Última viagem de Getúlio Vargas antes do suicídio

Memória de um menino adulto
Por Fernando Pimentel*
Um trecho da coluna do Nassif de 04 de maio (A Construção do Planejamento Público no Brasil), mencionando a importância da Mannesman em Minas Gerais, remeteu a um episódio – eu diria que fundador – da minha história pessoal.
Em agosto de 1954, eu tinha três anos e alguns meses de idade. No dia 12 daquele mês, o então presidente Getúlio Vargas iria a Belo Horizonte, para inaugurar o alto forno da Siderúrgica Mannesman. Seria aquela sua última viagem. Já em plena crise do chamado “mar de lama” (o atentado contra Carlos Lacerda, no qual morreria o major Rubens Vaz, ocorrera no dia 5), Vargas tinha sido convidado por Juscelino Kubitschek, governador de Minas, para a inauguração (1). Aceitara o convite e voara, pela manhã, até o aeroporto da Pampulha.
Meus pais, getulistas convictos, tinham na época um pequeno sítio nas margens da Lagoa da Pampulha, usado para lazer nos fins de semana. Sabendo que o presidente viria à cidade, e em sua chegada estava prevista uma volta pela Lagoa, em carro aberto, para apreciar o belíssimo conjunto arquitetônico de Niemeyer, encomenda e obra de JK quando ainda prefeito, resolveram antecipar a ida para o sítio e – naquela quinta feira – aguardar a passagem de Vargas.
A casa ficava numa pequena colina, ao lado da Lagoa (eram poucas habitações naquela região). A família (mãe, pai e três crianças) estava na varanda, acenando animadamente para o cortejo que passava, motociclistas à frente. No carro aberto, banco de trás, Getúlio e Juscelino. Em pé, no estribo ao lado, de terno claro, a figura imponente do “anjo negro”, Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal do presidente. Ao ver a família, os dois governantes sorriem e respondem aos acenos. Minha mãe me mantinha no colo (eu era então o mais novo dos irmãos, o caçula definitivo não havia nascido ainda), e dizia empolgada “olha lá filho, é ele, é o Gegê, Getúlio Vargas, nosso presidente”.
Por que essa cena ficou gravada na minha memória de menino? Certamente porque, pouco mais de dez dias depois do fato, a casa fechou-se em tristeza e luto: Vargas se suicidaria no dia 24 daquele mês. Com certeza, assustado com o pranto quase convulsivo da minha mãe, eu devo ter ouvido a explicação: “morreu o Gegê, o presidente, o que nós vimos na Pampulha…”
A emoção daquele momento permaneceu comigo ao longo da vida, e engendraria outras memórias. Já adulto, mais de sessenta anos depois, na residência oficial das Mangabeiras (que habitei por quatro anos), evoquei não raras vezes a visão de Vargas, insone, descendo as escadas curvas do palácio em busca da biblioteca no andar de baixo (2). Estar no mesmo local da última noite de Getúlio fora do Catete, dias antes do seu trágico fim, sempre foi uma recordação impactante.
(1) Na cerimônia de inauguração Vargas faria um discurso contundente contra o golpe que já se desenhava, a partir do IPM instaurado pela Aeronáutica para apurar o assassinato do major Vaz. Disse assim o presidente: “No governo represento o princípio da legalidade constitucional, que me cabe preservar e defender. Dela não me separarei e advirto aos eternos fomentadores da provocação e da desordem que saberei resistir a todas e quaisquer tentativas de perturbação da paz e da tranquilidade pública.”
(2) Esta cena é narrada por diversos biógrafos de Vargas e historiadores do período. Ver, por exemplo, NETO, Lira. Getúlio: Da volta pela consagração popular ao suicídio (1945-1954). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, pp 311-12.

Getúlio e JK no Palácio da Liberdade. Atrás de Getúlio está Gregório Fortunato

Getúlio e JK na usina da Mannesman, em BH, no dia 12 de agosto de 1954
Imagens Reprodução
Este texto foi publicado originalmente pelo GGN
