PT se prepara para guerra eleitoral; ‘é olho no olho’, diz Lula

PT se prepara para guerra eleitoral; ‘é olho no olho’, diz Lula

8º Congresso Nacional reuniu centenas de petistas e lideranças sociais e políticas em Brasília para somar forças e alinhar propostas. Íntegra do Manifesto do encontro pode ser lida aqui. (Fotos: PT Reprodução)

POR TATIANA CARLOTTI

Lideranças políticas e 600 delegados petistas participaram do 8º Congresso Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) na capital federal, no último fim de semana (24 a 26 de abril) para alinhar e fortalecer a preparação para a guerra eleitoral a poucos meses do pleito.

Sob o lema “Soberania, Reconstrução e Futuro”, o maior partido do país definiu as diretrizes de seu programa de governo, reunindo militância petista, ativistas e lideranças da sociedade civil e representantes de mais de 80 países.

Um exército cuja principal missão é manter o comando, por mais quatro anos, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Do sucesso desta empreitada dependerá a garantia da democracia interna e da soberania nacional frente à escalada da Doutrina Monroe sobre os países do continente.

O presidente da legenda, Edinho Silva, abriu o evento convocando a militância petista a dialogar com os brasileiros para entender suas “dores e angústias”. Edinho pediu “humildade” para ouvir e sentir o que a população brasileira espera da legenda e do governo Lula.

Ele citou conquistas do partido nestes 46 anos de existência e frisou o papel das alianças durante as eleições de 2002, que levaram Lula pela primeira vez ao poder, implementando um programa de governo capaz de garantir crescimento econômico e inclusão social.

Edinho mencionou os grandes desafios desta eleição que ocorre em meio a um forte descontentamento, que extrapola as fronteiras nacionais, frente à crise do capitalismo, que “não foi criada pela classe trabalhadora”, apontou.

Frente aos avanços da extrema direita no país e no continente, o presidente do PT salientou a urgência de novas respostas para combater o discurso antissistêmico de lideranças que, no final das contas, atuam para aprofundar as injustiças do sistema que criticam.

A disputa será acirrada. O ambiente polarizado expressa-se, pesquisa após pesquisa, em empate técnico ou pequena margem de diferença entre o maior estadista brasileiro e o representante da Família Bolsonaro, Flávio. As altas taxas de intenção de voto, atribuídas a ambos os candidatos, criam um ambiente de segundo turno apesar de as eleições no país ainda não terem começado.

OLHO NO OLHO

O presidente Lula removeu uma queratose e infiltração no punho, no Hospital Sírio Libanês na sexta-feira (24/04) e não pode comparecer ao evento. Em vídeo encaminhado, ele disse: “vou ser presidente outra vez porque o povo brasileiro e o Brasil precisam de alguém que seja democrático, saiba ouvir e consiga conversar com os olhos e o coração das pessoas”.

Lula disse aos petistas que é preciso olhar nos olhos dos eleitores, panfletar nas ruas e bater de casa em casa. Recomendou que eles contem sobre as ações do seu governo e, na sequência, suas propostas para os quatro próximos anos. Mostrar o que foi realizado é “a nossa arma”, disse.

É preciso deixar “bem visível a diferença do governo nosso com o dos adversários”, acrescentou Lula, ao elencar as transformações do país desde 2023, quando retornou ao poder após vencer Jair Bolsonaro com 50,90% contra 49,10% dos votos em 2022.

O presidente brasileiro afirmou que o país vive “um momento econômico extraordinário” e detalhou o porquê da afirmação: “o Brasil voltou a crescer acima de 3%”, possui “a melhor inflação acumulada em quatro anos”, “a menor renda da massa salarial”, passou por “um aumento do salário-mínimo” e obteve “mais investimento em educação e saúde”.

Depois de contar as realizações do governo, é “preciso falar do futuro” e “explicar o que estamos propondo para a próxima década”, disse o presidente ao citar as mudanças que o Estado brasileiro precisa promover em termos de energética, exploração dos minerais críticos e uma nova indústria no país. Lula fez uma forte defesa da educação integral e prometeu mais investimentos nos institutos federais e universidades.

Em meio às turbulências internacionais, Lula reiterou seu compromisso com a democracia e a defesa da soberania brasileira. “No mundo, ninguém tem defendido o multilateralismo, a democracia e as instituições como o Brasil”, frisou.

TRABALHAR DIA E NOITE

Fernando Haddad, pré-candidato ao governo de São Paulo. (Foto: PT Reprodução)

Fernando Haddad, ministro da Economia até ser desincompatibilizado para disputar o governo de São Paulo, sintetizou o quadro: “Lula talvez seja uma das únicas vozes do mundo para enfrentar a extrema-direita em escala global”.

“Não podemos de maneira nenhuma considerar a hipótese de um retrocesso em outubro deste ano. A reeleição do Lula é um imperativo, um imperativo para o futuro”, acrescentou.

Em meio ao aperto fiscal herdado desde o golpe de 2016, Haddad conseguiu emplacar aumento do salário-mínimo, isenção do imposto de renda até 5 mil reais, justiça tributária com cobrança de dividendos dos bilionários, entre tantas outras medidas.

O candidato ao governo paulista mencionou o “cenário desolador” em 2023, após quatro anos de Bolsonaro: “era como se fosse outro país”, uma “destruição absurda” de programas sociais, obras paradas, perda de direitos. “Eles se vendem como antissistema, mas estão há 30 anos fazendo a pior política da história do país”, reforçou.

Quatro anos depois, afirmou o ex-ministro, Lula oferece um cenário muito distinto, com quedas em todos os índices de desemprego, desigualdade e inflação para suas mínimas históricas. Haddad, então, convocou os petistas a trabalharem “dia e noite, de segunda a segunda até outubro” pela vitória do presidente.

GRITAR COLETIVAMENTE

Benedita da Silva, pré-candidata ao Senado pelo Rio de Janeiro. (Foto: PT Reprodução)

Completando seus 84 anos durante o evento, a pré-candidata ao Senado pelo Rio de Janeiro, Benedita da Silva, orientou as lideranças sociais e a base petista a gritar coletivamente suas reivindicações. “É preciso juntar gente em volta do agente do Estado” e falar alto “feito coro de igreja, gritar forte e bastante e mais ainda se você for negra, favelada e mulher”, acrescentou.

“Eu me diplomei na favela, olhando nos olhos e firmando palavra com muita gente que não sabia escrever, mas que assinava com os olhos o que foi decidido”, relembrou. “Se manifestar sai muito caro para quem vive vulnerável nos territórios da precariedade. Firmar posição, bater o pé tem um preço muito alto para o pobre trabalhador”, frisou.

Benedita trouxe a realidade do eleitor brasileiro e sua dificuldade de participar da militância política. “Tempo é dinheiro para existir e o tempo da mobilização política não sobra (…) por isso a política de favela que aprendi é a política de mutirão. É nós por nós. Na favela se aprende que a palavra empenhada vem junto com o olho no olho”, afirmou.

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Ela também mencionou a guerra nas redes sociais. “No PT, nós somos políticos de verdade”, afirmou ao lembrar a história de luta e defesa da democracia e a forte identidade do partido. “Não somos avatares de rede social, é por isso que minha candidatura ao Senado busca “unidade sem silenciamento, união sem apagamento, com alegria e energia de servir”, concluiu. Ouça a íntegra do discurso.

Presente no evento e na disputa pelo Congresso, o ex-presidente da legenda José Dirceu comemorou a unidade partidária. “Todas as correntes estão aqui”, disse em vídeo postado nas redes sociais, explicando que agora, o documento da legenda, “a nossa mensagem para dialogar”, será discutido entre os partidos aliados, as organizações partidárias e da sociedade civil, os movimentos sociais para construir o programa de governo. O eixo, destacou Zé Dirceu “é sempre a defesa da democracia”.

O MANIFESTO DO PT

Construindo o futuro: Manifesto do PT para seguir transformando o país” menciona as realizações deste terceiro mandato de Lula, contribuindo para azeitar o argumento da militância e mostrando as propostas do partido para o Brasil seguir adiante em um cenário de ameaças em outro patamar, após a entrada de Donald Trump na Casa Branca.

“O Brasil está no rumo certo. Retomamos um crescimento médio de 2,8% neste mandato, dobrando a média do governo anterior. A desigualdade, que havia voltado a crescer ao longo do desgoverno anterior, atingiu a mínima histórica com Lula, assim como a proporção de pessoas na pobreza e na extrema pobreza. Após a triste marca de o Brasil ter voltado ao Mapa da Fome no último governo, voltamos a sair com Lula”, afirma o PT.

“O salário mínimo, que pela primeira vez na história havia tido redução de seu valor real em um mandato presidencial entre 2018 e 2022, voltou a ser valorizado, crescendo 12% em termos reais ao longo do atual mandato do presidente Lula. O mesmo ocorreu com o rendimento médio real das famílias, enquanto o desemprego atingiu a mínima histórica. Os jovens que não estudam nem trabalham, que haviam atingido o maior patamar da história com o último presidente, atingiram o menor patamar com Lula”, acrescenta o documento.

O Manifesto também explica que os desafios enfrentrados pelo país se dão em um contexto global de aumento da desigualdade, precarização das relações de trabalho, enfraquecimento das democracias liberais e intensificação das guerras, sintomas de uma transformação ainda mais ampla do capitalismo neoliberal. O tom é crítico às violações dos Estados Unidos e defende a ordem internacional multipolar que se encontra sob ameaça.

A defesa da democracia e da soberania nacional perpassa o documento. “Este projeto de país soberano deve ter como eixo central a soberania alimentar, energética, industrial, ambiental, digital e comunicativa e a garantia universal dos direitos sociais.” O PT defende o uso soberano das reservas brasileiras de terras raras para que o país construa uma indústria de alta tecnologia e realize sua transição energética. “Sem terras raras, não há transição energética nem soberania digital”, alerta.

Aos 46 anos, o partido defende a continuidade do crescimento com inclusão social, proteção da democracia diante da extrema-direita, fortalecimento da soberania nacional, ampliação de direitos trabalhistas, redução das desigualdades, modernização econômica com indústria, tecnologia e transição ecológica, presença do Estado na proteção social.

Para o próximo mandato, a legenda propõe sete reformas prioritárias: (1) política e eleitoral, com democratização do poder e revisão das emendas parlamentares; (2) tributária, com foco na justiça fiscal e taxação dos super-ricos; (3) tecnológica, visando à soberania digital e à regulação de plataformas; (4) reforma do Judiciário; (5) administrativa, para o fortalecimento do Estado; (6) reforma agrária, para garantia da soberania alimentar; e (7) reforma da comunicação, mirando os monopólios do setor.

Essas reformas, diz o documento, são parte de um projeto nacional de desenvolvimento que pretende reconstruir o papel do Estado como indutor do desenvolvimento, com fortalecimento do investimento público, planejamento, participação social, políticas estruturantes e superação dos seus pressupostos autoritários e elitistas. Outra missão é retomar o crescimento econômico com distribuição de renda, riqueza e patrimônio, enfrentando o rentismo e ampliando direitos. Por fim, realizar a transição produtiva, tecnológica e ambiental, com sustentabilidade e soberania. Leia a íntegra do Manifesto.

REFORMA POLÍTICA, INTELIGÊNCIA NA SEGURANÇA PÚBLICA E EDUCAÇÃO INTEGRAL

Edinho Silva, presidente do PT

A reforma política está entre as mudanças propostas. “O PT não concorda com o atual modelo político brasileiro. Nós defendemos uma reforma política urgente. Nós defendemos o voto em lista porque queremos que os partidos possam apresentar seus projetos”, afirmou o presidente do partido a Rádio PT. O PT defende “que a sociedade brasileira possa votar em projetos e não indivíduos”, disse. Edinho também reafirmou a posição do partido em relação ao atual modelo de emendas parlamentares: “precisamos mudar para que o orçamento seja verdadeiramente destinado para os interesses coletivos”.

“O país não pode retroceder na segurança pública”, afirmou. A questão é a principal preocupação para 27% dos brasileiros, segundo a Quaest publicada no começo de abril. “O PT defende o combate ao crime organizado e à corrupção utilizando inteligência, investigação e atacando o dinheiro do crime organizado. É dessa forma que vamos combater a corrupção e a corrupção de autoridades e policiais, impedindo que o dinheiro do crime também corrompa os nossos adolescentes e a nossa juventude. Temos que garantir o direito das famílias aos territórios, o direito de ir e vir, o direito de organização nas comunidades”, afirmou.

Edinho também citou a educação como eixo estruturante do Manifesto. Durante o governo Lula, “o orçamento para educação cresceu mais de R$100 bilhões em relação ao governo Bolsonaro, mais de 60% de aumento. “O Brasil só será um país desenvolvido com educação acessível e democrática, de muita qualidade. Nós defendemos a universalização da educação integral, a universalização dos direitos da primeira infância, do direito à creche; além do direito à segurança alimentar e ao meio ambiente saudável”, disse o presidente do PT.

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