Minerais críticos e água seguem por caminhos opostos na América Latina
A exploração ilegal de cassiterita no território indígena Tenharim do Igarapé Preto, no estado do Amazonas, no noroeste do Brasil. Imagem: Vinícius Mendonça / Ibama
POR EMILIO GODOY
Após 16 anos de operações, comunidades próximas à mina de prata e ouro San José del Progreso, no estado de Oaxaca, no sul do México, podem comprovar seu impacto ambiental, como o acaparamento de água.
“Há cerca de 30 anos, a água ainda estava ao nível do solo. Havia poços dos quais se podia tirar água com balde e os mais profundos ficavam a cerca de 10 metros. Com a chegada da mineradora, houve uma diminuição considerável. Depois, os poços secaram, especialmente ao redor de San José del Progreso”, relatou à IPS Néstor, membro da organização não governamental Articulação pela Vida, do município de San Juan Chilateca, a cerca de 500 quilômetros ao sul da Cidade do México.
A exploração subterrânea, com uma concessão de 64.000 hectares no município de San José del Progreso e de propriedade da peruana JRC Ingeniería y Construcción, consome cerca de oito milhões de litros de água por dia e já extraiu cerca de 800 toneladas de ouro e prata.
Enquanto a população obtém o recurso de três poços em San Juan Chilateca, no vizinho San José del Progreso o abastecimento é feito a partir de três ou quatro reservatórios, construídos pela mineradora para o seu próprio suprimento.
“É um modelo insustentável, porque é extremamente destrutivo e muito invasivo para as comunidades. Rompe com a questão ambiental e com a própria vida comunitária, o tecido social. Há problemas de contaminação”, denunciou Néstor, cujo nome completo a IPS mantém em sigilo por razões de segurança.
O pequeno produtor agrícola e artesão lembrou o vazamento de 1,5 milhão de litros de rejeitos minerários sobre um riacho em 2018, que contaminou os poços com metais pesados.
A mineradora responsável possui três autorizações de lançamento de efluentes que somam 52,5 metros cúbicos diários, concedidas pelas autoridades do setor.
A perda hídrica impactou a atividade agrícola da região, que costumava ser o principal motor econômico. Hoje, ela divide espaço com os setores de serviços e comércio.
“O modelo de mineração em grande escala voltado para a exportação exige grandes quantidades de água e energia. É preciso considerar que, por sua vez, são atividades frequentemente desenvolvidas onde a água é escassa. Isso gera um impacto para as comunidades locais e afeta a biodiversidade. Tende a prejudicar o acesso das comunidades próximas e, em algumas situações, afetou atividades como a agricultura”, explicou Leandro Gómez.
Os problemas hídricos de San José del Progreso são um exemplo de uma faceta pouco narrada da transição energética em direção a alternativas menos poluentes para abandonar gradualmente os combustíveis fósseis e reduzir emissões — processo que exige a eletrificação massiva de todas as atividades.
Isso ocorre porque esse conceito de “eletrificar tudo” exige minerais como cobre, prata, grafite e as chamadas terras raras, entre outros, presentes em baterias elétricas, painéis solares, ímãs e diversos dispositivos. Por exemplo, sem lítio não há baterias eficientes e duradouras. E essa atividade exige grandes volumes de água, gerando conflitos com comunidades indígenas e locais.
Mineral crítico significa qualquer mineral, elemento, substância ou material considerado essencial para a segurança econômica e nacional de um país, cuja cadeia de suprimentos é vulnerável e desempenha um papel fundamental na fabricação de um bem ou mercadoria.
Trata-se de matérias-primas — minerais e metais — necessárias para gerar energia renovável, produzir tecnologias limpas e facilitar a transição para formas menos poluentes.
A humanidade está presa a esse paradoxo do qual dificilmente sairá, apesar dos mecanismos internacionais voluntários sobre uma transição energética justa.
Para ilustrar a magnitude da pressão sobre a América Latina, uma região com recursos minerários especialmente elevados, a análise de relatórios recentes da Agência Internacional de Energia (AIE) é reveladora: a demanda por lítio poderá se multiplicar por 40 até 2040, e a de grafite e cobalto, por 20.
Imagem de satélite da mina San José del Progreso, no estado de Oaxaca, no sul do México, que gerou conflitos na região. Imagem: Google Earth
Riscos
As empresas correm o risco de perder o próprio recurso que retiraram das comunidades, enquanto estas sofrem o duplo golpe da desapropriação e da escassez provocada pela seca decorrente da crise climática.
Uma nova análise do Conselho Internacional de Mineração e Metais (ICMM), com sede em Londres e que reúne as maiores mineradoras do mundo, mostra como a falta de água e a seca ameaçam projetos minerários em todo o planeta que fornecem elementos críticos, como prata, cobre e lítio.
Uma análise da IPS com base nos dados do ICMM revelou que, de 692 instalações minero-metalúrgicas na região, 453 apresentam risco médio ou alto (65%), sendo 149 de risco médio e 304 de risco alto. Chile, México e Cuba apresentam as maiores proporções, enquanto o Brasil concentra o maior número absoluto (112).
As minas abrigam materiais como cobre, ferro, lítio, ouro, prata e zinco, fundamentais para a fabricação de dispositivos para a transição energética, como baterias, sensores, rotores e cátodos.
Leandro Gómez, coordenador do Programa de Investimentos e Direitos da organização não governamental Fundação Ambiente e Recursos Naturais da Argentina (FARN), destacou à IPS que há demanda e concorrência por um recurso escasso.
“O modelo de mineração em grande escala voltado para a exportação exige grandes quantidades de água e energia. É preciso considerar que, por sua vez, são atividades frequentemente desenvolvidas onde a água é escassa. Isso gera um impacto para as comunidades locais e afeta a biodiversidade. Tende a prejudicar o acesso das comunidades próximas e, em algumas situações, afetou atividades como a agricultura”, explicou a partir de Buenos Aires.
Por exemplo, na Argentina, um dos projetos em risco é o complexo Muerto Norte, que abriga 1,58 milhão de toneladas equivalente de carbonato de lítio, localizado próximo ao Salar del Hombre Muerto, na província de Salta, no noroeste do país, pertencente à fabricante sul-coreana de aço Posco.
Comunidades e organizações ambientalistas questionam o empreendimento devido aos danos ao salar — um ecossistema extremamente sensível — e à demanda de água em uma região onde o recurso já é escasso.
Protesto de moradores do município de Mazapil, no estado de Zacatecas, no norte do México, contra as atividades da mina Peñasquito. A mineração está no centro dos conflitos ambientais na América Latina. Imagem: Alfredo Valadez / Así se ve la minería
A Argentina produz cerca de 50 toneladas de ouro por ano e, nos primeiros cinco meses de 2026, obteve 55.682 toneladas de carbonato de lítio e outros minerais do elemento.
Em abril passado, o governo do presidente ultradireitista Javier Milei promulgou uma reforma da Lei de Geleiras de 2010 — que as protegia como reservas estratégicas de água — para permitir a mineração de cobre e lítio nesses ecossistemas.
No Brasil, a mina de nióbio Catalão, localizada no estado de Goiás, na Região Centro-Oeste, e pertencente ao grupo privado chinês CMOC Group Limited, registra ameaça hídrica.
Em 2025, a maior economia latino-americana extraiu 293,18 milhões de toneladas de ferro, 73,63 milhões de ouro, 56,86 milhões de alumínio, 7,06 milhões de nióbio, 3,56 milhões de prata, 2,96 milhões de manganês e 2,31 milhões de grafite.
No Chile, o mesmo acontece com o complexo cuprífero Chuquicamata, a maior mina de cobre a céu aberto do mundo, localizada no norte andino, onde a água também escasseia.
Nos primeiros cinco meses de 2026, o Chile, maior produtor mundial do mineral, extraiu 2,04 milhões de toneladas de cobre.
No México, a mina de cobre El Boleo, localizada no estado de Baja California Sur, no noroeste do país, e pertencente a um consórcio de cinco empresas sul-coreanas, enfrenta um cenário semelhante.
Esse ativo possui uma outorga de água de 489.830 metros cúbicos anuais e uma licença de lançamento de resíduos líquidos de 812 metros cúbicos ($m^3$) por dia.
Nos primeiros cinco meses do ano, o México extraiu do solo 43.943 toneladas de cobre, 362 de prata e cinco de ouro.
No mesmo período, o Peru explorou 1.417 toneladas de prata e 54 de ouro, enquanto a Colômbia contribuiu com 56 toneladas de ouro em 2024.
Situação dos chamados minerais críticos na América Latina. Infográfico: NRGI
A toda velocidade
A América Latina quer acelerar o ritmo das escavações para desenvolver os minerais críticos e se integrar à cadeia de valor de tecnologias menos poluentes.
Bolívia, Argentina e Chile se destacam como os países mais relevantes em reservas de lítio (primeiro, segundo e quarto lugares mundiais, respectivamente, segundo algumas estimativas). Em relação ao cobre, Chile e Peru ocupam a primeira e a terceira posições. O Brasil fica em terceiro lugar nos depósitos de níquel e terras raras, e o México ocupa o segundo degrau em fluorita, atrás apenas da China.
A Argentina possui desde 2020 o Plano Estratégico para o Desenvolvimento Minerário.
Por sua vez, o Brasil definiu um marco legal para a mineração, que vai desde a estratégia nacional 2011-2030 até uma iniciativa legal de política para minerais estratégicos e críticos, apresentada em 2024.
Em 2021, o governo de Brasília estabeleceu a Política Estratégica Pró-Mineral, que abrange 27 matérias-primas, incluindo alumínio, cobre, lítio, níquel e tungstênio.
O governo da Colômbia apresentou em outubro de 2025 o projeto da “Lei Minerária para a Transição Energética Justa, a Reindustrialização Nacional e a Mineração pela Vida”, que reforça o controle estatal, garante o respeito aos ecossistemas e assegura o protagonismo das comunidades indígenas e dos garimpeiros artesanais. Desde 2023, o governo elaborou uma lista de 17 minerais críticos, como cobre, lítio, cobalto, níquel e ouro.
Em janeiro passado, o Chile publicou a Estratégia Nacional de Minerais Críticos, que lista o cobre, o lítio, o molibdênio, o ouro e a prata.
Por fim, o México prepara sua estratégia nacional.
Enquanto isso, em fevereiro, o Departamento de Estado dos Estados Unidos organizou uma reunião ministerial sobre minerais críticos, que contou com a presença de representantes de oito países latino-americanos. Assim, a região se posiciona no eixo energético dos Estados Unidos, que buscam reduzir a lacuna de domínio mineral e tecnológico em relação à China.
O governo norte-americano assinou acordos bilaterais com Argentina, Equador, Paraguai e Peru, e acertou com o México a elaboração de um Plano de Ação de Minerais Críticos.
Em outra frente, surgiram iniciativas multilaterais para estabelecer um arcabouço de governança dos minerais críticos que inclua o respeito ambiental e os direitos dos povos indígenas e das comunidades locais.
Em 2024, o Painel sobre Minerais Críticos para a Transição Energética do Secretário-Geral da ONU emitiu sete princípios voluntários, destacando os direitos humanos no centro de todas as cadeias de valor minerais e a proteção da integridade do planeta, de seu meio ambiente e de sua biodiversidade.
Além disso, o Programa de Trabalho dos Emirados Árabes Unidos sobre Transição Justa, resultante da cúpula do clima de Dubai (Emirados Árabes Unidos) em 2023 e adotado na cúpula de novembro de 2025 na cidade brasileira de Belém do Pará, estabelece “a importância de vias de transição justa” que cumpram a observância dos direitos dos povos indígenas, das comunidades locais e dos afrodescendentes.
Porém, a retórica internacional colide com as realidades nos territórios em torno da questão central: com qual água avançará a urgente transição?
No México, a mineração consumiu 2,43 bilhões de metros cúbicos ($m^3$) anuais em 2023; no Brasil, $33\text{ m}^3\text{/s}$ diários nesse mesmo ano; na Colômbia, 660 milhões de $m^3$ anuais em 2022; e no Peru, cerca de 270 milhões de $m^3$ anuais em 2024. No Chile, a extração de cobre exigiu cerca de $18\text{ m}^3\text{/s}$ em 2024.
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Em locais como o município mexicano de San Juan Chilateca, a visão não passa necessariamente por carros e ônibus elétricos, embora seja dessas comunidades que saem os minerais que alimentam os sonhos verdes das metrópoles.
“Temos um sistema que nos alimenta há milhares de anos e que é sustentável; temos formas de vida sustentáveis. O que está em debate no planeta é buscar uma forma de sustentar um modelo que não é sustentável — nós somos as vítimas desse modelo. É preciso trabalhar como comunidades afetadas, respeitando a autonomia e a livre autodeterminação dos povos. Para nós, seria suficiente poder decidir se isso é necessário”, pediu Néstor.
Para o argentino Gómez, é necessária uma decisão política global para aplicar esses princípios diante de uma corrida geopolítica que pressionará ainda mais os tomadores de decisão e as comunidades, resultando em violações de direitos.
“A prioridade está posta na corrida, sem prestar atenção aos direitos e aos limites do planeta. Os projetos continuam sendo autorizados com uma visão que não considera os diferentes impactos. A maioria dos países se encontra em uma situação semelhante, com suas variantes políticas. Há uma tendência à flexibilização normativa diante dos padrões ambientais”, pontuou.
Este texto foi publicado inicialmente pela Inter Press Service (IPS)

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