O cipaio Bolsonaro: A serviço de Trump
Flávio passou a defender os interesses de Trump contra o Brasil quando Jair Bolsonaro passou a responder a processos do golpe de 2022.
Por Liszt Vieira
A revista argentina Pagina 12 publicou artigo assinado por Jorge Elbaum sob o título Cipayo en la niebla chamando o presidente Milei de Cipaio.
Um cipaio (ou sipaio) era um soldado indiano que trabalhava para o exército da Companhia Britânica das Índias Orientais durante o século XIX. Essa palavra também virou o nome de uma famosa revolta contra o domínio inglês na Índia. Portugal manteve forças de sipaios no seu Estado Português da Índia e, mais tarde, em outros dos seus territórios ultramarinos. Fora da Índia, o maior contingente de sipaios foi estabelecido por Portugal em Moçambique, passando o termo a designar nos anos vindouros, sob dominação portuguesa, uma força militar, mais vocacionada para o policiamento local e rural, que era comandada por um oficial europeu.
O Brasil também tem os seus cipaios. Não perde para a Argentina. O candidato Flávio Bolsonaro, por exemplo, em matéria de traição, não fica nada a dever a Milei. Aliás, a pesquisa Genial/Quaest, divulgada em 5/8 último, mostrou que, para 34% dos brasileiros, o apoio de Milei a Flávio aumenta a chance de voto em Lula. Outros 17% afirmaram que o endosso do presidente argentino eleva a chance de escolha de outro candidato, nem Lula nem Flávio.
Flávio Bolsonaro passou a defender os interesses do governo Donald Trump contra o Brasil quando Jair Bolsonaro passou a responder a processos relacionados à tentativa de golpe de 2022. Daí decorre uma sequência de episódios envolvendo tarifas, pressão política dos EUA sobre o governo brasileiro e a atuação de Flávio e de seu irmão Eduardo Bolsonaro em Washington pedindo sanções dos EUA contra o Brasil.
Em julho de 2025, Trump anunciou uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, vinculando explicitamente a medida ao tratamento dado a Jair Bolsonaro pela Justiça brasileira. Como os EUA têm superávit comercial com o Brasil, a justificativa americana combinava questões comerciais com críticas ao STF e ao governo Lula.
Em julho de 2026, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, acusou Flávio de ter prejudicado as negociações comerciais Brasil-EUA, afirmando que ele apresentou à Casa Branca argumentos que legitimam as justificativas utilizadas pelo governo Trump para impor tarifas ao Brasil.
Outro episódio importante foi a defesa, por Flávio, da classificação de organizações criminosas brasileiras como terroristas pelo governo Trump. O governo Lula considera essa medida uma ameaça à soberania brasileira e afirma que ela poderia abrir espaço para formas de intervenção americana.
A aproximação não se limita ao comércio. Flávio tem defendido uma política externa fortemente alinhada aos EUA e a Israel e criticado posições do governo Lula em relação ao Oriente Médio. Isso reforça a percepção de um alinhamento ideológico entre bolsonarismo e trumpismo. Sua atuação ultrapassou a defesa de uma política externa favorável aos EUA e representou a pressão de um político brasileiro sobre uma potência estrangeira para obter medidas contra instituições e políticas do próprio país.
A acusação ganhou ainda mais peso no contexto da eleição presidencial de 2026. A imprensa internacional já descreve a eleição brasileira como envolvendo, além da disputa Lula–Flávio Bolsonaro, uma dimensão de confronto geopolítico entre Brasília e Washington.
A eleição presidencial brasileira de 2026 permanece uma disputa polarizada entre Lula e Flávio Bolsonaro, já que os demais candidatos não são competitivos, estando todos abaixo de 5% das intenções de voto. De acordo com as pesquisas, Lula permanece em primeiro lugar. As oscilações da diferença entre Lula e Flavio não são muito importantes. Primeiro, porque a metodologia dos institutos de pesquisa varia de um para outro. Segundo, porque tudo indica, pelos dados disponíveis até agora, que teremos um segundo turno. E segundo turno é outra eleição, novos acordos e arranjos costumam ser feitos, e os debates diretos entre os dois candidatos influenciam a intenção de voto, sobretudo dos indecisos.
Lula é considerado favorito. Os tarifaços de Trump e suas críticas ao Pix jogaram no colo de Lula a bandeira da defesa da soberania nacional, a defesa da Pátria, uma bandeira antes desfraldada pela extrema direita. E a prova de corrupção de Flavio no áudio que revelou ter recebido 61 milhões do Vorcaro, do Banco Master, e ter desviado esse dinheiro do filme sobre seu pai, tornou Flávio o personagem principal da corrupção no Brasil. Afinal, ele roubou dinheiro roubado, e não disse o que fez com esse dinheiro. A imprensa parou de cobrar, mas isso vai aparecer na campanha eleitoral.
Flávio Bolsonaro é um candidato politicamente enfraquecido. Não conseguiu um Vice de outro Partido, o que vai diminuir seu tempo de TV na campanha. E também não conseguiu uma Vice mulher. E, para piorar, o Vice escolhido é acusado de estupro de vulnerável. A maior força de Flávio reside no Sul e Centro Oeste, onde costuma ganhar a direita. O Sudeste e o Norte se dividem. E no Nordeste Lula tem grande vantagem.
Em geral, os elementos mais importantes numa eleição costumam ser a evolução da inflação e do custo de vida, principalmente o preço dos alimentos, os índices de emprego e renda, impacto de eventuais crises internacionais, especialmente ligadas ao petróleo e ao comércio exterior, desempenho dos candidatos nos debates, capacidade de mobilização nas redes sociais e abstenção eleitoral, que pode alterar o resultado em uma disputa apertada.
Nesta eleição, porém, a defesa da soberania nacional tornou-se uma bandeira importante a favor de Lula que defende o Brasil contra seu adversário, considerado intermediário de Trump em sua tentativa de retomar seu quintal e dominar toda a América Latina. Para isso, delegou as decisões a seu Secretário de Estado, Marco Rubio, anfitrião, amigo e parceiro dos Cipaios Bolsonaro. Ele deve atuar, no mínimo, em três frentes: nas redes sociais, na mídia comercial e por intermédio dos Ministros bolsonaristas no Superior Tribunal Eleitoral e no Supremo Tribunal Federal. Mas pode haver surpresas e ataques imprevistos, a ocorrência de pontos fora da curva não seria surpreendente.
Enfim, o que se pode afirmar até agora é que Lula é o favorito, mas provavelmente teremos eleição no segundo turno. E, no provável segundo turno, segundo a pesquisa Quaest divulgada em 5/8, Lula teria 44% das intenções de voto contra 39% de Flávio.
Se, durante a campanha eleitoral, Flávio Bolsonaro se equilibra mal em seu Não Lugar entre o Brasil e os EUA, depois da eleição vai descobrir que, como disse Cervantes, parafraseando Plutarco sobre Júlio César, “ainda que a traição agrade, o traidor é sempre odiado”.
Imagem: Reprodução

Liszt Vieira é formado em Direito e Ciências Sociais, com Doutorado em Sociologia. Defensor Público, foi deputado (PT-RJ) e coordenador do Fórum Global da Conferência Rio 92. Autor de diversos livros sobre democracia, cidadania, meio ambiente e globalização. É membro do Conselho da Associação Terrazul.
