Manual de boas maneiras diante do tripé tucano

Manual de boas maneiras diante do tripé tucano

Alpinista Andaime é uma daquelas figuras megalomaníacas ao se nomearem como porta-voz de O Mercado sobrenatural, porque onipresente, onipotente e onisciente – embora essas duas virtudes sejam logicamente incoerentes: ou uma ou outra. Seus discursos redundantes, excessivos e supérfluos, ao clamarem o Fantasma do Tripé Macroeconômico só têm a intenção de calar quaisquer vozes críticas e antagônicas, mas acabarão sendo enterrados junto com o natimorto PSDB.

Um ex-VP do “Banco de Chicago” (naturalmente teleguiado pela Escola de Chicago) vagueia pela imprensa brasileira, repetindo o mesmo mantra: só tecnologia, produtividade e, acima de tudo, capital geram crescimento. Logo, a sociedade, representada por mão de obra, território e recursos naturais são “linhas supérfluas”, possíveis de serem abstraídas, senão eliminadas. Gente, ao ter seu trabalho explorado, só gera denúncia da desigualdade por esquerdista…

Sua bronca com a escolha de especialistas “de esquerda” pelo colunista do Valor é puro pânico ideológico: ele teme o leitor descobrir haver vida inteligente fora da liturgia do tripé macroeconômico, consagrado como eterno. Assim, pede “mesclar vozes do mercado”, como quem recomenda colocar apenas uma rodela de limão esquerdista, na caipirinha, para disfarçar o gosto da viciante cachaça neoliberal.

O detalhe mais típico de “quem cospe no prato onde comeu” é sua mea-culpa rancorosa contra A Professora, considerada a economista mais importante na história da profissão. Ele foi aluno dela, na UFRJ, mas diz mas diz não se orgulhar disso, porque ela lhe teria ensinado “um monte de porcarias”.

Traduzindo: ela lhe ensinava história, estrutura, dependência, contradições; mas Andaime queria apenas subir na carreira em O Mercado por meio de um pensamento binário, tipo Tico-e-Teco. Seus “dois neurônio” (sem S) só conseguiam entender as duas curvas de oferta e demanda – e esta é do mal, isto é, keynesiana.

Ele não se orgulha da tentativa dela em lhe ensinar, mas sim de ele nada aprender, porque logo entendeu ser suficiente, para seu carreirismo mercantil, ostentar, sem rubor, orgulho pelo natimorto PSDB e seu tripé de adoração da austeridade fiscal. Reza, diariamente no jornalismo econômico brasileiro, um pedido de benção do Santo Malan e do São Armínio, pregadores do equilíbrio primário, jamais alcançado no governo efe-agá-cê, mas milagreiros ao justificarem os juros disparatados para conquista da estagdesigualdade brasileira: fluxo de renda estagnado e estoque de riqueza concentrado.

No fundo, o ideário de Andaime é um sonho nostálgico: um Brasil eternamente congelado em 1994, senão no máximo no antigo milênio (1999). O Plano Real precisa apenas de mais um governo do PSDB para se consolidar… snif, snif

O Plano Real está mumificado e exposto em redoma de vidro no Museu da Casa da Moeda, mas os eternos tucanos de terno-e-gravata, no Templo da Faria Lima, insistem em rezar “Creio no Tripé” e “Pai Nosso que estais na Escola de Chicago”. E, claro, todo colunista ao ousar ouvir outra voz, situada à esquerda, deve, por cautela, fazer a genuflexão diante da exclamação: “O Mercado pensa o contrário, logo cala-te, herege!”

Diante tal impertinência desenvolvimentista de seu colunista, chamado a atenção por vozes de O Mercado, o Conselho Editorial resolveu por bem editar um “Manual de Boas Maneiras diante do Tripé Tucano” para os colunistas de Valor. Sujeitou sua edição à revisão do ex-VP do Banco de Chicago (ops, da Escola de Chicago, fiel seguidora de São Friedman), e aspirante a ascender via andaimes ideológicos até atingir o posto de Santo Padroeiro do Superávit Fiscal.

  1. Saudação inicial: Antes de escrever qualquer coluna, curve-se diante do altar do Tripé Macroeconômico. Reze três vezes: “metas irrealistas de inflação, câmbio flutuante supervalorizado, superávit fiscal inalcançável — livrai-nos da heterodoxia, amém”.
  2. Sobre os especialistas: Jamais consulte economistas de esquerda. Isso soa como heresia! Eles podem falar em desigualdade, Estado desenvolvimentista ou até — audaciosamente — planejamento! É preciso “mesclá-los” com muitas vozes de O Mercado, assim como quem mistura suco de maracujá (e não álcool) com Rivotril: garante o tom certo de sonolência e neutraliza qualquer entusiasmo crítico com permanência fiel ao consagrado Tripé da Santíssima Trindade (efe-agá-cê, Santo Malan e São Armínio).
  3. Correção monetária: Se ela ainda existe, não é porque o rentismo adora os títulos de dívida pública indexados e ainda mais com um belo cupom para garantir sua renda sem risco inflacionário. Não, não! O culpado é o governo gastador, claro. Se Brasília não comprasse papel higiênico para os ministérios ou livros didáticos para as escolas, a indexação já teria desaparecido, milagrosamente, em um passe dessa mágica. (Ignore, por conveniência, até aluguel de quitinete e tarifa de escola privada seguirem, religiosamente, o “espírito da correção monetária”.)
  4. Sobre A Professora: Caso você tenha estudado com ela, trate de declarar em público ter só aprendido “porcarias” — e ter pagado por isso. É uma forma de penitência a pena autoimposta, para expiação de um erro cometido, com demonstração pública de arrependimento ou remorso por haver ofendido os  Três Mandamentos divinos (necessários e suficientes) do Tripé. Repita sempre: o verdadeiro saber vem da Escola de Chicago e a crítica estruturalista é como novela mexicana: dramática, redundante e, claro, inútil para “pensar fora da caixa” — e adotar uma abordagem criativa e inovadora, para resolver problemas brasileiros, abandonando padrões de pensamento tradicionais e buscando soluções originais.
  5. Sonho tucano: Mantenha viva a fantasia de um Brasil ainda em 1994, com o Plano Real em conserva, PSDB no poder e todos os problemas resolvidos pelo tripé mágico do milênio passado. Afinal, o tempo só passa para os juros compostos se acumularem… o resto do país, ao teimar em envelhecer, desindustrializar-se e precarizar-se, desaparecerá – e reinará só a Faria Lima!
  6. Finalização: Conclua sua coluna lembrando ao leitor: “O Mercado tem sempre razão”. Se O Mercado disser o céu é verde-oliva e a dívida pública é pecado original, anote e publique sem pestanejar. Assim se cumpre a boa etiqueta tucana.
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Para finalizar, rezemos a Oração do Tripé Tucano (rezada em uníssono nas missas dominicais da Faria Lima).

Creio na Escola de Chicago onipotente, criadora do superávit fiscal sem impostos,

creio no Tripé, seu filho legítimo, concebido pelo espírito tucano,

nascido como um reparo do Plano Real, sofrido sob a heresia da heterodoxia,

crucificado pela gastança social, abandonado pelos keynesianos,

mas sempre ressuscitado nos relatórios de O Mercado.

Creio na sacrossanta austeridade da Santíssima Trindade,

na comunhão dos rentistas com a hóstia do juro disparatado,

na ressurreição do câmbio flutuante, apreciado contra a inflação importada,

e na vida eterna das metas irrealistas de inflação.

Amém.

Na imagem, charge de Latuff publicada no Blog do Miro / Reprodução

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