A intolerância cresce e a esquerda decresce

Por Fernando Nogueira da Costa
Para responder a essa questão, vale apresentar exemplos contemporâneos concretos, mostrando como padrões de intolerância se materializam politicamente em três casos: Trump (EUA), extrema-direita europeia e bolsonarismo (Brasil).
O imperador Donald (EUA) apresenta intolerância como identidade política. O trumpismo não cria o que mobiliza — ele ativa e legitima seu governo tendo como eixos centrais uma xenofobia explícita. A imigração de estrangeiros é tratada como “invasão” e apresenta o muro na fronteira com o México como símbolo civilizacional.
Seu anticomunismo é grotesco: qualquer política social vira “socialismo” ou “marxismo cultural”. Lá, a homofobia e transfobia são reativas porque os direitos LGBT são vistos como ameaça à “família americana”. A religião é instrumentalizada ao pregar o evangelismo branco como base moral do projeto político.
Trata-se de um excepcionalismo agressivo. A “America First” representa a rejeição aberta do multilateralismo. O ponto estrutural é Trump transformar intolerâncias difusas em programa político explícito, algo raro no establishment anterior.
Em comparação, a extrema-direita europeia demonstra intolerância como defesa cultural, em um padrão diferente do americano. Compare os seguintes exemplos.
Na França, Le Pen apresenta a islamofobia travestida de “defesa da laicidade” do Estado não religioso. Na Alemanha, o AfD assume a xenofobia com linguagem “econômica” ao denunciar “o custo fiscal do imigrante”.
O cenário político e social, impulsionado pelo partido Alternativa para a Alemanha (Alternative für Deutschland – AfD), um partido de extrema-direita, tem crescido muito. Posiciona-se já como a segunda maior força política, em algumas pesquisas e eleições regionais, especialmente na região da antiga Alemanha Oriental.
Soma-se ao neofascismo governante da Itália (Meloni) e da Hungria (Orbán). Nesses países, há a defesa da “família tradicional” e da “civilização cristã”.
As características são de menos religião explícita, comparativamente aos EUA. Também há menos anticomunismo histriônico e mais ênfase em identidade nacional, fronteiras, cultura e medo da diluição do welfare state. A intolerância europeia é secularizada, apresentada como “racional” e “defensiva”.
Já o bolsonarismo, no Brasil, apresenta sua intolerância como despolitização da desigualdade social, existente nas periferias dominadas por milícias afins.
O caso brasileiro é singular por ter como eixos centrais o machismo explícito e naturalizado; a homofobia aberta, muitas vezes celebrada; o racismo negado, mas operante na polícia, em territórios e quanto à pobreza; o anticomunismo delirante, deslocado da realidade econômica; a religião neopentecostal como legitimadora moral. Coroa tudo uma submissão simbólica aos EUA com ausência total de excepcionalismo próprio.
Aqui, a intolerância da extrema-direita não constrói um projeto nacional forte. Ela desorganiza o conflito social, fragmenta a organização de “os de baixo” e protege “o topo” da pirâmide de riqueza.
Comparação Sintética dos Três Casos
| Dimensão | Trump (EUA) | Extrema-direita europeia | Bolsonarismo (Brasil) | |
| Xenofobia | Central, agressiva | Central, defensiva | Secundária | |
| Anticomunismo | Estrutural | Residual | Paranoico | |
| Religião | Central | Secundária | Central | |
| Excepcionalismo | Forte | Cultural | Ausente | |
| Função principal | Mobilizar ressentimento | Defender identidade | Despolitizar desigualdade | |
Esses movimentos não são aberrações, mas respostas distintas a crises do capitalismo contemporâneo. Nos EUA, a crise de hegemonia global gera intolerância imperialista. Na Europa, a crise do welfare state resulta na intolerância identitária. No Brasil, a desigualdade extrema leva à intolerância como distração desse foco. Em todos os casos, a intolerância substitui política econômica distributiva por guerra cultural.
Para entender por quais razões a intolerância da direita cresce e a esquerda decresce, a intolerância deve ser diagnosticada como sintoma da crise do neoliberalismo. Esta ideologia prometeu três coisas centrais: crescimento contínuo, mobilidade social via mercado e neutralidade técnica das políticas econômicas. Nada disso se sustentou.
O neoliberalismo entra em crise devido à estagnação dos salários, à precarização do trabalho, ao endividamento das famílias e ao colapso da ideia de “futuro melhor”. Quando o discurso econômico perde credibilidade, o sistema precisa de outro princípio ideológico de coesão social, senão nacional.
Nessa brecha, entram nacionalismo, religião, identidade e medo do “outro”. A intolerância não substitui o neoliberalismo. Ela o protege, politicamente, quando ele deixa de entregar resultados. Em termos simples, quando não se pode prometer prosperidade, promete-se ordem, identidade e inimigos.
A esquerda tem dificuldade em responder a esse padrão porque o problema não é só externo. É estratégico e conceitual.
Primeiro, houve a perda da centralidade da Economia Política. Grande parte da esquerda abandonou a crítica sistêmica do capitalismo. Aceitou os “limites técnicos (fiscais)” do neoliberalismo. Passou a disputar apenas gestão do Estado e mitigação. Isso deixa o espaço do sentido da crise livre para a direita se propagar.
A extrema-direita mente, mas oferece uma narrativa simplória acessível à plebe ignara. A esquerda explica, mas sem horizonte mobilizador.
Além disso, houve a fragmentação das pautas sem síntese estrutural. As lutas identitárias são legítimas — o problema é quando aparecem desconectadas da estrutura econômica.
Isso permite a direita transformar direitos como fossem “privilégios”, o sofrimento social em ressentimento cultural e a desigualdade em guerra moralista. Sem uma síntese materialista, a esquerda parece moralizante para uns, abstrata para outros, distante da experiência concreta da maioria.
Há também a diferença entre a linguagem defensiva e a tecnocrática. Enquanto a direita fala em ameaça, invasão, decadência, traição, a esquerda em geral com formação universitária costuma responder com estatísticas, pareceres, notas técnicas, apelos morais genéricos.
Há um descompasso afetivo e simbólico. A crise do neoliberalismo é vivida como medo, humilhação, perda de status social, raiva difusa. Porém, a esquerda responde como se fosse apenas um erro de planilha.
O resultado paradoxal disso é a direita radicalizar identidades para não discutir redistribuição de renda e riqueza. A esquerda evita discutir redistribuição profunda para não romper consensos entre aliados de uma Frente Antifascista.
A economia sai do centro do conflito. A intolerância ocupa o vazio. Isso explica por qual razão discursos regressivos ganham massa, mesmo sem resolver nada materialmente.
Portanto, a crise do neoliberalismo leva à quebra de promessas materiais. A resposta do sistema conservador é a provocação de guerra cultural e a intolerância diante ideias progressistas.
A dificuldade da esquerda é a falta de narrativa econômica abrangente sob o ponto de vista social e a adoção de uma linguagem técnica pouco mobilizadora. Onde a economia deixa de ser politizada, a identidade vira arma dos conservadores.

Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da UNICAMP. Obras (Quase) Completas em livros digitais para download gratuito em http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/). E-mail: [email protected].
