Jornalismo ou propaganda? O caso crônico da desinformação sobre o Irã

POR FRANCISCO FERNANDES LADEIRA
Desacato
Há décadas, o Irã não é apenas um país reportado pela grande mídia ocidental; é um personagem construído, um vilão de cartilha, cuja complexidade é sistematicamente apagada para caber em manchetes simplistas. Desde 1979, com a Revolução Iraniana, uma narrativa permanente de ameaça e irracionalidade tomou conta dos noticiários, reduzindo uma nação com história milenar a um conjunto de estereótipos: “autoritário”, “misógino”, “radical”. Essa não é uma distorção ocasional, mas um projeto constante de desinformação.
O caso mais emblemático dessa fabricação foi o tratamento dado ao ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad. Sua figura foi moldada pela imprensa ocidental como a de um fanático antissemita e expansionista. A frase que o imortalizou como um ameaçador genocida – “Israel deve ser varrido do mapa” – é, na verdade, uma tradução grosseira e deliberadamente agressiva. O que ele disse, em persa, foi que “esse regime sionista desaparecerá das páginas do tempo”, uma formulação retórica e alegórica comum na política regional, uma crítica ao sionismo como projeto político, não um chamado ao extermínio. Da mesma forma, sua questão sobre o Holocausto foi transformada em “negação”, quando seu ponto era uma crítica à instrumentalização política daquele trauma histórico. A diferença não é semântica; é fundamental. Uma gera repulsa e justifica confronto. A outra descreve uma posição política discordante, porém existente num debate real.
Esse manual de distorção não é relíquia do passado. A onda de protestos no Irã no final de 2025 e início desse ano mostrou um mecanismo ainda mais sofisticado de intoxicação informativa. Criou-se uma verdadeira “indústria de lavagem de notícias”: uma fake news nascia no Telegram, era “lavada” por canais persas financiados por interesses estrangeiros, ganhava o selo de “urgente” de agências internacionais e, por fim, virava manchete global na CNN ou na Globo. O caso da jovem Mobina Beheshti, dada como morta pela repressão da “ditadura dos aiatolás” e que depois apareceu em vídeo para desmentir, é apenas um entre inúmeros exemplos. Imagens de israelenses foram usadas como se fossem de vítimas iranianas; mortes por causas naturais ou acidentes foram narradas como assassinatos políticos.
Por trás dessa fábrica de desinformação, está um claro interesse geopolítico por uma “mudança de regime” no Irã, utilizando os protestos legítimos da população – por motivos econômicos e sociais – como cavalo de Troia para uma “Revolução Colorida”. A estratégia é antiga: capitalizar o descontentamento real, inflá-lo com narrativas falsas e apresentar a solução como a derrubada do governo alvo.
O resultado desse jornalismo envenenado é duplamente perverso. Para o público ocidental, gera uma visão caricatural e belicosa, criando um consenso artificial para políticas externas agressivas. Para o povo iraniano, rouba a agência de seus protestos, transformando seu sofrimento e suas demandas reais em mera peça de um jogo geopolítico maior.
Exigir um jornalismo ético sobre o Irã é uma defesa da verdade contra a manipulação, e um reconhecimento de que povos inteiros não podem ser reduzidos a monstros de propaganda para servir a interesses alheios. Portanto, enquanto comprarmos a narrativa pronta, seremos cúmplices de um projeto que desumaniza para melhor dominar. O Irã merece ser visto além do estereótipo. E nós, como público, merecemos ter acesso a essa imagem complexa e real.
Francisco Fernandes Ladeira é Doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Licenciado em Geografia pela Universidade Presidente Antônio Carlos (Unipac). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).
