Não é preciso ser ‘influencer’ para ajudar Lula nas redes; saiba o que fazer
Jornalista Larissa Gould explica como podemos contribuir com a campanha do presidente Lula nas nossas redes sociais neste ano decisivo para o Brasil. Acompanhe a entrevista que dá sequência, por outros meios, às discussões levantadas pelo Ciclo do Barão, com apoio do Fórum 21 e da Fatoflix, voltado para o mundo sindical e para quem luta pela democracia e justiça social. (Foto: Ricardo Stuckert/PR)
Por Tatiana Carlotti
A quatro meses da eleição, todos nós, eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, organizados ou não, estamos convocados para derrotar a extrema direita, atuando nas nossas redes de influência. Para nos orientar na batalha eleitoral no ambiente virtual, o Fórum 21 conversou com a jornalista Larissa Gould, pesquisadora do Monitor do Debate Político Digital, dirigente do Sindicato dos Jornalistas e representante do Barão de Itararé no Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC).
Larissa, que também é doutoranda em Estudos Culturais (EACH-USP), afirma que não importa o número de seguidores que você tenha, nem a rede que pretende atuar. Neste momento, “todo mundo é um pouco influenciador nas redes sociais” e poderá fazer a diferença na campanha, contribuindo de forma qualitativa, inteligente e eficaz. Ao Fórum 21, ela dá dicar preciosas de como podemos contribuir para eleger o presidente Lula a partir das nossas redes sociais, salientando o papel central da militância “de porta em porta” neste ano eleitoral.
Acompanhe a entrevista que dá sequência, por outros meios, às discussões levantadas pelo Ciclo do Barão, com apoio do Fórum 21 e da Fatoflix, voltado para o mundo sindical e para quem luta pela democracia e justiça social.
Larissa, eu tenho poucos seguidores e curtidas, mesmo assim quero ajudar o presidente Lula a vencer as eleições. O que devo fazer?
Larissa Gould – Isso não importa. Todo mundo é um pouco influenciador nas redes sociais e você não precisa ser influenciador para ajudar na campanha. Aliás, muito pelo contrário, nós temos a ideia de que para influenciar é preciso ter milhões de seguidores, mas não é assim que funciona.
Cada vez mais as marcas de roupa, de maquiagem, estão trabalhando com microinfluenciadores. Elas perceberam que é mais efetivo e mais barato estar ligadas aos influenciadores pequenos. Isso ocorre por dois motivos: primeiro, porque os microinfluenciadores são pessoas reais e próximas para seus seguidores. Quando você conhece quem está te oferecendo uma marca, isso gera maior empatia e credibilidade.
Segundo, porque através desses microinfluenciadores as marcas chegam até grupos que, no geral, não seriam alcançados, obtendo uma resposta mais imediata.
Da mesma forma, na campanha eleitoral, por menor que seja a nossa rede, ela tem essa capacidade de permitir que as campanhas entrem em circuitos não poderiam ser alcançados. Chegar nos nossos vizinhos, por exemplo. Isso é muito importante neste momento.
Aliás, é importante dentro e fora das redes. Nós mencionamos as redes sociais e como usá-las, mas há uma atuação política fora do ambiente virtual. O que vale para as redes também vale para o presencial. Ou seja, tem sim que engajar e postar nas redes sociais, mas precisamos dar bom dia para os vizinhos e perguntar “você viu que o governo agora está permitindo empréstimo para fazer obras? Estou pensando em arrumar o meu quintal com isso”.
Para começar esse trabalho, dentro de uma rede qualquer, onde eu procuro informação?
Larissa Gould – Há dois tipos de informações para você trabalhar: as oficiais que são postadas nas páginas dos governos e campanhas; e as não-oficiais que passam ideias, informações e os valores que defendemos.
Sobre as entregas do governo Lula, existe toda a rede gov. que está muito bem atualizada, divulgando materiais muito bons que explicam os programas sociais. Essa pauta da jornada de trabalho, a campanha contra a jornada 6 X 1, tudo isso está disseminado nestes espaços.
Quem quiser um conteúdo mais engajado de campanha tem a opção das páginas partidárias do PT, PC do B, PSOL e dos próprios parlamentares que estão em pré-campanha. Ir nessas páginas é bom porque você já se engaja com os deputados que quer eleger e divulga as propostas dos partidos.
Algumas páginas não são oficiais, mas estão relacionadas como o Lulaverso, o timelulabrasil ou o ma influencer. E existem várias páginas que geram conteúdos bacanas, mas não estão relacionadas a partidos e campanhas. Nós vimos a enxurrada de postagem criticando a fala do Luciano Huck sobre o Bolsa Família. É um conteúdo não diretamente ligados às nossas páginas que pode ter maior chance de ser aceito pelos que não estão organizadas e não se identificam com partidos políticos.
O importante aqui, independente das páginas que você escolha, é entrar nelas e não ficar esperando que o conteúdo chegue até você. É preciso tomar a iniciativa até porque, muitas vezes, as plataformas podem não te entregar o que está ali.
Você pode usar uma hora do dia para entrar nas páginas oficiais dos partidos, dos parlamentares, dos movimentos ou das pessoas que você gosta e curtir essas páginas, compartilhando seus conteúdos nos stories ou nas DMs, que são as mensagens diretas que enviamos aos nossos amigos. O importante é sempre escolher o que faz sentido para você e para quem te segue.
Há uma rede prioritária que devemos investir?
Larissa Gould – Não. Cada rede tem seu público, sua região e faixa etária. Muitos diziam que o Facebook morreu, mas não é verdade. O Instagram tem um público forte, mas é preciso saber mexer nele. O que precisamos ter em mente é que não existe uma única rede. Cada um tem aquela que gosta e atua mais. É nessa que você deve investir.
O Tik Tok, por exemplo, é mais forte no Sudeste e tem um público mais jovem. O Kwai que é mais forte no Nordeste. De forma geral, o Instagram tem uma rede maior e o WhatsApp é a mais utilizada, porque engloba um grande público de pessoas com menos recursos financeiros.
Instagram e WhatsApp têm boas chances de alcance, mas o fundamental é escolher a rede que você já atua com frequência interagindo com as pessoas. Eu, por exemplo, só uso o TikTok para trabalho, então, não tem sentido investir nessa rede. Meu uso mais forte é no Instagram, é ali, portanto, que vou atuar porque entendo as pessoas e a dinâmica dessa rede.
Para ajudar na campanha, o mais eficaz é engajar na rede em que você já tem entrada, não adianta começar um trabalho numa rede nova. Se você usa mais o Facebook, atue nele; se é WhatsApp, fique nele. O caminho é conhecer o seu público e saber com quem você está falando, o que agrada e não agrada.
No Instagram, qual é a melhor forma de atuar? É publicar post no feed? Usar o story?
Larissa Gould – Tudo depende do perfil. Páginas de notícias usam o feed e isso não tem problema. Para quem faz conteúdo institucional, por exemplo, os stories prejudicam porque eles só ficam no ar por 24 horas. Se você quer colocar um conteúdo que as pessoas possam buscar depois, é bom postar no feed.
Agora, para quem está querendo atuar na campanha, em geral, os stories têm muito mais interação do que o feed. Fazer coisas boas nos stories é muito bacana para pessoas físicas. Depois, você pode pegar os stories que tiveram mais engajamento e jogar no feed, para que as pessoas possam compartilhar ou repostar esse conteúdo.

Eles inventaram uma nova ferramenta agora, que aparece na parte das mensagens que enviamos aos amigos dentro do Instagram. Vale usar isso?
Larissa Gould – É o Instance. Essa é uma aposta da Meta e como é algo novo, que eles querem que pegue, vale usar porque eles estão entregando mais. Parece ser algo que, teoricamente, a gente vê sem a interferência do algoritmo, mas não temos ainda muitos dados sobre disso. Em tese, tudo o que colocamos ali as pessoas recebem.
De forma geral, tudo de novidade que as redes sociais colocam no início é legal utilizar porque tem entrega, afinal, eles estão querendo emplacar aquilo. É como o Uber no começo que chegava com água, balinha… Quando o Instagram quis competir com o TikTok, eles estavam entregando muito mais os reels do que estão agora, porque queriam ser uma plataforma de vídeos curtos.
A ferramenta foi criada como resposta ao incômodo das pessoas com o algoritmo que faz com que a gente receba um determinado conteúdo e pare de ver outras coisas. Foi uma solução dada pela Meta que funciona como uma troca com os amigos.
Para fazer a campanha no tête-à-tête, o Instance funciona. É o mais próximo do “bater na porta do vizinho”, mas insisto: bater efetivamente na porta e conversar com o vizinho, olho no olho, é mais importante.
Qual a melhor forma de compartilhar vídeos nas redes sociais? No curso do Barão, você mencionou que a gente não deve baixar um vídeo de que gostamos e depois subi-lo, mas sim compartilhar direto usando os recursos da rede.
Larissa Gould – Sim, se for um vídeo de uma página que você quer ajudar a fortalecer, por exemplo, a página do Lula, de um candidato ou de um partido, não faz sentido nenhum você baixar esse conteúdo e subir no seu Instagram.
Compensa compartilhar aquele vídeo da página original nos stories ou repostá-lo no seu feed. Quando você reposta um conteúdo, ele chega nas pessoas que não seguem aquela página. O algoritmo funciona um pouco dessa forma. Então, ao repostar, ele irá alcançar mais pessoas e fortalecer as páginas que precisam ser fortalecidas.
Compartilhar nos stories e repostar o conteúdo das páginas originais é uma forma excelente de impulsioná-las porque o algoritmo entrega o que as pessoas estão visualizando mais. Esse é o critério. Quanto mais uma pessoa vê aquilo, mais ele será entregue. Aquele aviãozinho que você clica para compartilhar o vídeo dessa página original nos seus stories ou nas DMs (mensagens diretas) dos seus amigos indica para o algoritmo que você gostou daquele conteúdo. Quanto mais interação, mais as pessoas vão visualizar e mais a plataforma entende que deve entregá-lo.
Aliás, se você envia para os seus amigos e eles também compartilham, isso pode fazer com que o vídeo tenha mais visualizações do que se você apenas subir nos stories ou no feed pessoal.
Às vezes, uma postagem dá super certo, outras não, por que isso acontece?
Larissa Gould – É muito variado. Às vezes é o tema que está muito quente na hora que você postou.
Existe uma hora certa?
Larissa Gould – Não. A hora certa é quando acabaram de falar um assunto e você foi a primeira pessoa que repassou aquilo, dando sorte de ser o gancho. Ou então, quando alguma pessoa que tem um perfil muito importante reposta o seu conteúdo. Aí você tem uma interação de um perfil engajado.
Não existe uma regra de como obter um conteúdo super bombado, a não ser que você seja uma página com 1 milhão de seguidores. Em uma página pequena isso é complicado, porque não há regra. A página se comporta de um jeito para cada público. Num perfil pessoal, você precisa observar como sua página funciona.
Como lidar com as restrições de conteúdo dessas plataformas?
Larissa Gould – Sim, tem controle. Eles dizem que não, mas bloqueiam conteúdos sobre Palestina e contra Israel, sobre aborto. Agora, a gente não pode deixar de inserir esse conteúdo nas redes. Nós sempre iremos entregar menos do que o lado de lá, porque somos a outra via.
Por mais que entendamos todas as regras da plataforma, se realmente começarmos a produzir conteúdo só para ser entregue, vamos ter que parar de falar sobre o que realmente queremos falar. Aí, dê que adianta? Para chegarmos nas pessoas com o discurso que queremos chegar, com as ideias que defendemos, com a nossa ideologia é preciso sim postar esses conteúdos, até porque somos nós que iremos postar sobre eles.
Não podemos fazer só conteúdo para rede social, ou postagens que não transmitam a ideologia que a gente acredita só porque não dá entrega, pelo contrário.
Em relação à quantidade? É um post por dia, são vários? Muito post faz mal?
Larissa Gould – No feed do Instagram faz mal, mas nos stories pode compartilhar bastante que não tem problema. No Facebook também, o feed deles tem uma margem maior. Publicar mais no Facebook é mais tranquilo do que publicar muito no feed do Instagram, mas em ambas as redes, eu recomendo alimentar os stories. Pode colocar bastante coisa ali mesmo.
Pensando mais nesse conteúdo da campanha, qual a orientação?
Larissa Gould – O segredo é saber do que as pessoas gostam e mesclar com coisas de política, sem ficar só na política porque o objetivo é dialogar com as pessoas. Em outros momentos, nós pregamos para os convertidos mesmo, mas nas eleições a intenção é chegar em pessoas que não recebem informações porque estão em outros grupos. Então é fundamental diversificar esse conteúdo.
Então vale a pena alternar a foto do Lula com a foto de gatinhos?
Larissa Gould – Com certeza, vale sim. Principalmente se teus amigos não são todos militantes. Foto de gatinho, meme engraçado, foto pessoal e no meio disso uma publicação política de stories. A Virgínia [Fonseca, influencer] fazia isso, ela postava fotos do filho dela e, no meio, botava o Jogo do Tigrinho.
É um jeito de criar engajamento a partir de coisas que as pessoas gostam, para um público não necessariamente engajado.
Vale comentar nas postagens?
Larissa Gould – Sim, tudo o que você puder fazer de interação é importante. Curtir, comentar, compartilhar nos stories, enviar para DM. Toda a interação é válida para gerar engajamento na publicação.
A curtida tem cada vez menos valor para o algoritmo do que o compartilhamento, mas ela também é importante. Muita gente envia o conteúdo para si mesmo, para gerar métrica de compartilhamento. E qualquer curtida que você der para uma publicação ajuda.
Outra coisa importante é assistir aos vídeos do que você quer divulgar até o final. Quando estiver em uma publicação de carrossel também, porque o tempo de tela que você fica em cima dessa publicação é contabilizado. Muitas vezes, nós ficamos com raiva vendo várias vezes um vídeo da direita. Fazer isso é gerar ainda mais engajamento para eles.
E compartilhar vídeos da direita para criticar?
Larissa Gould – Jamais. Se for para compartilhar aí sim vale baixar o vídeo no seu celular e subir com uma tarja indicando que você está criticando. Nunca comente e nem reposte esses vídeos. Fazer isso é dar engajamento. Se você quer falar mal, baixa o vídeo, edita no formato de meia tela e critica. Nunca responda direto da página de quem você quer criticar.
O compartilhamento só vale para páginas que queremos engajar. No Instagram já existe a opção de remix do vídeo. Se você quiser ajudar um conteúdo, faz o remix desse vídeo, aí você consegue se gravar comentando esse vídeo e postar nas ruas redes. Quando você faz isso, a plataforma entende que essa é uma interação com um conteúdo original que está bombando e aí aumenta a entrega desse conteúdo.
Agora, se você for um vídeo da direita que você quer criticar, a melhor forma de não criar interação é baixando esse vídeo, editando e subindo na sua página.
Larissa, como usar o WhatsApp?
Larissa Gould – O WhatsApp deve ser usado de forma inteligente nos nossos grupos. É preciso entender que estamos entrando em um momento de diálogo. Eu sei que é difícil, às vezes temos aquele vizinho de que não gostamos muito no grupo do condomínio, mas está na hora de desbloquear os grupos.
Se não você ainda entrou no grupo do condomínio, dos amigos antigos do colégio, da rua em que moramos, dos pais da escola, pede para entrar. Esses são espaços importantes onde a campanha do Lula não vai conseguir entrar, então, é preciso que nós estejamos lá.
Isso requer paciência. Não podemos simplesmente entrar como metralhadoras e disparar conteúdo de campanha. Não adianta nada você enviar dez conteúdos por dia num grupo do WhatsApp, é preciso enviar conteúdos que façam sentido para aquela rede.
No grupo dos pais da escola, por exemplo, a criação da biblioteca digital recém-lançada pelo governo Lula faz todo o sentido. “Vocês viram que legal isso? Tem um monte de livro de criança para a gente ler nessa biblioteca que o governo criou, dá para baixar”.
No grupo dos vigilantes do bairro. “Vocês viram que o governo está tentando aprovar a PEC da Segurança Pública faz seis meses e não consegue?” É preciso pensar em como introduzir esse conteúdo.
O Desenrola no grupo dos amigos, da família…
Larissa Gould – Exatamente. Isso é o que chamamos de controle segmentado. Precisamos pensar nessa segmentação, se você mandar 10 conteúdos no grupo das mães da escola, eles vão te tirar ou te achar uma chata e não haverá diálogo. Agora, enviar um conteúdo que faça sentido e ter a paciência para conversar com as pessoas têm resultado.
O segredo é buscar um conteúdo muito mais qualitativo do que quantitativo. Às vezes, nós ficamos pensando no quanto podemos compartilhar, quando a pergunta é outra. Nós somos destinadores de conteúdo qualificado, somos o público pensante e é assim que temos de nos comportar nas redes.
Nós nunca vamos ganhar a direita no quantitativo, eles têm robôs que disparam milhares de postagem. Agora, no qualitativo, nós podemos fazer o que eles não conseguem fazer com robôs porque temos conteúdo, argumentos e o que mostrar.
Para fechar, como não voar virtualmente no pescoço de um bolsonarista quando estivermos nas redes?
Larissa Gould – Nossa militância está muito adoecida e precisamos cuidar da nossa saúde mental. Temos sim que aprender a desligar, fazer exercício, comer direito, assistir a um filme, sair com amigos e nos divertir. Em síntese, é preciso cuidar de si porque militante bom é militante vivo.
Além disso, ninguém é insubstituível. Se um dia você não estiver bem, durma. Se está acontecendo uma briga no grupo do condomínio e você sentir que não tem como entrar nela, não entre. Não são todas as brigas que nós vamos conseguir entrar e está tudo bem. No dia seguinte, talvez você consiga conversar com as pessoas e fazer o que é preciso, sempre com calma e sem voar no pescoço de ninguém.

Tatiana Carlotti é repórter do Fórum 21 desde 2022. Cobre política e cultura, confira aqui.
