Eleições 2026: ‘vamos fazer a disputa’ nas redes e nas ruas, convoca Boulos

Em coletiva organizada pelo Barão de Itararé na quinta-feira (27/01), o atual Secretário-geral da Presidência discutiu desafios e caminhos para as eleições deste ano. (Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil)
POR TATIANA CARLOTTI
Os desafios do campo progressista e os caminhos para vencermos as eleições 2026 estiveram no cerne da entrevista com o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, organizada pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé.
Deputado mais votado de São Paulo, Boulos assumiu o posto em outubro de 2025 com a missão de “qualificar e ajudar a melhorar a relação do governo com a base social”. Neste ano eleitoral, afirmou à jornalista Talita Gali (TVT), ele estará onde “for melhor” para reeleger o presidente Lula e ampliar a base do governo no Congresso Nacional.
“Ganhar um projeto e esse projeto ficar sendo sabotado continuamente, inclusive com o sequestro orçamentário por meio das emendas, é um problema real”, afirmou Boulos ao defender a importância da eleição parlamentar. “Tenho compromisso com a construção de palanques competitivos, particularmente em São Paulo”, disse.
A comunicação é um dos grandes desafios deste ano e, entre eles, comunicar a candidatura de Lula à parcela jovem da população brasileira, salientou a jornalista Laura Capriglione (Jornalistas Livres). Para Boulos, o desafio não tem a ver apenas com a campanha eleitoral, mas com a “disputa do futuro”.
Ele mencionou que hoje a juventude está “hiperconectada nas redes sociais, com um tempo enorme de tela e de consumo de informação”. Destacando que a extrema direita conseguiu tornar seu conteúdo mais sedutor e viralizável, Boulos destacou ser preciso fazer a disputa ideológica para virarmos esse jogo.
“A extrema direita vendeu uma estética antissistema, mas com conteúdo totalmente sistêmico. Era uma estética de performar a revolta”, salientou. Pablo Marçal [seu oponente durante as eleições de 2024] “defendeu ideias mais velhas que a minha avó” e “as posições mais atrasadas do neoliberalismo meritocrático, ultraindividualista. Não tem nada de antissistema nisso. Muito pelo contrário, ele é um defensor dos bilionários”, acrescentou.
Boulos frisou que o sistema capitalista é controlado pelos bilionários, que são os donos do capital. “Quando a extrema direita foi antibiliardários? Ao contrário, a extrema direita e a direita historicamente são quem protege bilionários, atacam os direitos dos trabalhadores, são contra o fim da escala 6×1, a taxação dos super-ricos”.
“Mesmo com esse conteúdo totalmente pró-sistema, eles conseguiram vender uma estética antissistema pelo manejo da rede e se apresentar como novidade, mas um museu de novidades”, acrescentou.
O desafio é reverter isso, mostrando que Lula, de fato, é muito mais antissistema do que Bolsonaro. “As pessoas olham: ‘o Lula está na política há 40 anos, foi presidente três vezes’. Isso gera uma interpretação, por ele não ser uma novidade, de que ele está adaptado à ordem. Mas o governo Lula está zerando o Imposto de Renda do povo, taxando os super-ricos, as bets e, na noite de Natal, fez um discurso defendendo a redução da jornada de trabalho sem redução de salário. Isso é o terror do sistema”, lembrou.

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante a cerimônia de sanção do Projeto de Lei nº 1.087, de 2025, que amplia a faixa de isenção e institui a tributação mínima do Imposto de Renda. Foto: Ricardo Stuckert/ PR
‘Saímos da defensiva’
“Precisamos ter condições de comunicar esse processo”, disse, ao avaliar que o governo Lula vem avançando nesse sentido. À jornalista Lourdes Nassif (GGN), Boulos lembrou que apesar termos permanecido nos primeiros anos deste mandato na defensiva, com a extrema direita e o centrão pautando a agenda pública, “de oito meses para cá, houve uma virada importante, e o presidente foi protagonista disso, permitindo ao nosso campo não apenas respirar, mas retomar a ofensiva”.
Ele trouxe como exemplos as discussões em torno do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), da taxação dos bilionários, das tensões em torno do tarifaço do presidente norte-americano, Donald Trump, e da Lei Magnitsky. “Se o Lula fosse seguir conselho do Tarcísio [de Freitas], ele tinha dado uma vitória de presente para o Trump (…). Aliás, tenho me perguntado se o Tarcísio perdeu o bonezinho MAGA ou se ganhou vergonha na cara”, alfinetou.
Boulos também citou os enfrentamentos que ganharam força nas ruas, como a PEC da blindagem e a questão da anistia a Bolsonaro. “O legado de 2025 foi termos saído da defensiva”. Apesar disso, destacou, ainda há o desafio de sair da defensiva histórica e “aí entram a disputa territorial e a guerra cultural que não conseguimos alinhar inteiramente nas nossas tropas. Mas, em termos da defensiva conjuntural, nós saímos”, avaliou.
Boulos também comentou o impacto das políticas sociais e dos avanços econômicos nas urnas neste ano. À jornalista Dayane Santos (TV 247), ele destacou que a disputa da eleição de 2026 passa pela vida real.
“Nós temos a inflação mais baixa, o desemprego mais baixo, o aumento da renda do trabalhador, com aumento real do salário-mínimo nos quatro anos. O poder de compra do povo brasileiro aumentou”, afirmou.
Apesar de todos esses avanços, ponderou, “a disputa política será decisiva na campanha deste ano. Esse cenário de guerra cultural e ideológica que as redes sociais de algum modo patrocinam, o algoritmo leva a essa polarização, é uma faca, como dizia o velho corinthiano Vicente Mateus, de dois legumes”.
“Nenhum candidato vai chegar perto do que o Lula fez. Mas a questão não é só essa. A questão é: vamos fazer o debate ideológico. Quem defende quem? O presidente Lula defende o fim da escala 6×1. O que nossos adversários defendem?”, questionou.
“O presidente Lula se comporta como estadista, preservou a soberania nacional e não se ajoelhou para os Estados Unidos”, enquanto os adversários levaram uma gigantesca “bandeira norte-americana no 7 de Setembro, na Avenida Paulista”, respondeu Boulos.
“O governo Lula e a esquerda defendem o povo. Eles defendem o 1%, os milionários, o sistema. O governo Lula e a esquerda defendem a pátria, a soberania nacional. Eles fazem um discurso patriótico fajuto para defender a submissão aos Estados Unidos”, complementou.
Eleições em São Paulo
Questionado pelo jornalista Yuri Ferreira (Revista Fórum) sobre a disputa eleitoral em São Paulo, Boulos afirmou que o atual governador Tarcísio de Freitas é “um tigre de papel” e que tem uma “aprovação inercial” da direita paulista, porque o interior do estado tem um perfil mais conservador. “Mesmo que o governador não faça nada, vai ter uma aprovação inercial, mas ele tem muito telhado de vidro”.
Boulos citou o exemplo da privatização da Sabesp, “uma empresa lucrativa, bem avaliada, que prestava um excelente serviço para o povo de São Paulo (…) que, após um ano de privatização, aumentou a conta de água e a cidade está sofrendo um pré-racionamento”.
“As comunidades estão, depois das 5 da tarde, com a torneira seca. Nós vivemos isso no fim do ano e agora no início do ano. Quem é da periferia de São Paulo sabe perfeitamente do que estou falando”, afirmou.
Ele contou que no Natal, em Campo Limpo, onde reside, ele foi chamado pelos moradores de uma comunidade próxima. “Ô, ministro, pô, ajuda a gente aqui. Nós estamos há oito dias sem água”. Boulos ligou para o presidente da Sabesp e gravou um vídeo denunciando o caso. “A água voltou para aquela comunidade três dias depois, mas um ministro de Estado não vai poder ir a todas as comunidades para denunciar a falta de água”, salientou.
Boulos também analisou o envolvimento de atores do centrão e da extrema direita no escândalo envolvendo o Banco Master. Em novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da instituição financeira, agora investigada, entre outras suspeitas, pela emissão de títulos de crédito falsos e por inflar artificialmente os ativos do banco.
Ao jornalista Thiago Suma (DCM), o ministro destacou os esforços do governo Lula que colocou a Controladoria-Geral da União (CGU) para investigar o caso com transparência e deu autonomia à Polícia Federal. “É um caso de investigação. Deixa a Polícia Federal investigar e vamos ver como vai ficar isso”, apontou.
Tarefas no governo
Boulos também mencionou seus projetos para o governo, como o de levar aos 27 estados brasileiros pautas importantes, incluindo o fim da escala 6×1 e os direitos dos trabalhadores por aplicativos, no escopo do programa Governo do Brasil na Rua.
Outra frente informada pelo ministro consiste em colocar em prática o Orçamento do Povo. A ideia, explicou o ministro ao jornalista André Barrocal (Carta Capital), é “construir uma lógica, inclusive pedagógica, de apropriação do orçamento pela população”. A iniciativa reúne o Ministério do Planejamento e a Secretaria de Relações Institucionais.
Boulos criticou duramente as emendas impositivas e defendeu que elas sejam consideradas inconstitucionais na ação apresentada pelo PSOL no Supremo Tribunal Federal (STF). A matéria está sob a relatoria do ministro Flávio Dino.
“Nos governos Lula 1 e Dilma, o orçamento não era impositivo. O máximo da emenda parlamentar individual era de R$ 4 milhões; hoje, elas chegam a R$ 40 milhões, só as individuais”, criticou. Somadas às emendas das bancadas e das comissões, a Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2026 atinge R$ 61 bilhões destinados às emendas.
“Como você vai fazer uma política pública estruturante, em que o governo possa planejar e definir prioridades, se uma parcela tão grande do orçamento está sendo destinada no varejo, no picado, seguindo não o planejamento de política pública, mas uma lógica eleitoral? Está errado. Inclusive, é inconstitucional, porque isso toma uma competência do Executivo e a transfere para o Legislativo”, salientou.
Por fim, à jornalista Dríade Aguiar (Mídia Ninja), ele reforçou as medidas da Secretaria Geral para aplacar as diferenças regionais na concentração histórica de poder do eixo Rio–São Paulo–Brasília.
Um dos papéis centrais da Secretaria-Geral da Presidência é “estimular a participação popular da sociedade na base”, apontou o ministro. Ela tem o papel de garantir que o povo seja chamado à política “de uma maneira permanente, por meio de instrumentos de participação popular”.
“É o mesmo instrumento de participação popular que permite que o cidadão que mora lá na Faria Lima ou no Alto de Pinheiros, em São Paulo, seja tratado com o mesmo respeito que o cidadão que mora na periferia de Cuiabá ou de Rio Branco, no Acre”, frisou.
Nesse sentido, o programa Governo do Brasil na Rua, que conta com a atuação de 11 ministérios, pretende levar políticas de ponta do governo federal para vários estados. “O governo tem que ir para a periferia e chegar a Itaquera, M’Boi Mirim”, salientou, ao relatar a assinatura de investimentos para o Complexo da Maré, no Rio de Janeiro.
“Nós vamos levar 15 ministérios integrados à ação no Complexo da Maré. O primeiro investimento de R$ 170 milhões é do Ministério das Cidades, da Secretaria de Periferias, com moradia, urbanização, saneamento, contenção de encostas e infraestrutura. Já entrou o investimento da saúde”, apontou.
Por fim, o ministro salientou a necessidade da mídia independente na divulgação desses projetos. Em relação ao Orçamento do Povo, previu que o programa não terá visibilidade nem divulgação da grande mídia. “Nós vamos precisar muito da mídia progressista para que ele se torne um instrumento de participação e mobilização da sociedade nos quatro cantos do Brasil”, afirmou.
Boulos finalizou a entrevista agradecendo à mídia independente e convocando esforços frente aos desafios deste ano eleitoral. “Temos um desafio enorme neste ano pela frente, um desafio de futuro do nosso país. Estou muito confiante de que sairemos vitoriosos, garantindo mais um mandato para o presidente Lula”, concluiu.
Assista à coletiva de Guilherme Boulos no Canal do Barão.

Tatiana Carlotti é repórter do Fórum 21 desde 2022. Cobre política e sociedade, confira aqui.
