Fé manipulada versus esquerda tecnocrática

Por Fernando Nogueira da Costa
Devemos discutir como a esquerda poderia reconstruir uma narrativa econômica popular, mesmo se a pauta em defesa de costumes conservadores seja o predominante na aliança entre evangélicos populares e populistas de direita. Seus adeptos submissos desprezam os bons resultados econômicos do governo Lula.
Isso não é um paradoxo, é um resultado coerente da forma como a aliança democrática antifascista foi construída. Vamos destrinchar por quais razões a pauta de costumes consegue se sobrepor até aos bons resultados econômicos e se isso revela algo novo sobre o impasse da esquerda.
Primeiro, a aliança entre pastores evangélicos com penetração em periferias populares e o populismo de direita não é econômica. Ela é moral-identitária.
Para amplos segmentos evangélicos com penetração popular a política não é avaliada prioritariamente por indicadores macroeconômicos. Ela é vivida como defesa da família, proteção moral, guerra espiritual, afirmação de dignidade simbólica.
Crescimento do PIB, emprego ou renda não entram diretamente nessa gramática. Quando a direita diz “esse governo petista ameaça seus valores, sua família e seus filhos”, ela ativa medo e pertencimento, não cálculo econômico.
Bons resultados econômicos não geram automaticamente adesão política especialmente quando os ganhos são difusos, graduais e técnicos. A experiência cotidiana popular segue marcada por insegurança, endividamento, informalidade e violência.
Além disso, muitos benefícios são percebidos como direitos adquiridos, não como conquistas políticas. Outros são apropriados simbolicamente por igrejas, líderes locais ou redes comunitárias, não pelo governo. A economia melhorou muito, em 2023-2025, mas a narrativa não chega “assinada”.
A direita tem chances de vencer no terreno do sentido, não dos resultados. O populismo conservador opera com três chaves simples.
Primeiro é destacar identidade antes de interesse. “Você é antes de tudo cristão, pai/mãe, cidadão de bem.”
Segundo, é a moralização da política. A esquerda não erra políticas públicas: ela é apresentada criticamente por “corromper valores cristãos conservadores”. Daí brota a “personalização do mal” em figuras como Lula, STF, professores, artistas, “globalistas” etc.
Isso cria um mapa emocional do mundo onde bons resultados econômicos podem coexistir com rejeição política. Senão, são vistos como “enganosos” ou “temporários”.
O erro recorrente da esquerda nesse contexto é responder assim: “mas os dados mostram melhora”, “mas o salário cresceu”, “mas o desemprego caiu”… Isso não dialoga com uma base cuja adesão é simbólica, moral, comunitária, afetiva.
Pior: quando a esquerda trata a pauta conservadora como fruto da “ignorância” ou do “atraso”, reforça a identidade sitiada, explorada pela direita como esnobismo da elite com formação universitária.
O nó estratégico a ser desatado é o problema não ser a esquerda falar de economia. É como ela fala e o que deixa de articular. Falta uma narrativa capaz de dizer, ao mesmo tempo, por qual razão a vida material melhora (ou não), quem bloqueia essa melhora, e como isso se conecta à dignidade cotidiana, ao cuidado, à família na vida real – e não abstrata.
Enquanto isso não acontece, a direita oferece sentido moral sem solução econômica e a esquerda oferece solução econômica sem sentido moral compartilhado.
Por isso, mesmo com bons resultados econômicos do atual governo social-desenvolvimentista, a pauta conservadora pode predominar porque ela organiza pertencimento, medo e identidade — coisas incapazes de os números fazerem sozinhos. A disputa eleitoral não será entre “bons e maus resultados”,
mas entre quem dá sentido à experiência social.
Para discutir como articular política econômica com linguagem moral não reacionária ou analisar por qual razão templos religiosos conseguem traduzir sofrimento econômico em narrativa predominante, enquanto o Estado não consegue, vamos explicitar o mecanismo, porque ele é menos “religioso” do que organizacional, simbólico e comunicacional.
As igrejas neopentecostais conseguem traduzir sofrimento econômico em narrativa poderosa porque elas falam a partir da experiência, não de indicadores. Escuta o sofrimento antes de explicá-lo. Nomeia dor, humilhação, fracasso, medo. Oferece sentido antes de solução.
O Estado, enquanto isso, fala em PIB, taxa de desemprego, inflação. Chega com diagnóstico técnico. Espera a experiência cotidiana “se ajustar” aos bons números. Quem sofre não quer primeiro explicação — quer reconhecimento de sua individualidade como consolação.
O Brasil possui 579,8 mil estabelecimentos religiosos (incluindo igrejas, templos, sinagogas, terreiros, entre outros), conforme dados do Censo 2022, divulgado pelo IBGE. Esse número supera a soma de todas as unidades de ensino (264,4 mil) e de saúde (247,5 mil) no país, totalizando aproximadamente 286 locais de fé para cada 100 mil habitantes.
Eles oferecem narrativa total, não política setorial. A religião conecta trabalho precário, endividamento, crise familiar, violência, culpa e esperança, em uma história única, inteligível, emocionalmente coerente.
O Estado fragmenta assistência social aqui, emprego ali, saúde acolá, tudo sem fio narrativo comum. Então, enquanto a igreja dá sentido de mundo, o Estado entrega programas.
Os estabelecimentos religiosos transformam sofrimento em dignidade moral. A narrativa religiosa diz: “você não é pobre porque falhou”; “você está sendo provado”; “você é digno, escolhido, visto”.
O discurso estatal costuma soar como: “você é vulnerável”, “beneficiário”, “público-alvo”. Um oferece elevação simbólica, o outro classificação administrativa.
As religiões operam em escala humana com linguagem simples, repetitiva, ritualizada. Sua presença territorial é constante. Tem relação face a face. Cria uma comunidade acolhedora, vigilante e protetora.
O Estado fala por documentos, telas, cadastros. Aparece de forma episódica. Logo, é impessoal, distante, burocrático. O vínculo afetivo precede a adesão política à reeleição de um governo.
As comunidades religiosas oferecem responsabilização sem desespero. A teologia popular costuma dizer: “mude sua vida, mas Deus caminha com você”.
O Estado frequentemente comunica: “o problema é estrutural” (como é de verdade), mas sem traduzir isso em agência cotidiana. A igreja devolve controle subjetivo e o Estado explica a perda de controle.
E por qual razão o Estado não consegue isso, não é incapacidade técnica. É limitação estrutural. O Estado fala a linguagem da gestão enquanto a igreja fala a linguagem do sentido. O Estado evita moralidade, ao contrário da igreja ,capaz de viver de moralidade. O Estado promete políticas e a igreja promete redenção, embora simbólica.
Onde o Estado oferece política sem narrativa, a igreja oferece narrativa sem política. Em contextos de sofrimento prolongado, a narrativa (mesmo ilusória) vence.
O desafio da esquerda e do Estado não é “competir com a fé”, mas reconstruir uma linguagem pública capaz de devolver sentido, dignidade e pertencimento, sem cair no moralismo reacionário. A esquerda perdeu essa capacidade ao se tecnocratizar.

Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da UNICAMP. Obras (Quase) Completas em livros digitais para download gratuito em http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/). E-mail: [email protected].
