Transição sistêmica: Democrática ou autoritária e caótica?

A transição sistêmica será democrática, gradual e/ou processual, sem lutas com Forças Armadas no comando, violência e Estado totalitário? As mudanças serão geopolíticas, geo econômicas e ecológicas no modo de vida e não só no modo de produção?
Essas questões indagam a respeito do centro da disputa sobre os futuros possíveis (e incertos) da humanidade em meio a uma transição civilizatória. Ela já está em curso. A resposta exige considerar três dimensões interligadas: sistêmica, política e ecológica, ao reconhecer nenhuma transição profunda ocorrerá de forma neutra, linear ou garantida.
Não necessariamente a re-revolução sistêmica será democrática e pacífica. A história mostra rupturas sistêmicas na maioria das vezes envolveram conflitos — explícitos ou latentes — entre as castas dos guerreiros militares, aliados às castas dos governantes autocratas e dos comerciantes, amparados religiosamente pela castas dos sacerdotes. Mais recentemente as castas dos sábios intelectuais universitários se destacaram, juntamente com a casta dos trabalhadores organizados em sindicatos e partidos, e aliaram-se na socialdemocracia.
No pós II Guerra Mundial, essa aliança resultou no Estado de Bem-Estar Social, o melhor modelo de sociedade capitalista sob o reformismo. Aconteceu antes de sua derrocada perante a ascensão de neoliberalismo, globalização, desindustrialização e “financeirização”.
A lição de história foi a democracia e a paz dependerem de correlação de forças, instituições sólidas em sua defesa e capacidades sociais organizadas. Sem democratização real do poder econômico, tecnológico e ambiental, é provável as transformações serem conduzidas por elites das castas dos militares, governantes e pastores protestantes, reunidos na extrema-direita, reproduzindo desigualdades ou mesmo aprofundando autoritarismos algorítmicos via doutrinação em templos e redes sociais.
A alternativa democrática precisa ser construída ativamente, com protagonismo popular, novo contrato social ecológico e regulação transnacional dos fluxos de capital, dados e carbono.
As mudanças sistêmicas não devem ser apenas econômicas, mas sim mais amplas. As transformações em curso não dizem respeito apenas ao modo de produção, mas também ao modo de vida.
Algumas frentes interdependentes envolvem a Geopolítica com a multipolaridade, declínio do dólar, disputas entre China, EUA e blocos emergentes do Sul Global. Há reorganização das cadeias produtivas e do controle das tecnologias-chave.
Portanto, articula-se com a Geo-economia, dada a nova configuração entre capital produtivo, financeiro e digital. Confronta-se com a centralidade de dados, redes e energia na nova arquitetura global.
Por causa do crescente risco ecológico e existencial, a humanidade toma consciência de crise climática, colapso da biodiversidade, limites planetários. Provoca, lenta e gradualmente, redefinição de valores, consumo, tempo e vínculos sociais.
Isso exige uma mudança civilizacional: do paradigma da extração e acumulação para o da reprodução ampliada da vida (humana e não humana). Inclui repensar o trabalho, o bem-estar, o tempo livre e a própria noção de progresso.
Haverá conflito ou a transição será regulada pela democracia? A transição pode se dar pelas seguintes vias distintas, combinadas ou em disputa.
| Caminho | Características |
| Transição autoritária | Tecnocracia, controle digital, repressão social e ambiental |
| Transição caótica | Colapsos locais, guerras por recursos, crises ecológicas não controladas |
| Transição democrática | Reconfiguração institucional participativa, nova cidadania socioambiental |
| Transição revolucionária | Mudanças abruptas de estrutura e poder, com conflitos mais intensos e redistributivos |
A re-revolução sistêmica do século XXI não será apenas uma transição de forças produtivas, mas de formas de vida, subjetividades e pactos sociais.
Ela poderá ser democrática, gradual e ecológica, mas isso não é garantido — por isso é o objeto central da luta política contemporânea. Ou a maioria democrática reconfigura conscientemente os fundamentos do viver coletivo, ou a humanidade sobreviverá apenas em ruínas hiperconectadas…
A abordagem sociológica conjunta marxista-weberiana se preocupa demais com as estruturas e organizações sociais e tem pouco a dizer sobre a cultura e a experiência subjetiva. Se quisermos entender o Poder, precisamos compreender de qual modo os membros das redes de Poder pensam e agem, e por qual razão seus valores podem ter uma atração mais ampla, para além do seu próprio grupo, com o predomínio cultural chamado por Antônio Gramsci de hegemonia.
Não é apenas o poder político e econômico do comerciante-financista a explicação para a influência da Economia de Livre Mercado, desde os anos 1970, quando houve o fim do Acordo de Bretton Woods e o regime de câmbio tornou-se flutuante e o dólar passou a ser o padrão monetário global com o privilégio de sua emissão detida pelos Estados Unidos. É também a sua capacidade de convencer as elites e os eleitorados de massa popular de essa visão de mundo ser adequada a todos.
Para captar esse aspecto cultural e subjetivo das redes de poder, o conceito de casta tem duas vantagens sobre as outras formas de categorização. Ele é mais abrangente, diante classe de renda ou riqueza, por ser pela natureza de ocupações: militares, capitalistas, pastores, assim como burocratas e trabalhadores. Inclui a perspectiva cultural ou valores morais, além dos interesses econômicos,
As castas são, portanto, membros de diversas redes e instituições de poder, cada uma apresentando sua própria cultura e incentivando determinado estilo de vida. Rendem a dar a seus integrantes determinadas atitudes para com a autoridade, a organização e a política. São uma construção cultural e ação coletiva.
Os representantes de cada casta – guerreiros, governantes, comerciantes, sábios religiosos ou tecnocratas, e trabalhadores – são, claro, muito generalizados. Evidentemente, não há uma correlação tão direta entre os valores e a posição na estrutura do poder político ou econômico.
Mas, como tipos ideais, são úteis para mostrar como nossas ocupações se relacionam com nossos valores. A profissão e a experiência de trabalho são fundamentais para a formação das atitudes políticas, porém, outros atributos de cada pessoa também importam.
Os grupos sociais, vistos como castas, não são só organismos em busca do interesse próprio e da vantagem econômica. Também constituem encarnações de ideias e estilos de vida – e procuram os impor aos outros.
O fracasso da casta dominante, no caso atual, fruto da aliança entre militares e negociantes, devido a uma crise econômica ou guerra, conduz a uma crise ideológica. Geram as mudanças políticas agora no horizonte do debate mundial.
As ordens sociais podem desmoronar quando seus governantes hegemônicos buscam domínios irrestritos e ordens mundiais menos inclusivas. Mercadores provocam a instabilidade econômica e a elevação das desigualdades. Aliam-se a guerreiros e estes atiçam guerras intermináveis por honra e vingança. Os sábios-tecnocratas trazem a burocratização ou a presunção arrogante típica dos especialistas. Os trabalhadores com espírito comunitário ou corporativista não devem excluir “os de fora” para sua hegemonia ser mantida com democracia.

Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da UNICAMP. Obras (Quase) Completas em livros digitais para download gratuito em http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/). E-mail: [email protected].
