Lula determina bloqueio de contas vinculadas a apostas ilegais
Em mensagem nas redes sociais, Lula afirma: “Assinei hoje uma nova medida que garante o bloqueio de recursos financeiros de empresas ilegais de apostas”. (Foto: Ricardo Stuckert / PR)
POR JOANNE MOTA
Nesta sexta (19), o Brasil voltou a ocupar espaço de destaque na imprensa internacional por razões que vão da segurança pública à transição energética, passando pela crescente tensão geopolítica entre o governo Lula e a nova ordem internacional impulsionada por Donald Trump. Os veículos estrangeiros observam um país que busca afirmar sua soberania econômica, ampliar seu protagonismo climático e, ao mesmo tempo, enfrentar desafios políticos internos que podem influenciar a corrida presidencial de 2026.
Ofensiva contra as bets
A ofensiva do governo federal contra as casas de apostas ilegais ganhou repercussão internacional após reportagem da RT, que destacou a decisão de Luiz Inácio Lula da Silva de bloquear recursos financeiros vinculados a empresas de apostas clandestinas. Segundo a publicação, a medida foi anunciada pelo presidente após proposta apresentada pelo Ministério da Fazenda. Em mensagem divulgada nas redes sociais, Lula afirmou: “Assinei hoje uma nova medida que garante o bloqueio de recursos financeiros de empresas ilegais de apostas”.
A iniciativa prevê que contas bancárias associadas a plataformas consideradas ilegais sejam congeladas preventivamente. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, explicou que, ao identificar irregularidades, o governo notificará imediatamente as instituições financeiras. “Qualquer conta que movimente recursos dessas apostas irresponsáveis, congele-a”, declarou.
De acordo com a RT, os valores eventualmente confiscados, após decisão judicial definitiva, serão destinados ao Fundo Nacional de Segurança Pública. Lula argumentou que os recursos servirão para “reforçar o combate às estruturas financeiras do crime organizado”.
A medida ocorre em um contexto internacional delicado. O veículo russo destaca que o Brasil está sob observação de Washington após facções criminosas brasileiras passarem a ser enquadradas pelos Estados Unidos como organizações terroristas. O governo brasileiro, contudo, procura demonstrar capacidade própria de enfrentamento dessas estruturas sem abrir mão da soberania nacional.
A reportagem também relaciona o anúncio à Operação Conto da Sorte, realizada em Pernambuco, Ceará e São Paulo, que revelou um esquema de legalização irregular de plataformas de apostas por meio de um órgão municipal. A ação reforça o entendimento do governo de que o setor se tornou uma importante fonte de financiamento para organizações criminosas.
Biocombustíveis e a revolução verde
Uma extensa reportagem do jornal espanhol elDiario.es analisa a estratégia brasileira de transformar os biocombustíveis em um dos pilares da transição energética global.
O texto recupera uma declaração feita por Lula durante visita à Feira Industrial de Hannover, na Alemanha. Na ocasião, o presidente afirmou que “o Brasil pode se converter em uma espécie de Arábia Saudita dos biocombustíveis”, defendendo a capacidade do país de liderar um novo modelo energético menos dependente dos combustíveis fósseis.
A reportagem destaca que Brasília conseguiu incluir o tema na agenda do G20 e da COP30, buscando superar décadas de resistência internacional aos biocombustíveis produzidos na América Latina. Parte dessa resistência está ligada ao temor de que a expansão agrícola estimule o desmatamento.
O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, argumentou ao jornal espanhol que “grande parte da expansão produtiva ocorre em áreas agrícolas já consolidadas” e que o país tem ampliado o uso de resíduos e matérias-primas alternativas. Segundo ele, a produção de etanol a partir da cana ocorre longe da Amazônia.
Especialistas ouvidos pela reportagem reconhecem avanços importantes. Felipe Barcelos, do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), afirmou que o Brasil possui condições de “dobrar sua produção de biocombustíveis de forma sustentável”, embora ressalte a necessidade de maior rastreabilidade da soja e de outras matérias-primas.
O texto conclui apontando que o país reúne vantagens únicas: liderança tecnológica, legislação favorável, enorme disponibilidade de terras degradadas recuperáveis e um mercado interno consolidado. Não por acaso, a revista The Economist chegou a classificar o sistema brasileiro de biocombustíveis como uma das “armas secretas” de Lula diante da crise energética mundial.
Trump e a extrema direita no Brasil
Em artigo publicado pelo portal português-brasileiro Pátria Latina, o jornalista Hélio Doyle apresenta uma leitura contundente do cenário internacional, situando o Brasil no centro da disputa entre projetos antagônicos de poder global. O autor sustenta que a ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial estaria sendo desmontada pelo governo Donald Trump. Segundo o texto, “o mundo hoje é de quem tem a força”, numa referência à centralidade crescente do poder militar e financeiro nas relações internacionais.
Doyle argumenta que os Estados Unidos utilizam o dólar e os sistemas globais de pagamento como instrumentos de coerção geopolítica. Em sua avaliação, conceitos como soberania nacional, autodeterminação dos povos e multilateralismo estariam sendo progressivamente esvaziados.
O artigo também aponta para uma retomada explícita da Doutrina Monroe, interpretando ações recentes de Washington na América Latina como tentativas de reafirmar a hegemonia estadunidense sobre o continente. Nesse contexto, a aproximação do Brasil com os BRICS e com a China seria vista como fator de tensão estratégica.
Ao abordar o papel de Trump, Doyle escreve que o presidente norte-americano “é o líder da extrema-direita internacional”, associando seu governo ao fortalecimento de movimentos ultraconservadores em diversas regiões do mundo. A conclusão do artigo sugere que a disputa política brasileira de 2026 transcende a esfera doméstica. Para o autor, a defesa da soberania nacional, da integração regional e do multilateralismo tornou-se parte de uma disputa mais ampla sobre os rumos da ordem internacional no século XXI.
Caso Master preocupa o governo Lula?
O jornal português Público destaca o avanço das investigações relacionadas ao Banco Master e seus possíveis impactos políticos sobre o governo brasileiro. Segundo a publicação, a eventual implicação do senador Jaques Wagner, líder da bancada governista no Senado, pode ampliar o desgaste político em torno do caso. O jornal descreve o episódio como um dos maiores escândalos recentes envolvendo o setor bancário brasileiro.
O veículo afirma que a aproximação do caso ao núcleo político governista gera preocupação no Palácio do Planalto, especialmente diante da preparação para a disputa eleitoral de 2026. Embora o conteúdo completo esteja restrito a assinantes, o enfoque da reportagem indica que observadores internacionais acompanham atentamente possíveis desdobramentos capazes de afetar a estabilidade política do governo Lula.
Lula brinca com Neymar e viraliza
A participação brasileira na Copa do Mundo de 2026 também gerou repercussão internacional. O jornal mexicano La Jornada destacou uma declaração bem-humorada de Lula sobre Neymar. Durante um evento em Belo Horizonte voltado ao fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), o presidente comentou a situação do atacante, convocado apesar de estar lesionado. Em tom de brincadeira, afirmou que Neymar seria “o primeiro jogador home office do mundo”.
A fala arrancou risadas da plateia e rapidamente circulou nas redes sociais. Lula acrescentou que havia visto a piada na internet e aproveitou para comentar o futuro do futebol brasileiro. “Um dia desses vamos ter que fazer uma seleção com inteligência artificial. Onze Pelés”, disse o presidente, em referência ao tricampeão mundial Edson Arantes do Nascimento.
A reportagem ressalta que, mesmo em meio a debates políticos e econômicos complexos, Lula continua utilizando referências populares — especialmente o futebol — como instrumento de comunicação direta com a população. Enquanto o Brasil busca o hexacampeonato, a figura de Neymar permanece no centro das atenções esportivas e políticas do país.
Até a próxima!

Jornalista, pós-graduada em Mídia, Política e Sociedade; Mestranda na Área de Comunicação, Cultura Digital e Tecnologia, pelo Programa de Pós-graduação em Ciências Humanas e Sociais da Universade Federal do ABC (UFABC); pesquisadora do Grupo Observa da UFABC; e membro do Grupo de Trabalho “Cultura e Sociedade”, da Fundação Maurício Grabois.
