de furar a bolha”. Para Larissa, sindicatos e entidades precisam primeiro perguntar se estão conseguindo falar com a própria base. Ela usou como exemplo a realidade de entidades que têm milhares de sindicalizados, mas cujas publicações alcançam poucas dezenas de curtidas ou interações. Antes de pensar em “furar a bolha” em escala ampla, é preciso chegar aos trabalhadores da própria categoria, ou seja, atingir de fato a sua própria bolha.
Conhecer a base é condição para comunicar melhor
A oficina insistiu em uma pergunta simples, mas muitas vezes negligenciada: quem é a base com a qual o sindicato quer falar?
Larissa destacou que não existe uma estratégia única para todos os públicos. É preciso saber se a categoria usa mais celular ou computador, se tem banda larga, se consome vídeos longos ou curtos, se usa mais WhatsApp, Instagram, TikTok, Facebook ou YouTube, qual é seu nível de escolaridade, que temas mobilizam sua atenção, que conteúdos consome no cotidiano.
Ela lembrou que grande parte da população brasileira acessa a internet principalmente pelo celular e que há diferenças importantes de conectividade por classe social, território e perfil da categoria. Para públicos com internet limitada, por exemplo, vídeos pesados e longos podem ser pouco eficazes. Em alguns casos, cards simples, mensagens completas no WhatsApp e conteúdos leves podem funcionar melhor.
Larissa também defendeu que sindicatos observem com menos preconceito o que suas bases realmente consomem. O exemplo das novelas turcas, dos vídeos verticais, do futebol, das apostas, dos conteúdos de humor e de entretenimento serviu para mostrar que a direita já aprendeu a ocupar esses ambientes e linguagens. O campo sindical e popular, se quiser dialogar com trabalhadores reais, precisa prestar atenção às suas práticas culturais e digitais concretas.
Humor, emoção e ganchos do momento
Larissa também tratou da importância das emoções no engajamento. Conteúdos excessivamente racionais, baseados apenas em dados, têm menos circulação nas redes do que conteúdos que provocam riso, indignação, identificação ou surpresa. Ela defendeu o uso do humor como uma ferramenta potente para ampliar o alcance das mensagens, ainda que reconheça que não é simples produzir humor de qualidade.
O uso de “ganchos” também foi apontado como estratégia fundamental. Uma pauta nacional pode ser conectada a uma pauta local ou de categoria. Um tema em alta pode abrir caminho para falar de privatização, condições de trabalho, cultura, direitos, salário, soberania ou democracia. O importante é não deixar o sindicato falar sozinho, desconectado do que a sociedade está debatendo naquele momento.
Essa lógica exige agilidade, escuta e capacidade de adaptação. Não basta publicar conteúdos frios e institucionais. É preciso entrar no debate vivo, usando linguagem adequada, sem abandonar o conteúdo político.
Todos são microinfluenciadores
Outro ponto forte da oficina foi a ideia de que dirigentes, comunicadores e militantes também são microinfluenciadores. Mesmo quem não se enxerga como produtor de conteúdo exerce influência sobre amigos, familiares, colegas de trabalho e pessoas próximas.
Larissa diferenciou o papel das páginas institucionais e das redes pessoais. As páginas dos sindicatos precisam manter rigor, critério e responsabilidade institucional. Já as redes pessoais podem ajudar a humanizar a comunicação, ampliar o alcance de campanhas e levar pautas políticas para ambientes onde a página oficial talvez não chegue.
Ela sugeriu um uso mais inteligente das redes pessoais: combinar conteúdos do cotidiano com pautas políticas, usar stories, compartilhar publicações estratégicas, comentar, republicar, colaborar com perfis institucionais e aproveitar momentos de maior engajamento pessoal para impulsionar mensagens relevantes.
Esse ponto ganha ainda mais importância em períodos eleitorais, quando sindicatos enfrentam restrições legais para determinadas formas de manifestação, enquanto influenciadores da direita tendem a operar de forma mais solta e agressiva nas redes.
Conteúdo nativo, trends e ações coordenadas
Na parte mais prática da oficina, Larissa apresentou uma série de orientações para melhorar o desempenho dos conteúdos. Uma delas foi priorizar conteúdo nativo, ou seja, produzido ou editado dentro da própria plataforma. Instagram, TikTok, Facebook e outras redes tendem a valorizar conteúdos que mantêm o usuário dentro da plataforma e a reduzir o alcance de links externos.
Ela também alertou contra a prática de baixar vídeos de outros perfis e subir novamente como se fossem próprios. Em vez disso, recomendou usar recursos como remix, áudio original, trend, react e compartilhamento nos stories. A lógica das redes favorece conteúdos que participam de tendências, mas com uma versão própria, não a simples cópia.
As trends, segundo Larissa, não se limitam a dancinhas ou músicas. Podem envolver áudios em alta, filtros, formatos, remixes, templates, estilos visuais e modelos de edição. Plataformas como TikTok, Instagram, CapCut e Canva ajudam a identificar o que está circulando e oferecem recursos que podem ser adaptados por sindicatos e movimentos.
A palestrante também defendeu ações coordenadas de engajamento. Curtir, comentar e compartilhar uma publicação logo após sua postagem aumenta as chances de entrega. Assim como os antigos “tuitaços”, ações combinadas em horários específicos podem ajudar conteúdos sindicais a superar a baixa entrega orgânica das plataformas.
A ética da disputa e os riscos da fake news
A oficina também tratou dos limites da comunicação política nas redes. Larissa alertou para os riscos de compartilhar conteúdos falsos, informações sem checagem ou materiais potencialmente denunciáveis. Além do problema ético e político, isso pode derrubar o alcance de uma página ou prejudicar sua credibilidade.
Esse tema apareceu também no debate. Paula Bortolini levantou preocupações sobre acesso desigual às redes, especialmente em um contexto em que operadoras facilitam o uso do WhatsApp, mas limitam outros serviços. Também problematizou a ideia de que “vale tudo” nas redes sociais, defendendo limites éticos na disputa política.
Tadeu Xavier, do Sindipetro NF, chamou atenção para a forma como setores dominantes usam redes sociais para massificar opiniões e disputar a consciência da população. Sua fala reforçou a necessidade de produzir conteúdos positivos, consistentes e conectados a diretrizes políticas capazes de dialogar com a população trabalhadora.
Sérgio Corrêa Vaz, jornalista com trajetória em jornalismo digital, destacou a importância de atualização permanente diante dos formatos e algoritmos das redes. Também defendeu um debate mais respeitoso e construtivo, evitando ataques pessoais e priorizando argumentos capazes de dialogar com quem está fora dos círculos já convencidos.
Morgan Dantas ressaltou a importância de “verticalizar a comunicação de guerrilha” e apontou a necessidade de estruturar melhor a presença digital dos movimentos. Sua intervenção dialogou com a proposta de criar grupos paralelos de colaboração criativa, envolvendo pessoas que não necessariamente sejam profissionais de comunicação, mas que possam contribuir com ideias, formatos e ativação nas redes.
Luiz Carlos Jr., dos Comerciários de Itabuna, provocou Larissa a fazer uma análise crítica da comunicação sindical. Ele apontou atraso na apropriação das ferramentas digitais, baixo engajamento e pouca pesquisa sobre os hábitos, gostos e consumos das bases sindicais.
Comunicação só funciona quando há organização real
Ao responder, Larissa fez uma ponderação importante. A comunicação sindical tem problemas técnicos, falta domínio de ferramentas e precisa se atualizar. Mas o problema não é apenas da comunicação. Para ela, a comunicação é transversal e só funciona plenamente quando há trabalho de base, mobilização real e ação política concreta.
O exemplo citado foi a greve geral de 2019. Naquele momento, quando houve mobilização efetiva, paralisação, base envolvida e impacto real na vida social, as redes dos sindicatos ganharam força, a mídia tradicional precisou cobrir o tema e o engajamento aconteceu de forma orgânica. A síntese foi clara: quando a luta concreta mobiliza, a comunicação ganha potência.
Esse ponto fechou a oficina com um deslocamento importante. Redes sociais são fundamentais, mas não resolvem sozinhas o problema da organização. Algoritmo, trend, story, card, vídeo curto, humor e conteúdo nativo são ferramentas. O centro continua sendo a capacidade de construir vínculo, mobilizar a base e organizar ação coletiva.
No encerramento, Rita Casaro agradeceu a exposição de Larissa e destacou que a oficina renderia novas reflexões. Também anunciou a continuidade do Ciclo, com a próxima atividade sobre Comunidades Digitais com Propósito, conduzida por Camila Modanês, tema diretamente relacionado à angústia levantada ao longo da noite: como deixar de apenas emitir conteúdos aleatórios e construir comunidades reais de vínculo, circulação e ação.
A quarta oficina deixou uma mensagem prática para sindicatos e entidades: é preciso estar nas redes, mas com método. Conhecer a base, segmentar mensagens, usar linguagem adequada, produzir conteúdo nativo, acompanhar tendências, coordenar engajamento, usar redes pessoais, evitar fake news, combinar online e offline e, sobretudo, manter trabalho de base permanente.
Para o movimento sindical, disputar redes sociais não é aderir à lógica das big techs sem crítica. É compreender essa lógica para enfrentá-la melhor, usando as ferramentas disponíveis a serviço da organização, da democracia, dos direitos e das lutas da classe trabalhadora.
Programação do Ciclo
05/05 3af 19h: OFICINA 1
O movimento sindical e a disputa eleitoral de 2026
Situar o papel do movimento sindical no atual cenário político e eleitoral, destacando sua responsabilidade na defesa da democracia e dos direitos sociais; como a pauta dos trabalhadores estará presente na disputa.
Condução temática: Altamiro Borges
07/05 5ª f 19h: OFICINA 2
Desinformação: como identificar e como agir
O que é desinformação e por que ela funciona; padrões recorrentes de ataque ao sindicalismo; quando e como responder.
Condução temática: Ergon Cugler
12/05 3af 19h: OFICINA 3
Inteligência artificial: como usar e como não ser enganado
Apresentar ferramentas e utilizações possíveis da inteligência artificial na comunicação sindical e capacitar para a identificação de seu uso indevido.
Condução temática: Vanessa Martina-Silva
14/05 5af 19h: OFICINA 4
O eterno desafio: como atuar nas redes
Qualificar a atuação sindical nas redes sociais: como ter relevância apesar do viés antissindical dos algoritmos.
Condução temática: Larissa Gould
19/05 3af 19h: OFICINA 5
Comunidades digitais com propósito
Como construir e fortalecer vínculos com a base utilizando ferramentas digitais.
Condução temática: Camila Modanez
21/05 5af 19h: OFICINA 6
O papel da Cultura – em especial do audiovisual – na disputa de ideias e valores
Filmes, documentários, podcasts, cursos, plataformas de streaming: conteúdos para a disputa de ideias e valores – como usar linguagem audiovisual para fortalecer vínculos.
Condução temática: Carlos Tibúrcio, com Joanne Mota e Célio Turino

Carlos Tibúrcio, jornalista, editor do Fórum 21 – Portal das Esquerdas; diretor da Fatoflix; membro da Comissão Facilitadora do Fórum Permanente da Intelectualidade Orgânica (do Coletivo Fórum 21 e do Movimento Geração 68); ex-Coordenador da Equipe de Discursos dos Presidentes da República, Lula e Dilma (2003-2016 – maio, golpe); Co-fundador do Fórum Social Mundial e integrante do seu Conselho Internacional.
