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Chove, chuva para alegria do sertanejo* 

Chove, chuva para alegria do sertanejo* 

Durante a quaresma os rituais religiosos nas senzalas eram mantidos no mais absoluto silêncio. Calavam os cânticos, as rezas, os atabaques e outros instrumentos dos rituais sagrados do Candomblé, Jarê e Macumba. Assim, evitavam chamar a atenção da casa grande, e não despertar a ira e os castigos e torturas dos católicos carismáticos de então… 

Em Abrantes a chuva cai há horas “de cum força”. A natureza chora de dor pela matança de quatro crianças na creche de Blumenau. Sonhamos com um país democrático e bem amado. Geramos um Brasil fascista com muitos maus – mal armados –  recém saídos do armário, a obedecer as palavras de ordem do maldito Bolsonaro e séquito ensandecido! 

Entretanto, não será uma chuva em vão. Chover muito, encher as entranhas da terra seca e os rios temporários é benefíco para a Caatinga. Sinal de que vai brotar e  florescer no sertão. Este ano promete fartura de milho, mandioca, amendoim e feijão. Muita canjica, pamonha, bolo de puba, amendoim cozido e licor de genipapo. Rolará batata doce e milho assados nas brasas da fogueira de São João. Muita quadrilha e forró pé de serra. Vale tudo: homem com mulher, homem com homem e mulher com mulher. Só não vale dançar de três pernas como reclamava o Sargento Aranha, em Feira de Santana.

Literalmente, a quinta foi dia de fechar o balaio. Semana curta de muito trabalho. Simultaneamente cansativa, produtiva e prazerosa, devido aos resultados alcançados e em andamento. Balaio do  trabalho encerrado às 19h30. A abertura ocorrerá na terça à tarde, em Mucugê. Não é Silvio Jessé? 

O balaio sexual nem abriu nem fechou esta semana. O balaio dos afetos é semelhante à usina hidroelétrica: nunca fecha. Hoje é dia propício para guardar a energia, o tesão e a vitalidade para o encanto e o encontro intimo, depois da reabertura do Jarê. Sábado de Aleluia, em Andar(ai) derrapando e chapando nas trilhas da Chapada Diamantina. 

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A inquisidora Igreja Católica, Apostólica e Romana teve um papel de destaque na colonização do Brasil e do chamado Novo Mundo. Praticou a conversão violenta de índigenas e escravos africanos, em nome de um deus irado e malvado, que não mora em nosso coração. Devido ao catolicismo aliado ao poder dos senhores de engenho, os escravos africanos exerciam sua religião de maneira clandestina ou semiclandestina. 

Durante a quaresma ocorriam jejuns e penitências até a sexta-feira santa. Nas  quartas e sexta-feiras era proibido comer carne de animais criados no campo. Os fazendeiros liberavam ovos para a moqueca de pobre. Católicos cobriam as imagens dos santos. Rezavam as ladainhas diariamente na casa grande, ou na capela das fazendas.

Durante a quaresma os rituais religiosos nas senzalas eram mantidos no mais absoluto silêncio. Calavam os cânticos, as rezas, os atabaques e outros instrumentos dos rituais sagrados do Candomblé, Jarê e Macumba. Assim, evitavam chamar a atenção da casa grande, e não despertar a ira e os castigos e torturas dos católicos carismáticos de então… 

Até hoje as religiões de matriz africana praticam a regra do silêncio, durante a quaresma. Para o público em geral o terreiro fecha na quarta-feira de cinzas e reabre no sábado de aleluia. Asé manos de utopias e fé na democracia! 

Abrantes, 7/4/2023. 

AdrôdeXangô

* Para Edilene Payayá, coordenadora do Movimento Associativo dos Indígenas Payayás – MAIP.

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