Apocalipse na religião

Apocalipse na religião

A cruzada evangelística de Billy Graham no Maracanã, em 1974, conforme mostrada no imperdível documentário “Apocalipse nos Trópicos” (Netflix), dirigido por Petra Costa, teve um significado muito além de um ato de pregação religiosa. Foi um gesto político-religioso inserido em plena Guerra Fria cultural, com ramificações ressoando até hoje no campo da religião, da política e do comportamento moral conservador dos evangélicos no Brasil.

Esse evento no Maracanã foi uma aparente cruzada evangelística, mas real operação ideológica de origem imperial norte-americana. Em 13 de outubro de 1974, o evangelista norte-americano Billy Graham reuniu cerca de 150 mil pessoas no Maracanã, em uma das maiores concentrações religiosas já vistas no país até então.

Ele estava no auge de sua influência global e era considerado “o pastor da Casa Branca”. Tinha relações próximas com presidentes norte-americanos de Eisenhower a Nixon e, na década seguinte, Reagan.

Não era um evento neutro. Era parte de uma estratégia de “evangelização geopolítica” contra a Teologia da Libertação católica, considerada à esquerda.

Graham pregou um evangelho moralista, centrado no arrependimento individual e na salvação da alma. Condenou o comunismo, sem rodeios, como ameaça ao cristianismo e à liberdade. Reforçou a ideia de que o cristianismo verdadeiro exige submissão à autoridade e à ordem — um ponto muito conveniente à ditadura militar brasileira.

Ao seu lado, estavam generais, empresários e lideranças evangélicas conservadoras brasileiras, além da cobertura favorável da grande imprensa. Por trás da cruzada, estava o cenário Guerra Fria cultural e antipetismo “avant la lettre”.

A presença de Billy Graham no Brasil deve ser entendida como parte da geoestratégia cultural do imperialismo norte-americano, em tempos de doutrina de Segurança Nacional (hoje utilizada por Trump como embasamento legal para seus arbítrios), e expansão da Teologia da Prosperidade nos EUA, já articulando fé com mercado.

A preocupação maior era com o avanço da Teologia da Libertação na América Latina. Fazia sua denúncia das estruturas de opressão social e tinha ligação com movimentos de base, sindicatos, CPTs, CEBs e pastoral da juventude.

A cruzada no Maracanã foi, assim, uma forma de reocupação religiosa conservadora do espaço simbólico da massa popular. Tinha apelo emocional e oferecia uma promessa de salvação pessoal, sem crítica à ordem econômica ou à desigualdade social.

Foi um gesto antípoda às mensagens de Dom Helder Câmara, Dom Pedro Casaldáliga, Frei Betto e tantos outros religiosos capazes de denunciarem a repressão e a exploração social. Eram porta-vozes da Igreja católica progressista se impondo diante a ditadura militar.

Embora Billy Graham não pregasse diretamente a Teologia da Prosperidade, ele abriu as portas do Brasil ao modelo de evangelicalismo político norte-americano, ao associar fé à prosperidade financeira como bênção divina, sucesso individual ao merecimento moral e obediência à autoridade ao projeto de “salvação nacional”.

Depois de sua visita, intensificou-se a vinda de missionários norte-americanos conservadores (batistas, pentecostais independentes, assembleianos do sul dos EUA), inclusive para doutrinar congressistas brasileiros sob a capa de “ensino de inglês”. A expansão de templos com a formação teológica importada dos EUA foi instrumentalizada ideologicamente.

Simbolizou a fundação de novos ministérios brasileiros, inspirados na pregação televisiva e empresarial americana, como os televangelistas Edir Macedo, RR Soares, Silas Malafaia, enriquecidos com esses empreendimentos religiosos. Os templos e suas residências suntuárias são fruto da arrecadação de dízimos dos pobres-coitados submissos.

Nesse rastro de oportunismo se consolida, nos anos 1980 e 1990, o hoje chamado de evangelicalismo neopentecostal político-eleitoral, aliado a agendas conservadoras, ao mercado de empreendedores e ao autoritarismo punitivista.

Até os anos 1960, o catolicismo ainda era hegemônico como mediador simbólico do Estado e da sociedade no Brasil. Com a expansão evangélica — inicialmente entre os pobres e periféricos — e o avanço da ditadura, ocorre uma deslegitimação progressiva da Igreja católica de base, substituída por igrejas evangélicas moralistas, organizadas em torno da TV e do dízimo.

Emerge uma ética centrada na responsabilidade individual, na culpa pessoal e na redenção pelo consumo. O esvaziamento do pensamento crítico religioso, aconteceu por ser substituído por um fundamentalismo emocional, patriarcal, antifeminista, anticomunista, antilibertário.

A cruzada de Billy Graham no Maracanã é considerado, assim, um marco simbólico e estratégico da guinada do campo religioso brasileiro, da teologia da libertação para a teologia da submissão e da meritocracia espiritual. A hegemonia é deslocada do catolicismo para à política evangélica de controle das massas de pagadores de dízimos e eleitores encabrestados.

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Tal como diz Étienne de La Boétie, a chamada “servidão voluntária” não nasce de uma submissão irracional, mas sim de uma resposta racional e afetiva diante de um contexto de desagregação comunitária (quebra de vínculos tradicionais), precariedade institucional (Estado ausente ou hostil) e desigualdade estrutural e insegurança social permanente.

Nesse vazio nas periferias metropolitanas, o indivíduo busca proteção, sentido, reconhecimento. É onde as igrejas evangélicas entram com força. As igrejas — especialmente as neopentecostais e pentecostais clássicas — oferecem três elementos centrais para as classes populares urbanas.

O primeiro é o pertencimento identitário e comunitário. Frequentadores são tratados como “irmãos”, “familiares na fé”. Há uma comunidade regular e disciplinada, com vínculos afetivos. O culto semanal e os grupos de oração estruturam a semana, a vida e os afetos.

O segundo é o apoio social concreto e cotidiano, por exemplo, auxílio com cestas básicas, indicações de emprego, acolhimento em crises. Oferece apoio para sair de situações-limite como vício, violência doméstica, abandono. Incentiva a inclusão de migrantes urbanos e famílias desestruturadas.

O terceiro é a promessa de mobilidade social por meio de códigos morais e redes de oportunidade. A disciplina evangélica (não beber, não faltar, não roubar, obedecer) constrói capital moral valorizado em nichos do mercado de trabalho popular (construção civil, comércio, costura, serviços de beleza e cuidado, segurança).

A igreja oferece acesso informal a empregos por meio da própria comunidade (“irmão da igreja confiável”). Muitos pequenos negócios são estruturados na rede de confiança religiosa (barbearias, estúdios de beleza, lojas evangélicas, cursos de corte e costura, marmitarias). Logo, para o sujeito periférico, ser evangélico não é alienação — é estratégia adaptativa de sobrevivência com dignidade.

Porém, isso vira servidão política quando a figura agressiva do pastor midiático como Silas Malafaia opera como um “coronel espiritual” e monopoliza o discurso de verdade, falsifica os interesses morais e econômicos da comunidade, intermedia o acesso à visibilidade, ao mérito e à salvação. Com isso, ganha autoridade para indicar em quem votar, o que pensar, o que combater.

Em comunidades historicamente excluídas do debate público, o pastor se torna o canal pelo qual se “participa da política”, mas de forma hierárquica, acrítica e verticalizada. Aos poucos, o pertencimento religioso vira adesão política, o dízimo vira financiamento de campanha e a salvação vira instrumento de chantagem eleitoral.

Na Teologia da Prosperidade, a promessa não é de revolução remota, mas de ascensão individual aqui-e-agora. O discurso é “Deus vai te levantar se você for fiel. Pague o dízimo, obedeça, persevere, até sua bênção vir.”

Essa ideologia substitui o conflito por resignação meritocrática e promove uma forma de neoliberalismo espiritual. O pobre não é mais vítima do sistema, mas um “empreendedor da fé”. A injustiça não é estrutural ou sistêmica, mas falta de fé e esforço pessoal.

O político combatente do “comunismo” (ou do “petismo”) é apresentado como o herói moral da igreja. Assim, a base evangélica se alinha com projetos autoritários e antissociais, mas sob a aparência de fidelidade espiritual.

A servidão voluntária dos evangélicos, portanto, não é passividade — é resposta ativa à ausência do planejamento estatal na periferia e da solidariedade institucionalizada em templos. Ela se ancora em um modelo de autossuperação baseado na fé e disciplina moral, uma rede comunitária substituta dos serviços públicos (como saúde e educação) e atuante como família ampliada, uma identidade coletiva capaz de oferecer dignidade simbólica.

Romper com isso exige política pública de base, escuta real, cultura popular crítica e organização social. Caso contrário, enquanto a esquerda não volta às periferias, o pastor de direita já distribuiu cesta, oração, e indicou o candidato da próxima eleição.

Na imagem, Billy Graham, pastor batista e evangelista americano (1918-2018) / Reprodução

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