Trump e a eleição no Brasil
Para os EUA, a eleição no Brasil tem uma importância geopolítica e econômica estratégica para barrar o avanço da China no continente, para ter acesso às terras raras, petróleo e outros recursos naturais já prometidos por Flávio Bolsonaro.
Por Liszt Vieira
Tendo em vista a sólida tradição de os EUA financiarem golpes militares na América Latina e apoiarem ditaduras que promovem banhos de sangue e torturas dos que ousam lutar pela democracia, é bom este ano botar as barbas de molho. Ao que tudo indica, as evidências, até o momento, permitem dizer que setores do governo Trump, especialmente no Departamento de Estado dirigido por Marco Rubio, estão tentando exercer pressão política sobre o processo eleitoral brasileiro. Isso significa influenciar a campanha eleitoral em favor de seu candidato, mas não necessariamente interferir para fraudar ou manipular o resultado da eleição, embora nenhuma possibilidade deva ser a priori excluída.
Vamos aos fatos. Depois discutiremos se os EUA, via seu Secretário de Estado Marco Rubio, pretendem ou não apoiar um golpe no Brasil, como pensam alguns.
O Governo Trump tentou enviar dois funcionários americanos ao Brasil para questionar o sistema eleitoral. O governo Lula negou visto a esses funcionários. Lula afirmou que eles pretendiam lançar dúvidas sobre a integridade das eleições. O Departamento de Estado negou, é claro, mas segundo revelou o jornal Washington Post no fim de julho, a visita de Riley M. Barnes, secretário-adjunto, e Samuel Samson, subsecretário-adjunto, tinha o objetivo de colocar em dúvida a transparência e a integridade do sistema eleitoral brasileiro. Ambos são ligados à equipe de Marco Rubio que comanda, por delegação de Trump, a política norte-americana para a América Latina.
Rubio tem adotado uma postura muito mais hostil a Lula do que Trump em determinados momentos. Ele já comparou o governo Lula aos regimes de Cuba, Nicarágua e Venezuela e tornou-se um dos principais focos da tensão diplomática entre Washington e Brasília. Diplomatas brasileiros chegam a descrever a relação como uma espécie de estratégia de “morde e assopra”, com Rubio desempenhando o papel mais agressivo e Trump adotando ocasionalmente um tom conciliador.
Dentro do próprio governo brasileiro, a percepção é de que não há dúvida de que se trata de uma ação coordenada da direita internacional. As ações de Rubio e do presidente argentino Javier Milei buscam favorecer eleitoralmente Flávio Bolsonaro e pressionar Lula. Mas a pressão não se limita à retórica eleitoral. Ela ocorre simultaneamente ao tarifaço contra produtos brasileiros, a sanções e medidas diplomáticas contra autoridades brasileiras e à pressão sobre o governo Lula. Tudo com o objetivo de favorecer a vitória do candidato intermediário de Trump.
Assim, pressão política americana já é evidente. Washington está utilizando instrumentos diplomáticos, econômicos e políticos para pressionar o governo Lula e favorecer seu candidato Flávio Bolsonaro. Há indícios relevantes de tentativa de influenciar o resultado da eleição. Questionar a confiabilidade das instituições eleitorais brasileiras, manter interlocução privilegiada com setores bolsonaristas e utilizar tarifas e outras medidas de pressão pode produzir efeitos eleitorais, mesmo sem uma intervenção direta na votação.
Um aspecto particularmente significativo é que a própria oposição democrata americana está acusando o governo Trump de tentar influenciar a eleição brasileira. A deputada Pramila Jayapal liderou uma iniciativa no Congresso americano questionando Rubio justamente sobre isso. O problema é saber até onde vai essa interferência e qual é o grau de coordenação entre Trump, Rubio e o bolsonarismo brasileiro.
Mas as medidas adotadas por Trump contra o Brasil tendem a produzir efeito político contrário. Em vez de enfraquecer o governo brasileiro, a crítica ao Pix e os tarifaços reforçam o discurso de defesa da soberania nacional e transformam a eleição em uma disputa entre “soberania nacional” e “interferência estrangeira”.
A eleição no Brasil se reveste de uma importância estratégica para a política de extrema direita de Trump que vai tentar de qualquer forma interferir na eleição brasileira. Não se pode descartar, a priori, nenhuma possibilidade de intervenção. Há quem fale em tentativa de golpe. A meu ver, um golpe é possível, mas não é provável, por várias razões.
Primeiro, a grande mídia está dividida. O Estadão, por exemplo, criticou duramente Jair e Flávio Bolsonaro. O Globo e a Folha dão um apoio envergonhado e nem sempre discreto à candidatura de Flávio, mantendo sua tradição de apoio à direita. Segundo, por mais que a mídia tente esconder, a corrupção de Flávio vai repercutir na campanha, principalmente aqueles 61 milhões do Banco Master obtidos, desviados e embolsados por Flávio e seu irmão Eduardo. Essa corrupção deslavada enfraquece a possibilidade de apoio da mídia e dos militares a um golpe.
Terceiro, o empresariado também está dividido. Afinal, Flávio apoiou o tarifaço de Trump e Lula defendeu os interesses dos produtores e exportadores brasileiros. Acho que só o agronegócio está coeso apoiando Flávio, assim mesmo com menor intensidade do que antes. Quarto, o apoio a Flávio está sendo muito menor do que o apoio a seu pai na última eleição. O lançamento de sua candidatura em Copacabana contou com cerca de 7 a 8 mil pessoas, um fracasso comparado às manifestações bolsonaristas na eleição de 2022.
Finalmente, não existe mais o inimigo interno, não existe mais a ameaça comunista, o pretexto para o golpe de 1964. E a alegação de fraude eleitoral não cola mais, principalmente depois que o Ministro bolsonarista do TSE declarou que o sistema eleitoral brasileiro é confiável. Assim, um golpe não teria pretexto ou bandeira para ganhar a opinião pública. O governo Lula tem apoio internacional, com exceção dos EUA e seus países satélites na América Latina. Além disso, uma intervenção americana no Brasil não iria favorecer Trump às vésperas da eleição mid term de novembro. A guerra no Irã desgastou sua imagem, ele sofreu uma derrota política e perdeu apoio. Invadir um país tradicionalmente amigo, como o Brasil, seria um desastre, levando provavelmente a uma perda significativa de apoio interno.
Tudo indica, porém, que Rubio não vai cruzar os braços. Em maio, Flávio Bolsonaro encontrou-se em Washington com Rubio, o vice-presidente J.D. Vance e Donald Trump. Em julho, Rubio respondeu a uma carta de Flávio mantendo a pressão sobre o governo brasileiro em torno das tarifas e de outras questões políticas. Dentro desse contexto, os instrumentos de influência que Rubio ainda poderia utilizar seriam, em tese, manter pressão diplomática sobre o governo brasileiro, questionamentos sobre o sistema eleitoral, utilização de sanções e instrumentos econômicos, atuação através de temas de segurança e combate ao crime organizado, pressão para favorecer uma eventual negociação com um futuro governo de direita.
Rubio pode exercer influência diplomática, econômica e simbólica, mas isso não significa que possa controlar a eleição brasileira. Além disso, uma intervenção americana muito ostensiva poderia produzir o efeito contrário ao desejado: transformar Flávio, aos olhos de parte do eleitorado, em candidato dependente de uma potência estrangeira. Mas Marco Rubio não está apenas dedicado à dominação política da América Latina. Segue a orientação do seu chefe, mais voltado à dominação econômica propriamente dita. A prioridade de Trump é sempre business, mesmo em caso de guerra, como vimos no caso do Irã.
Recentemente, Trump anunciou, em 28 de agosto, o controle dos Estados Unidos sobre o petróleo da Venezuela. Trata-se do controle sobre 65 bilhões de barris das reservas venezuelanas, para desenvolver “17 campos estratégicos”, mediante um investimento de “mais de 100 bilhões de dólares”. Seria “o maior contrato de petróleo da história mundial!”, escreveu o presidente americano em sua rede social, Truth Social. E isso “sem nenhum custo para o contribuinte americano”. E acrescentou: “essa transação histórica mais do que duplica as reservas de petróleo americanas, aumenta consideravelmente o abastecimento e reduzirá substancialmente o preço dos combustíveis para todos os americanos” (Le Monde, 29/8/2026).
Assim, para o governo americano, a eleição no Brasil tem uma importância geopolítica e econômica estratégica para barrar o avanço da China no continente, para ter acesso às terras raras, petróleo e outros recursos naturais já prometidos por Flávio Bolsonaro, candidato a gerente da colônia americana de Trump em que o Brasil seria transformado.

Liszt Vieira é formado em Direito e Ciências Sociais, com Doutorado em Sociologia. Defensor Público, foi deputado (PT-RJ) e coordenador do Fórum Global da Conferência Rio 92. Autor de diversos livros sobre democracia, cidadania, meio ambiente e globalização. É membro do Conselho da Associação Terrazul.
