O Brasil tem de derrotar Trump e a extrema-direita
Por Hélio Doyle
Destruída a ordem internacional vigente desde a Segunda Guerra Mundial, o mundo hoje é de quem tem a força. A força militar, principalmente, mas também a força do dólar, a moeda hegemônica nas relações e fluxos comerciais e financeiros internacionais. O dólar e o controle dos meios de pagamentos, usados como armas, são também instrumentos que asseguram a hegemonia estadunidense no mundo e destroem conceitos que pareciam até há pouco sedimentados, embora tenham sido constantemente violados nos últimos anos: independência nacional, soberania, autodeterminação, não ingerência em assuntos internos, multilateralismo, direitos humanos.
Os Estados Unidos, sob o comando autocrático de Donald Trump, tentam criar uma nova ordem internacional que destrói os princípios do Direito Internacional implantados depois da Segunda Guerra Mundial. Os já limitadíssimos poderes da ONU e de seu Conselho de Segurança são reduzidos a zero, organismos internacionais são sabotados e esvaziados, tratados são rompidos unilateralmente, decisões de tribunais internacionais são ignoradas e seus juízes, assim como a relatora da ONU para a Palestina ocupada, são punidos com sanções por contrariarem interesses dos criminosos, países são ameaçados e atacados militarmente e economicamente se não se curvarem aos interesses do império e de seu imperador.
Trump é o Hitler do Século 21. Cultiva as mesmas ideias supremacistas e racistas, é o líder da extrema-direita internacional, quer ampliar o “espaço vital” dos Estados Unidos em busca de territórios e riquezas de outros países. Como Hitler, Trump é violento com seus opositores. Tem sua Gestapo, que são os assassinos comprovados e potenciais do ICE, e sua SS, as milícias dos estadunidenses brancos, neofascistas, racistas e misóginos, forte e legalmente armados. E, pelo que dizem especialistas, Trump, assim como Hitler, sofre de transtornos de personalidade e distúrbios mentais.
Não falta a Trump nem mesmo cometer genocídio para ser o Hitler deste século. Ele é corresponsável, mais do que cúmplice, pelo genocídio dos palestinos por Israel. O também supremacista, racista, autoritário, violento e genocida Netanyahu tem em Trump o apoio essencial para seu projeto de destruição do povo e da cultura palestina e de ocupação definitiva de seu território e de países vizinhos, para executar o projeto do “Grande Israel”. Trump lucra pessoalmente com as guerras que trava e com as flutuações do mercado financeiro que manipula. Não tem limites éticos e morais.
Há também, por parte de Trump, a exacerbação da política, praticada há 64 anos contra Cuba pelos Estados Unidos: ameaçar com força militar e assassinatos de dirigentes e provocar fome, doenças e mortes, ao asfixiar sua economia — um instrumento genocida para derrubar seu governo e conter a construção do socialismo a 140 quilômetros da Flórida. E, posteriormente lucrar com a posse e a “reconstrução” do país, como quer fazer em Gaza.
Trump definiu que a China é o inimigo principal dos Estados Unidos e que todo o continente americano tem de estar sob domínio estadunidense e livre dos chineses. Reavivou a Doutrina Monroe, nunca efetivamente abandonada, mas antes limitada pela ordem internacional vigente. Demonstrou sua força militar no ataque à Venezuela e sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua mulher Cília Flores. Bombardeia impunemente embarcações em águas internacionais e mata seus tripulantes. Sequestrou navios petroleiros, em ato de pirataria. Usa o dólar e o comércio como armas ao sancionar e taxar abusivamente vários países. Mostrou sua ingerência flagrante em eleições na Argentina, Equador, Bolívia, Peru, Honduras e Costa Rica. Agora interfere abertamente nas eleições na Colômbia. Ameaçou invadir o Panamá e obteve concessões em relação ao canal. Ameaça invadir até o Canadá e a “europeia” Groenlândia. Aliás, quer também os países da União Europeia como aliados incondicionais e age para desestabilizar o governo socialdemocrata da Espanha, que resiste a suas imposições. E impede, com sucesso até agora, que países vendam petróleo a Cuba.
Para mudar a geopolítica e a correlação de forças na Ásia Ocidental, atendendo sobretudo a interesses de seu aliado Israel, atacou o Irã sob falsos pretextos e sofreu enorme derrota militar e política, implorando pelo cessar-fogo ao não conseguir nenhum dos objetivos a que se propôs: a derrubada do governo e do regime, a destruição de sua capacidade militar e do enriquecimento de urânio e o controle de seu petróleo.
Ao lado disso, há a crise da chamada democracia liberal, que se manifesta especialmente na Europa, mas também na América e na África. O modelo de democracia adotado pelos países capitalistas, baseado teoricamente em eleições periódicas e liberdade de expressão, está sendo questionado em vários países por sua ineficiência para melhorar a qualidade de vida da população, pelo aumento das desigualdades sociais, pela corrupção e pelos privilégios gozados pelas elites políticas. Há nas pessoas um forte sentimento de frustração, abandono, ressentimento e medo diante do futuro.
A crítica e a desilusão quanto a esse modelo de democracia levam à rejeição às instituições burguesas e ao sistema político, que historicamente era capitalizada pelas forças de esquerda, mas foi apropriada pela extrema-direita, que têm crescido numérica e eleitoralmente. E Trump é o líder dessa extrema-direita, com ideário fascista, que se organiza internacionalmente, com apoio e sustentação do complexo industrial-militar, do capital financeiro e das empresas que controlam as redes digitais e seus algoritmos.
II
É nesse contexto, que naturalmente tem muitos outros aspectos, que se situam o Brasil e as eleições neste ano de 2026. As inúmeras pesquisas de intenção de votos para presidente da República mostram que continua a polarização entre a extrema-direita e a centro-esquerda. Mostram uma população fragmentada, insatisfeita, majoritariamente conservadora quanto aos costumes, fortemente religiosa, adepta de medidas duras, como as contra a criminalidade, que a identificam com a extrema-direita. Ao mesmo tempo, a maioria apoia um Estado forte e protetor, que invista em saúde, educação e programas sociais.
Assim como em outros países, há forte desconfiança nas instituições políticas – nos três poderes, partidos, sindicatos – e que se amplia para a mídia tradicional, acusada de parcialidade à direita (justamente) e à esquerda (injustamente) e, pelos conservadores, de liberalidade excessiva nos costumes. Isso, também como em outros países, é capitalizado pela extrema-direita, com forte conteúdo fascista, que aproveitou o descrédito na mídia para estabelecer fluxos de informação sob seu controle absoluto, e que recorrem a informações falsas (as fake news) para assegurar a predominância de suas narrativas.
A eleição de Jair Bolsonaro em 2018, como a de vários governadores e de um Congresso majoritariamente conservador, de direita e de extrema-direita neofascista, é resultado do sentimento antissistema que se propagou também no Brasil. Mas não foi só a extrema-direita neofascista que elegeu Bolsonaro e o sustentou no governo: foi também a direita que se diz democrática, mas que é capaz de tudo para impedir a ascensão e permanência da esquerda, mesmo a mais moderada e não socialista – como demonstrou ao promover os golpes militar de 1964 e parlamentar de 2016, que derrubaram João Goulart e Dilma Rousseff, e a tentativa de golpe para impedir a posse de Lula, em 2023.
O fato é que o poder real no Brasil, como em qualquer país capitalista, não é exercido pelo chefe de Estado, pelo chefe do governo ou pelo parlamento. O poder real é do capital, em suas diversas vertentes (bancário, comercial, industrial, agropecuário, tecnológico), que se confundem e não são estanques. As contradições entre essas vertentes ainda existem, como entre o capital industrial e o capital financeiro improdutivo, mas são diluídas pela financeirização do capital e da economia, ou seja, a fusão no que se convencionou chamar abstratamente de “mercado”. Esse é o poder real.
No Brasil, o capital financeiro domina a economia e as finanças, exerce a autoridade monetária e cambial, por intermédio de um Banco Central por ele controlado, e comanda os principais meios de comunicação do país e alguns de seus jornalistas e analistas. Financia campanhas eleitorais, concede privilégios e corrompe e coopta autoridades nos três poderes em todo o país. Constitui mecanismos legítimos e ilegítimos de pressão e ingerência nas decisões legais, normativas e judiciais e faz a lavagem do dinheiro sujo de pessoas físicas e jurídicas e do crime organizado.
Esse é o “sistema” que domina o país, e que mantém as instituições democráticas liberais enquanto não se sente ameaçado existencialmente ou mesmo enquanto não vê seus lucros e privilégios reduzidos ou limitados em seu crescimento. Para o capital financeiro, um governo de centro-esquerda com um Congresso de direita e extrema-direita não é uma ameaça existencial, mas é indesejável porque, por mais concessões que faça ao poder real, impede parcial ou totalmente a implementação de medidas importantes para a maximização dos seus lucros: subtração de direitos trabalhistas e repressão aos sindicatos e às lutas dos trabalhadores; precarização do trabalho; privatização de empresas estatais e de serviços públicos, incluindo saúde e educação; redução do papel do Estado e dos controles ambientais, urbanísticos e territoriais; ocupação de terras indígenas e quilombolas; desregulação da economia; desonerações fiscais para empresas e milionários, perdão de suas dívidas com o Estado e submissão e alinhamento total e automático aos Estados Unidos – afinal, a meca do capitalismo.
A extrema-direita neofascista quer – e não esconde — implantar uma ditadura que reprima violentamente os que lhe fizerem oposição, mantenha controle sobre o Legislativo e o Judiciário, acabe com a liberdade de expressão, de criação artística e de imprensa, combata a cultura, negue as evidências científicas (e a própria Ciência), destrua conceitos de direitos humanos, militarize as escolas e assim tenha melhores condições para executar suas políticas ultraliberais. Seus aliados ditos religiosos querem, ainda por cima, implantar a teocracia dominada por segmentos evangélicos que se organizam mais como empresas lucrativas do que como igrejas, chefiadas por bandidos travestidos de pastores. Tudo isso foi tentado e testado entre 2019 e 2022, pelo hoje condenado e preso Jair Bolsonaro, e continua sendo por governadores de extrema-direita.
Os interesses imperialistas e hegemonistas de Trump se identificam com os interesses ultraliberais e entreguistas do capital financeiro e agrário, da direita dita democrática e da extrema-direita no Brasil. Coerentemente com sua definição de inimigo principal, Trump quer, sobretudo, acabar com os investimentos e a influência da China na América Latina e no Brasil. Quer o fim dos Brics, que ameaçam o domínio do dólar, ou pelo menos que o Brasil se retire do bloco. E, coerente com suas concepções imperialistas, Trump quer a posse das riquezas brasileiras: petróleo, minerais, terras raras, energia e água, principalmente. Quer bases militares no Rio Grande do Norte, em Fernando de Noronha e na Tríplice Fronteira Sul, e quer ter controle total do Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão – vítima de uma presumível sabotagem estadunidense em 2003, com 21 mortos, nunca seriamente investigada.
Tudo isso será facilmente absorvido pelo capital financeiro e pela direita brasileira, apesar de algumas contradições, caso um de seus candidatos (Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos, todos de extrema-direita, e Joaquim Barbosa, uma incógnita) vença as eleições presidenciais e conte, como se prevê, com um Congresso majoritariamente aliado às suas concepções. A ideologia de extrema-direita e o poder econômico, que manda e corrompe, são hoje as maiores ameaças aos valores que têm de ser preservados no Brasil: a democracia, os direitos humanos e sociais e a soberania nacional. Se o capital financeiro tiver um presidente com ele afinado, além de um Congresso alinhado e um Judiciário, em consequência, controlado, o Brasil será palco de um governo autocrático, se não ditatorial, ultraliberal, violador dos direitos humanos e sociais e submetido aos Estados Unidos.
É ilusão achar que Trump não interferirá pesadamente nas eleições brasileiras, pois ele quer o Brasil — maior economia da América do Sul, com maior território e população –alinhado incondicionalmente aos Estados Unidos, e quer impor derrotas à China. Não será a “química” com o presidente Lula que fará com que se conforme a ter o Brasil fora de seu controle. Trump recuou taticamente na primeira ofensiva contra o Brasil mais por razões internas que externas, e por uma visível contenção tática do governo brasileiro em relação a algumas questões, como Venezuela, Cuba, Palestina, Irã e substituição do dólar. Mas já voltou à carga, com novas taxações comerciais e com a absurda designação de organizações criminosas como terroristas, para justificar intervenções à margem do Direito Internacional.
Trump só não apoiará ativamente a extrema-direita neofascista brasileira nas eleições se Lula se submeter a suas condições — o que não é factível nem esperado.
III
É preciso, assim, impedir a vitória da extrema-direita nas eleições deste ano. A democracia liberal, mesmo limitada e falha, e a soberania nacional, por um lado, e a ditadura, mesmo em potencial, e a submissão aos Estados Unidos, por outro, são os polos da contradição principal deste momento. A ela se subordinam as demais e muitas contradições da sociedade brasileira, e que em grande parte persistirão depois de resolvida a principal. Com a vitória da extrema-direita, não haverá democracia, direitos humanos e soberania, com todas as consequências nefastas que isso acarretará. E Trump, se vitorioso na Colômbia, dominará a América do Sul e tentará submeter o México.
Em função da correlação de forças sociais e política, a esquerda, em meio a contradições e discrepâncias, reduziu seus objetivos programáticos históricos em favor de alianças que permitam a governabilidade e a manutenção do governo. O socialismo não está à vista, pois faltam as condições objetivas e subjetivas para iniciar sua construção, mas em um governo democrático, soberano e com viés à esquerda é possível, com todas as dificuldades impostas pelas forças contrárias e dependendo da mobilização popular, conquistar avanços que levem a melhores condições de vida para a população, igualdade de oportunidades e redução das desigualdades de todo tipo, respeito aos direitos humanos e liberdade de organização e expressão. Com a extrema-direita, o retrocesso será inevitável e a esquerda e os democratas serão perseguidos e violentamente reprimidos.
Eleger o presidente da República e ampliar ao máximo as forças democráticas, populares e de esquerda no Senado e na Câmara são as tarefas principais na atual conjuntura. A esquerda, mesmo unida, não tem condições de, sozinha, eleger o presidente e fazer maioria no Congresso. Por isso, é preciso firmar alianças com segmentos da sociedade, ao “centro” e à direita, que tenham o entendimento, ainda que por diferentes razões, de que democracia e soberania são valores que é preciso manter no país.
O desejável é que essas alianças não sejam meramente fisiológicas e oportunistas, como têm sido, e sejam formadas de modo transparente e com base em um programa de governo publicamente debatido. Para isso, concessões terão de ser feitas por todos os lados, mas assim é a democracia que queremos manter, mesmo sabendo que está longe de possibilitar o real exercício do poder pelo povo e que ainda falta muito para que seja efetivamente participativa e popular.
Hélio Doyle é jornalista, professor aposentado da Universidade de Brasília, consultor político, de comunicação, imagem e reputação.
Imagem de encontro de Lula e Trump na Casa Branca / Ricardo Stuckert / PR
