A ambiguidade no papel das mulheres na Política do Brasil

No cenário internacional, a política externa brasileira se apresenta como defensora da igualdade de gênero, mas enfrenta grandes lacunas quando se trata da realidade vivida pelas mulheres no país.
Por Sarah Almeida
É curioso — e doloroso — perceber como o Brasil tem aprendido a falar sobre mulheres nos palcos internacionais. Em grandes eventos sediados pelo país, como a Cúpula dos BRICS e a futura COP 30, o país retomou uma presença que parecia adormecida, apresentando-se como um ator relevante, um verdadeiro líder regional, ou mesmo um promotor de agendas progressistas. Entre as pautas que mais ganharam espaço nesses encontros, está a defesa da igualdade de gênero, o empoderamento feminino e o compromisso com os direitos humanos. Mas essa eloquência externa não reverbera na complexa e contraditória realidade interna, onde as mulheres, sobretudo as negras, indígenas e periféricas, continuam à margem dos espaços de poder, com suas demandas mais urgentes silenciadas.
A Política Externa Brasileira parece encenar um espetáculo de avanços e compromissos, ao mesmo tempo em que, dentro de casa, as cortinas nem sempre se abrem para as mesmas cenas. Essa dissonância entre o que proclama-se na rua externa e o que se vive aqui dentro é, em muitos sentidos, a face de um racismo e machismo estrutural que, como alerta Silvio Almeida (2019), formam “um sistema complexo e entrelaçado de opressões” — no qual esse sistema apresenta-se como um muro invisível que separa o discurso internacional da política real e efetiva para as mulheres brasileiras.
Por que falar em Política Externa Feminista importa?
O termo “Política Externa Feminista” (PEF) talvez ainda não seja familiar para muitas pessoas, mas seu significado é crucial para entender o que está em jogo. A PEF não é apenas um slogan ou uma agenda “bonita” a ser declamada em conferências; é uma proposta transformadora, que exige que gênero seja uma lente transversal para todas as decisões, ações e estratégias da diplomacia de um país. Isso inclui a presença efetiva de mulheres em postos de liderança, o combate a todas as formas de discriminação dentro dos órgãos governamentais, e o compromisso com políticas que reflitam as realidades das mulheres — principalmente as que vivem em situações de maior vulnerabilidade.
Países como México, Chile, Canadá e Suíça já implementaram essa abordagem, buscando garantir que a igualdade de gênero não seja uma nota de rodapé, mas um fio condutor da política externa. A PEF, então, propõe romper com a ideia de que gênero é um tema setorial, buscando compreender que as relações internacionais são moldadas por dinâmicas de poder e desigualdade que impactam diretamente corpos, territórios e vidas. Como bell hooks (2000) já nos ensinou, o feminismo verdadeiro deve ser um movimento que possa combater todas as formas de opressão, reconhecendo as interseccionalidades entre raça, classe, gênero e sexualidade. Uma política externa que não adote essa abordagem, corre o risco de tornar-se um teatro vazio, com um exercício de soft power que não altera as estruturas profundas.
O Brasil e sua política externa: entre avanços simbólicos e lacunas reais.
Nos últimos anos, o Brasil começou a se reposicionar na política internacional, assumindo o protagonismo em fóruns que antes pareciam distantes, senão irreconciliáveis. Definitivamente, sediar a Cúpula dos BRICS e a COP 30 foi, e fará, parte dessa tentativa de afirmação, ao mesmo tempo em que inseriu o país em pautas essenciais como mudanças climáticas, direitos humanos e justiça social. A Agenda de Mulher, Paz e Segurança, como a adoção do Plano Nacional para Mulher, Paz e Segurança (WPS), consolidou uma imagem de um país apreensivo com a participação feminina em processos de decisão e em missões de paz.
Contudo, o brilho desses eventos internacionais contrasta com a penumbra das estruturas domésticas — principalmente quando percebe-se que o Brasil não incorporou essa retórica de forma coerente em sua própria política interna. As mulheres negras e indígenas, que são protagonistas das resistências históricas, seguem excluídas dos círculos decisórios que moldam o país e sua política externa. O que vemos, portanto, é uma diplomacia que diz falar por todas as mulheres, mas que silenciosamente reproduz as mesmas exclusões que denuncia.
Carla Akotirene, em Interseccionalidade: feminismos plurais (2019), nos lembra que não basta reconhecer a diversidade em teoria; é preciso que essa pluralidade se torne a base das políticas. Para que o discurso feminista tenha significado, ele deve emergir das vivências concretas, enraizadas nas experiências das mulheres reais. No Brasil, a distância entre os discursos oficiais e as demandas dos territórios é ainda um abismo.
Essa contradição se traduz, por exemplo, na ausência de metas claras e mecanismos de controle que garantam que as promessas feitas em palácios e fóruns internacionais possam se materializar em redução real da violência contra a mulher, em acesso digno à saúde, educação e justiça. Por isso, a política externa, muitas vezes, é usada como vitrine, enquanto os desafios cotidianos permanecem quase intocados.
A urgência da coerência para além dos discursos
Por isso, a política externa brasileira só terá sentido se abrir espaço para que as mulheres negras, indígenas e periféricas ocupem postos de decisão, participem ativamente da formulação e execução das políticas e tenham seus direitos efetivamente garantidos, tanto dentro como fora do país. É urgente que os compromissos internacionais sejam ligados a ações concretas que possam ser monitoradas, avaliadas e cobradas pela sociedade civil.
A coerência entre discurso e prática não é apenas uma questão de legitimidade internacional; é uma questão de justiça social. Porque, no fim, uma política externa que não consegue transformar a vida das mulheres do seu próprio país é uma política que precisa se reinventar, se desconstruir e se reimaginar.

Escritora e Estudante de Relações Internacionais e Integração na Universidade Federal de Integração Latino-Americana (UNILA). É pesquisadora nas áreas de Raça e Gênero na Política Externa Brasileira, Análise das Ferramentas Digitais e Política Externa Feminista. Também atua como redatora e revisora na Agência O Observatório.
