Superação das castas dos guerreiros militares e dos sacerdotes

Fomos impactados pela pompa religiosa do enterro do papa em ambiente de luxo e hierarquizado e pelos desfiles militares na comemoração dos 80 anos da vitória russa sobre os nazifascistas na II Guerra Mundial. Ambos foram atos simbólicos dos valores das castas dos sábios-sacerdotes e dos guerreiros-militares.
Lembremos do passado. Os Cavaleiros Templários não foram apenas uma ordem militar religiosa. Entre os séculos XII e XIV, tornaram-se um dos principais agentes financeiros da cristandade medieval, atuando como guardadores, transportadores e multiplicadores de riqueza, especialmente da Igreja, nobreza e monarcas europeus.
A Igreja acumulava recursos por múltiplas vias dízimos pagos pelos camponeses: cerca de 10% da produção. Havia doações de terras e bens por fiéis e nobres, em troca de salvação ou perdão espiritual.
Somavam-se às taxas por sacramentos, indulgências, penitências e concessões canônicas. A Igreja Católica beneficiava-se de rendas fundiárias oriundas das extensas propriedades eclesiásticas, bem como de espólios de Cruzadas e Guerras Santas, incluindo butins e direitos sobre territórios conquistados.
Com o acúmulo crescente de riqueza e sua circulação por vastas regiões, surgiu a necessidade de segurança, logística e contabilidade. Permitiu a ascensão dos Templários como administradores e transportadores de fundos.
Os Templários podem ser classificados como precursores das instituições bancárias europeias, especialmente no campo da custódia, compensação e crédito. Entre suas atividades, encontravam-se a guarda de valores por oferecerem proteção a dinheiro, documentos, joias e relíquias.
Faziam transferências e compensações ao emitirem letras de câmbio rudimentares. Um peregrino podia depositar dinheiro em Paris e sacar em Jerusalém, evitando riscos no trajeto.
Encarregavam-se da gestão de contas correntes com nobres e reis confiando-lhes a administração de finanças. O financiamento da guerra também era possível porque a ordem emprestava a monarcas, inclusive ao rei da França.
Por fim, cuidavam da administração de propriedades. Recebiam e gerenciavam vastas terras, produzindo excedentes e rendas.
Essas atividades se desenvolveram especialmente entre 1150 e 1300, quando a Ordem consolidou sua rede pan-europeia de preceptorias ou filiais. Funcionavam como sistema de agências bancárias e logísticas interligadas.
Porém, tiveram um apogeu e queda. Por qual razão e como foram exterminados?
Houve causas estruturais e políticas justamente porque acumularam grande poder e independência. Estavam sob autoridade direta do Papa, isentos de tributos e interferência local.
Por isso, tornaram-se credores do rei da França, Filipe IV, o Belo, em um contexto de guerra e crise fiscal. Para justificar o calote real, a Ordem começou a ser vista como Estado dentro do Estado, com autonomia militar, territorial e financeira.
O processo de destruição iniciou-se em 1307 e foi até 1312, quando Filipe IV ordenou a prisão simultânea de Templários em toda a França, acusando-os de heresia, idolatria e práticas obscuras , em acusações forjadas falsamente. Sob tortura, alguns confessaram.
O Papa Clemente V, inicialmente hesitante, cedeu à pressão política. Em 1312, o Concílio de Vienne dissolveu oficialmente a Ordem. Em 1314, o grão-mestre Jacques de Molay foi queimado vivo em Paris.
O destino de seus bens, supostamente, foram transferidos à Ordem dos Hospitalários, mas na prática foram confiscados pelos monarcas locais, especialmente pela França. As estruturas templárias (arquivos, redes, terras) foram desmanteladas ou absorvidas por outras instituições eclesiásticas ou seculares.
Após a queda dos Templários, o vácuo financeiro foi preenchido por ordens religiosas menores (como os Hospitalários), mas com papel reduzido. Surgiram então os banqueiros italianos em casas como os Bardi, Peruzzi e Medici e assumiram o protagonismo nos séculos XIV e XV, com sede em Florença e atuação em toda a Europa.
Cidades-Estados mercantis, como Gênova e Veneza, desenvolveram sistemas bancários e de crédito público próprios. Posteriormente, bancos privados e nacionais, como o Banco di San Giorgio, o Banco de Amsterdã e, depois, o Bank of England (adiante Banco Central), foram fundados.
Essa síntese histórica encontra-se no quadro abaixo.
| Elemento | Cavaleiros Templários |
| Atuação financeira | Custódia, transferências, crédito, contabilidade |
| Período de auge | 1150–1300 |
| Base institucional | Ordem religiosa com autonomia papal |
| Papel histórico | Precursores dos bancos modernos na Europa |
| Queda | 1307–1312, por razões político-fiscais e centralização estatal |
| Herdeiros | Banqueiros italianos, ordens menores, Estados nacionais |
Devemos aprender com as lições da história para entender se vivemos atualmente uma transição civilizacional. Como e quando a casta dos negociadores (mercadores, banqueiros, financistas) superou, em poder efetivo, a dos senhores da guerra (nobreza feudal, castas militares)? Isso levou a uma maior estabilidade propícia à expansão capitalista, com divisão internacional do trabalho?
Na realidade, trata-se de uma mudança lenta, desigual e conflitiva, mas com padrões recorrentes. Exige uma leitura sistêmica, histórica e estrutural tal como:
| Etapa histórica | Casta dominante | Suporte de poder | Dinâmica de transição |
| Feudalismo medieval (séc. IX–XIII) | Senhores de guerra (nobreza guerreira) | Terra, vassalagem, monopólio da violência | Domínio descentralizado, economia natural, comércio restrito |
| Renascença comercial (séc. XII–XIV) | Emergência dos negociadores (burguesia) | Comércio urbano, crédito, alianças com reis e Igreja | Cidades ganham autonomia, surgem bancas e redes mercantis |
| Formação do Estado moderno (séc. XV–XVII) | Aliança entre monarquia e burguesia | Tributação, dívida pública, burocracia | Os reis usam capital burguês para suprimir senhores feudais |
| Capitalismo mercantil (séc. XVII–XVIII) | Burguesia comercial e financeira | Companhias coloniais, sistema mundial mercantil | Expansão marítima, violência externa, ordem interna crescente |
| Capitalismo industrial (séc. XIX) | Burguesia industrial e financeira | Propriedade privada, mercados globais, Estado-nação | Guerras entre Estados, mas pacificação interna e divisão do trabalho |
Quando e como os negociadores superam os guerreiros? A Inglaterra, no século XVII–XVIII, foi um caso emblemático. A Revolução Gloriosa (1688) consagrou a supremacia do Parlamento dominado pela burguesia sobre o rei e os nobres feudais.
O Bank of England (1694) instituiu uma nova lógica: o crédito financiado pela sociedade mercantil sustenta o Estado – e não o saque feudal. O sistema financeiro floresceu com dívida pública, ações, companhias comerciais, tudo baseado na confiança e previsibilidade institucional. Os aristocratas se transformaram em rentistas ou foram incorporados à lógica do capital como burgueses.
Na França, apenas no século XIX completou-se a transição tardia e mais conflituosa. A Revolução Francesa de 1789 destruiu a aristocracia de sangue e abriu espaço para a burguesia como classe dirigente.
A paz interna relativa é comprada com instituições republicanas, escola pública e industrialização. O exército sob Napoleão, no século XIX, tornou-se instrumento de expansão imperial, mas sob comando estatal burguês, não mais feudal.
A ordem capitalista é mais pacífica internamente porque ela institucionaliza o conflito econômico via mercado, direito e política representativa. A burguesia prefere estabilidade, contratos, segurança jurídica e circulação de mercadorias, em vez da pilhagem instável da guerra e “matar os fornecedores”. A guerra não desaparece, mas se torna uma exceção externa (imperialista, entre Estados), não mais um modo de reprodução social contínuo.
A divisão internacional do trabalho surgiu como corolário da superação da casta guerreira ao criar condições para a integração pacificada entre regiões produtivas e consumidoras. Surgiram cadeias produtivas transnacionais, zonas monetárias e instituições multilaterais. Contudo, essa ordem mundial ainda é hierárquica: os centros financeiros das potências econômicas comandam e as periferias fornecem matérias-primas ou força de trabalho.
Síntese Sistêmica
| Elemento | Dinâmica histórica |
| Casta dos guerreiros | Poder baseado na terra e na violência direta |
| Casta dos negociadores | Poder baseado no dinheiro, crédito e controle logístico |
| Transição de poder | Lenta, com alianças táticas (reis-burguesia contra nobres), culminando em revoluções ou reformas institucionais |
| Resultado interno | Mais paz social relativa, previsibilidade, rule of law |
| Resultado externo | Expansão imperial, colonialismo, mas também integração econômica global |
| Condição da paz capitalista | Supremacia do capital sobre a espada, sob regulação jurídica |
Na imagem, corpo do papa Francisco deixa Basílica de São Pedro / Reprodução

Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da UNICAMP. Obras (Quase) Completas em livros digitais para download gratuito em http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/). E-mail: [email protected].
