Epílogo da grande potência

Por Fernando Nogueira da Costa
O Epílogo, intitulado “Da guerra, a distância”, do livro de autoria de Grégoire Chamayou, Teoria do Drone (2015), consiste na reprodução de um artigo visionário de 1973, publicado originalmente na revista militante Science for the People por jovens cientistas engajados no movimento antiguerra.
Escrito logo após a Guerra do Vietnã, previu uma nova forma de conflito substituir a guerra aérea tradicional por meio da guerra à distância, baseada em sistemas pilotados remotamente, onde o operador receberia informações via sensores em um local seguro. O texto descreve essa modalidade como “uma guerra de máquinas humanas contra o corpo humano”, na qual um lado perde pessoas e o outro ganha apenas “brinquedos”, porque não morre.
O artigo de 1973, resultante de uma geração pacifista, destaca a guerra a distância alterar o equilíbrio de poder interno nos Estados Unidos. Por ser muito mais barata diante a guerra aérea, ela evitaria objeções orçamentárias do Congresso, dando liberdade total ao exército e à CIA para intervir onde escolhessem.
Os pacifistas previam: essa tecnologia calaria os movimentos antiguerra por meio do silenciamento da crítica, pois “brinquedos não têm mães nem esposas para protestarem contra suas perdas”. Sem o peso das baixas nacionais e com a (falsa) promessa de “precisão”, as críticas éticas e ecológicas seriam neutralizadas.
Os autores anteciparam a alienação dos operadores, chamados de “guerreiros por televisão”. Eles nunca seriam confrontados com a própria morte e perderiam a capacidade de distinguir entre realidade e ilusão.
O ambiente de trabalho seria uma extensão do cotidiano suburbano. O “guerreiro” se instalaria diante da tela, após o café da manhã, aproximando a sociedade de um cenário orwelliano (“1984” é um romance distópico do escritor inglês George Orwell publicado em 1949) ao bombardear o resto do mundo. Depois, descansaria…
O livro de Grégoire Chamayou, Teoria do Drone (2015), defende uma ação coletiva, oferecendo uma perspectiva política sobre o fenômeno, inspirada neste artigo.
Para o coletivo, isto é, a comunidade de cidadãos da sociedade civil, entre o Estado militarizado e o Mercado tecnológico, o desenvolvimento dessas máquinas letais não demonstra força, mas a fraqueza do capitalismo imperialista. Precisa de soluções tecnológicas porque suas guerras já não são politicamente aceitáveis pela maioria da população eleitora consciente.
A “precisão sobre-humana” e a “invencibilidade” dos drones são mitos capazes de levarem à passividade e ao “chauvinismo técnico-intelectual”. O bombardeio, mesmo caso fosse “preciso”, situação sem confirmação na realidade com a morte de inúmeros civis inocentes, inclusive crianças em escola, continua sendo uma arma de terror, destinada a destruir o tecido social de outros países.
A tecnologia não é invencível e o verdadeiro poder de transformação reside nos segmentos oprimidos da sociedade. O autor do livro incentiva a resistência política em vez da aceitação passiva da supremacia tecnológica.
A guerra com drones, especialmente com a popularização dos modelos de “custo/benefício”, transformou a economia de conflitos modernos, reduzindo custos de ataques “suicidas” de drones, enquanto elevou drasticamente os custos de defesa e infraestrutura dos atacados. No entanto, esta tecnologia, caso seja dominada pelo resto do mundo, brevemente, permitirá atores com orçamentos limitados desafiarem grandes potências.
Entre os principais efeitos econômicos, encontra-se a assimetria de custos como um desafio à Economia de Guerra do passado. Hoje, os ataques diretamente são baratos. Drones kamikaze podem custar cerca de US$ 725 cada, permitindo ataques em larga escala contra alvos de alto valor.
A defesa é muito cara. A interceptação de drones baratos exige mísseis de defesa aérea. Custam milhões de dólares, gerando uma assimetria econômica, onde a defesa seria insustentável em longo prazo.
Dá um alto prejuízo ao inimigo. Um ataque com 117 drones de baixo custo pode causar prejuízo não inferior a US$ 7 bilhões à infraestrutura de um adversário.
Mas a avaliação do impacto na infraestrutura e energia não pode ser unilateral. Os milicos colocam alvo na indústria energética do inimigo. De fato, o uso de drones, particularmente os treinados por IA, tem sido eficaz em atacar refinarias, bases aéreas e pontes, resultando em interrupções na produção e distribuição de energia e combustíveis.
Porém, não avaliam bem a ameaça a tecnologias próprias. A guerra atual coloca data centers e infraestrutura tecnológica na mira, aumentando os custos de segurança corporativa das big techs.
Esta “guerra de atrito” militar, provoca também uma mudança na cadeia de suprimentos. A alta necessidade de drones de baixo custo pressiona a cadeia de suprimentos e leva a uma “guerra de atrito” industrial, onde a capacidade de produção rápida é crucial.
Os extremistas-de-direita também não têm capacidade cognitiva para a avaliação da dependência externa. A necessidade de componentes, grande parte vindo da China, cria gargalos na produção de drones de defesa no Ocidente.
O impacto social imediato é desigual, mas o impacto financeiro se alastra para a população mundial.
Drones diminuem a necessidade de perdas humanas dos compatriotas. Reduz o custo político e social imediato da guerra para quem ataca.
Porém, essa redução de custos com vidas de militares conterrâneos, logo, será deparada com o aumento do custo de vida de toda a população. Devido à valorização do dólar, emergirá a “inflação importada” para os americanos muito dependentes de produtos estrangeiros.
E não é só isso. O “choque do petróleo” comprova a economia de hidrocarbonetos ser ainda predominante. O aumento do custo do combustível alastra uma inflação pelos efeitos encadeamentos em todo o mundo. Provavelmente, a potência rival é a mais preparada com energias alternativas.
A energia eólica é uma das fontes renováveis que mais cresce no mundo, sendo a terceira mais utilizada (após hídrica e solar), com capacidade instalada superior a TW em 2024, destacando-se China, EUA e Brasil. Ela transforma a força dos ventos em eletricidade, crucial para descarbonizar a matriz elétrica mundial.
China é o principal polo mundial, mas EUA, Alemanha, Brasil e Índia concentram boa parte da capacidade instalada. Outras fontes alternativas, para geração de eletricidade, são a energia solar, fonte mais acessível e em rápida expansão mundial, a energia hídrica, a maior fonte renovável em uso, biomassa, a queima de resíduos orgânicos, para gerar energia elétrica, importante no Brasil, o hidrogênio verde, promissor por ser gerado a partir de fontes renováveis (como a eólica) para produzir eletricidade.
Porém, ainda não há substituto para o combustível para a maioria dos veículos usados, em todo o mundo dependentes do derivados do hidrocarboneto, isto é, o petróleo. Provocará uma multiplicadora inflação de combustível!
O aumento da tensão geopolítica e os gastos com defesa valorizam o dólar como reserva de valor em curto prazo. Mas os gastos com bases militares e Força Aérea aumentam ainda mais e explodem a dívida pública americana, levando à fuga dos treasuries (títulos de dívida pública dos EUA) em longo prazo.
Em resumo, a guerra contemporânea criou uma “era de drones baratos”. Desafia a economia de guerra tradicional, tornando a defesa muito mais cara, diante o custo barato do ataque, em termos imediatista, mas maximizará os danos financeiros em todo o mundo.
Os Estados Unidos estão na antepenúltima fase de decadência social de grande potência, mas antecipam a rapidez da penúltima fase de perda de status de moeda de reserva. Finalmente, ocorrerá o colapso. O estágio final não significará necessariamente o desaparecimento do país imperialista, mas a perda definitiva do seu status de superpotência. Já deu…
Imagem Irna

Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da UNICAMP. Obras (Quase) Completas em livros digitais para download gratuito em http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/). E-mail: [email protected].
