Recado para o Congresso

Recado para o Congresso

Em meados da década de 1990, minha caminhada profissional passou pela assessoria a algumas entidades sindicais e associativas. Foram anos acompanhando o Congresso Nacional e buscando construir relações dessas entidades e de seus dirigentes com a imprensa. Trabalhei com várias diretoras e diretores. Dezenas. Cada um com suas qualidades, habilidades e capacidades que os colocaram na posição em que estavam. Contudo, um deles se destacou. Seja pela objetividade no trato, pela capacidade de leitura dos cenários, pela acurada relação com a língua portuguesa ou pela solidez do conhecimento na área em que atuava.

Ontem me reencontrei com esse dirigente. Não foi um encontro presencial. Mas suficiente para confirmar a memória que guardo de sua atuação como presidente da entidade que, quase 30 anos atrás, eu assessorava. A voz tranquila. A presença de espírito. O conteúdo colocado no tempo certo, com coesão e clareza. Uma performance que me levou de volta aos debates da reforma do Judiciário durante o governo Fernando Henrique Cardoso.

Falo de Flávio Dino (na foto), hoje ministro do STF, que conheci como presidente da Associação dos Juízes Federais, a AJUFE. Seu voto, no primeiro dia das manifestações dos ministros e da ministra, trouxe a mensagem mais importante para a defesa da jovem democracia brasileira que este julgamento dos atos golpistas encarna. Refiro-me ao fato de que tanto a letra da lei quanto o espírito do legislador vetam qualquer possibilidade de anistia ou indulto a crimes contra o Estado Democrático de Direito.

O recado, límpido como águas polares, tinha endereço certo. Foi dirigido ao Congresso Nacional, instalado nos prédios mais altos da Praça dos Três Poderes. Qualquer projeto de anistia – ampla ou restrita, pouco importa – não pode prosperar à luz da Constituição de 1988. Em outras palavras, qualquer iniciativa nesse sentido, mesmo que aprovada pelas Casas Legislativas, será derrubada por ações de inconstitucionalidade.

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Mensagem que coloca os parlamentares, em especial parte expressiva do Centrão, diante de um dilema: aprovar uma medida impopular que não surtirá efeito algum e carregar a pecha de golpistas – por nada. De outro lado, a fala torna confortável a posição dos que hoje fazem barulho em defesa da anistia apenas para agradar à família Bolsonaro, mas que, no fundo, querem abrir caminho para suas próprias pretensões. Entre eles, muitos que desejam ver Tarcísio de Freitas candidato.

O certo é que, se prosperar qualquer iniciativa de anistia aos golpistas, a proposta deverá ser vetada pelo presidente Lula, com o argumento da inconstitucionalidade, e a questão será judicializada. Debate jurídico cujo desfecho já se antevê, dada a consistência dos argumentos do ministro Flávio Dino.

Imagem de Rovena Rosa/Agência Brasil

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