Crítica neoliberal ao Poder Legislativo e ao Poder Executivo do Brasil

Crítica neoliberal ao Poder Legislativo e ao Poder Executivo do Brasil

A reportagem revista britânica The Economist, intitulada “Brazil offers America a lesson in democratic maturity” faz críticas ao Congresso Nacional brasileiro. Elas se concentram principalmente no uso do orçamento federal como instrumento de poder político.

Entre as principais, destaca-se a apropriação do orçamento público. Nas últimas décadas, sobretudo diante de presidentes politicamente enfraquecidos (Dilma, Temer, Capachonaro), o Congresso assumiu para si maior controle sobre o orçamento federal. Hoje, deputados e senadores controlam diretamente cerca de um quarto dos gastos discricionários (aqueles que não são obrigatórios por lei), contra apenas 1% nos EUA.

Isso é visto como um “sequestro do orçamento”. Parlamentares destinam recursos para seus próprios projetos locais ou interesses paroquiais.

O Congresso aumentou seu poder de decidir sobre o destino dos recursos públicos, mas sem assumir a responsabilidade por problemas de equilíbrio fiscal ou eficiência do gasto. Nas palavras citadas: “tomaram todo o poder… mas nenhuma responsabilidade”.

A fragmentação partidária e o clientelismo regionalista agravam o problema. O aumento do poder orçamentário reforça interesses locais e paroquiais em detrimento de uma visão nacional de política econômica. Isso contribui para a dificuldade de governar o Brasil, já que o presidente precisa negociar fatias crescentes do orçamento para aprovar medidas.

A dependência do Poder Executivo possuir uma base governista para conseguir governar agravou-se quando presidentes enfraquecidos acabam cedendo mais poderes ao Congresso como forma de se proteger de impeachments ou bloqueios legislativos. Esse processo gera um círculo vicioso: quanto mais fraco o Executivo, mais o Legislativo amplia seu poder sobre o orçamento.

O problema é a atual conjuntura com neofascistas com um poder exagerado sobre maior parte do eleitorado evangélico ser um grande obstáculo à reforma. Para conter esse poder orçamentário, seria necessária uma reforma constitucional, mas ela dependeria do voto dos próprios congressistas. Como eles se beneficiam do arranjo, há um impasse estrutural.

A revista sugere apenas um presidente forte e com base sólida no legislativo poderia reverter esse processo. Na atual polarização ideológica é algo de difícil realização.

O Congresso brasileiro teria se tornado um ator orçamentário hipertrofiado. Ao controlar recursos públicos para fins paroquiais e clientelistas, enfraquece a governabilidade e dificulta o equilíbrio fiscal. Ao mesmo tempo, consegue escapar de responsabilidades pela condução econômica do país.

Um quadro comparativo mostra como o Congresso brasileiro, ao controlar o orçamento, se diferencia de outros parlamentos (EUA, Reino Unido, Alemanha). Revela também quais os riscos e vantagens desse modelo.

Congresso Nacional (Brasil) vs. Parlamentos em outros países

DimensãoBrasil — Congresso NacionalEUA — CongressoReino Unido — ParlamentoAlemanha — BundestagCríticas da The Economist
Controle do orçamento discricionárioDeputados e senadores controlam diretamente cerca de 25% dos gastos discricionários.Apenas 1% do orçamento é manipulado por parlamentares (“earmarks“).Poder de emenda restrito: governo central tem grande domínio sobre o orçamento.Parlamentares têm direito de emenda, mas com limites rigorosos e fiscalização do Tribunal de Contas.Brasil é caso extremo → “sequestro do orçamento” por interesses paroquiais.
Origem do arranjo atualCresceu a partir de presidentes enfraquecidos (Dilma, Temer, Bolsonaro): cederam poderes para sobreviver politicamente.Tradição de forte “checks and balances“, mas Executivo ainda lidera formulação orçamentária.Orçamento é essencialmente definido pelo Executivo, com poucas alterações possíveis no Parlamento.Processo altamente formalizado, com rígida disciplina fiscal e limites constitucionais.No Brasil, o Poder Executivo perde capacidade de coordenação macroeconômica.
Lógica políticaRecursos usados como moeda de troca em negociações e clientelismo → foco em projetos locais.Uso limitado de recursos para barganhas políticas (“pork barrel“), mas com visibilidade pública e controles.Sistema parlamentarista fortalece o Executivo, que depende de maioria estável.Coalizões parlamentares controlam orçamento de forma colegiada, mas dentro de teto fiscal constitucional.No Brasil, predomina fragmentação e paroquialismo em detrimento de políticas nacionais.
Responsabilidade fiscalCongresso gasta, mas não assume responsabilidade por desequilíbrios orçamentários.Fiscalização intensa, com debate público e papel ativo da oposição.Governo central (Tesouro) responde diretamente pela saúde fiscal.Regras fiscais constitucionais obrigam responsabilidade compartilhada.Congresso brasileiro: poder sem responsabilidade.
Dificuldade de reformaMudança exigiria reforma constitucional → depende dos próprios congressistas, que não têm incentivo.Mudanças possíveis por lei ordinária ou por pressão política.Estrutura centralizada reduz necessidade de grandes reformas.Alterações requerem maioria qualificada, mas há consenso em manter disciplina.No Brasil, ciclo vicioso: Congresso concentra poder e dificulta mudanças.

Dentro desse quadro, a vantagem brasileira é a maior descentralização de recursos. Atende bases locais e pode fortalecer a representação federativa. Os riscos identificados pela The Economist são: clientelismo, fragmentação partidária, enfraquecimento do Executivo e perda de responsabilidade fiscal.

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A reportagem da The Economist traz uma crítica tipicamente neoliberal à economia brasileira, com ênfase em três eixos: excesso de gastos obrigatórios, subsídios e privilégios corporativos, e travamento da política monetária pelo peso fiscal.

Naturalmente, a primeira das críticas neoliberais da The Economist à economia brasileira se refere à excessiva intervenção estatal e privilégios. O Brasil teria um modelo econômico “precário”, baseado em nepotismo, privilégios setoriais e subsídios permanentes.

Seus destaques são viesados. Isenções fiscais equivalem a 7% do PIB (em 2003 eram 2%), distribuídas a dezenas de setores escolhidos como “campeões nacionais”.

O crédito subsidiado e direcionado a empresas bem relacionadas por atuarem em setores estratégicos para o desenvolvimento brasileiros é criticado, porque pagam taxas de juros mais baixas enquanto o resto da economia arca com juros muito altos.

A revista critica também os gastos desproporcionais com pensões e salários no setor público, incluindo tribunais (1,3% do PIB, um dos mais caros do mundo) e militares (78% do orçamento de defesa vai para pessoal). Como era de se esperar, o diagnóstico neoliberal o Estado brasileiro ter sido capturado por corporações e grupos de interesse. Cria distorções de mercado, ineficiência e baixo crescimento.

Além disso, há amarras constitucionais aos gastos públicos. A Constituição de 1988 é apontada como fonte de rigidez e expansão automática dos gastos: 90% das despesas federais são obrigatórias por lei constitucional.

Há vinculação de gastos em saúde e educação ao crescimento da receita. Para proteger o poder de compra em uma economia historicamente inflacionária, há indexação de aposentadorias do setor público ao crescimento da taxa de inflação.

O diagnóstico neoliberal é curto e grosso, “Constitucionalização de políticas públicas” gera rigidez orçamentária, impede cortes e força o governo a recorrer a dívida.

Daí denuncia o ciclo vicioso fiscal-financeiro. Gastos elevados provocam a necessidade de emitir títulos de dívida pública, inclusive para pagamento de juros elevados (30% da receita em 2023) e sua rolagem.

Para os neoliberais a culpa não é de decisões discricionárias do Banco Central do Brasil, mas sim os juros altos tornam-se permanentes porque a política monetária precisa ser mais dura, devido a subsídios e crédito direcionado, como houvesse uma “inflação de demanda” no Brasil. Devido à independência da Autoridade Monetária, o próprio Estado paga caro para se financiar.

No caso, o diagnóstico neoliberal é simplório. Em defesa do Estado mínimo, aponta um círculo vicioso onde o Estado é grande gastador, grande devedor e, ao mesmo tempo, fator de instabilidade macroeconômica.

Desde a Era do Neoliberalismo, após o desenvolvimentismo de direita do regime militar ditatorial, há baixo crescimento e perda de dinamismo por parte da economia brasileira. Nas últimas duas décadas, o Brasil cresceu menos se comparado à China, Índia, Indonésia e Turquia.

Outra crítica é a economia brasileira ser pouco aberta: exportações representam menos de 20% do PIB, comparado a 90% do Vietnã. Teria de comparar com economias de porte similar ao da brasileira.

Novamente, critica a política de subsídios setoriais e tarifas protecionistas não ter gerado competitividade por parte das empresas transnacionais atraídas para explorar o mercado interno — e não usar a economia brasileira como “plataforma de exportação”.

O diagnóstico neoliberal é o habitual para as economias de capitalismo tardio. The Economist critica o modelo fechado e intervencionista, baixo dinamismo produtivo e estagnação relativa — e não a política de juros para controle da demanda agregada como esta pressionasse a inflação. É um pacto social em favor do rentismo das elites.

A receita neoliberal proposta exigiria algo sem viabilidade política: uma reforma constitucional profunda para reduzir obrigações de gasto, flexibilizar ou eliminar vinculações constitucionais (educação, saúde, pensões), cortar subsídios e isenções fiscais, abrir espaço para gastos em áreas de “produtividade” (infraestrutura, educação básica, inovação). Acabaria com a proteção social conquistada na Constituição de 1988!

Acima de tudo, para os neoliberais, está a disciplina fiscal: redução da dívida/PIB (projetada em até 20 pontos menores em 2034 se reformas avançarem). Pregam o reforço da política monetária porque, caso contrário, teria de eliminar distorções exigentes de juros reais altíssimos. Finalmente, a abertura econômica: reduziria protecionismo e integraria mais o Brasil ao comércio global.

The Economist enxerga o Brasil como uma economia travada por corporativismos, gastos constitucionais rígidos e excesso de Estado. Sua leitura neoliberal propõe “desconstitucionalizar” políticas públicas, reduzir subsídios, cortar privilégios e abrir a economia — apostando a disciplina fiscal e as reformas pró-mercado destravariam o crescimento. Imagine…

The Economist apresenta o Brasil como um país no qual instituições políticas (Congresso e STF) concentram poderes desmedidos e travam a governabilidade, enquanto a economia sofre de excesso de Estado, rigidez fiscal e privilégios corporativos.

A agenda neoliberal implícita é: reduzir o poder dos atores institucionais “excessivos”; flexibilizar a Constituição para permitir cortes de gastos e maior discricionariedade do Executivo; apostar em abertura econômica e disciplina fiscal para retomar o crescimento.

Download do Livro “Resistência Antifascista” com meus artigos recentes:

Fernando Nogueira da Costa — Resistência Antifascista — ago 2025

(+) Imagem em destaqueFfachada do Palácio do Planalto, sede do Poder Executivo brasileiro, em Brasília. Crédito: Wikimedia Commons

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