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Cinema da violência

Cinema da violência

É um tributo a Quentin Tarantino e ao seu lendário Kill Bill, a produção sul coreana Kill Bokson que nos remete com esse seu título ao filme americano de 2004 no qual foram consumidos 1 600 litros de sangue falso. Mas os tempos mudaram e a inquietação com a exibição livre das 34 produções sul

A violência brutal do filme em cartaz (a produção sul coreana Kill Bokson) vem lembrar que ela não é festejada apenas nas redes sociais e nos celulares. Também se encontra sem restrições nas telas da televisão e diante dos respeitáveis sofás da família.

É um tributo a Quentin Tarantino e ao seu lendário Kill Bill, a produção sul coreana Kill Bokson que nos remete com esse seu título ao filme americano de 2004 no qual foram consumidos 1 600 litros de sangue falso. Mas os tempos mudaram e a inquietação com a exibição livre das 34 produções sul coreanas recém lançadas no streaming brasileiro vem do fato de que muitas delas são enciclopédias de violência brutal e crua despejadas livremente para os que estão sentados no sofá – adultos, adolescentes, crianças.

Assim como redes sociais, os filmes violentos sem regulamentação também devem ser temas de debates nesses tempos de agora em que a fúria do ressentimento e do ódio dá um sinal inequívoco de já estar instalada na vida cotidiana como mais um dos legados sinistros do que foi construído pelo governo e seu apostolado fascista ao longo dos últimos quatro anos.

Em 2020 Parasitafoi a primeira produção não falada em inglês a receber o Oscar de Melhor Filme. Com esse premio o filme reforçou a visibilidade de outros trabalhos realizados em Seul, capital de um país peninsular tenso, fronteiriço ao governo coreano do norte municiado de armamento nuclear, sempre prestes, pelo menos segundo a propaganda norte-americana, a iniciar uma guerra atômica final. Com o espetacular sucesso de bilheteria de Parasita a indústria do cinema da Coréia do Sul cresceu rapidamente, mas em direção a narrativas de violência.

Byun Sung-hyun, o diretor e roteirista de Kill Bokson*, de 42 anos, vem da dinastia dos muitos cineastas coreanos exemplares – Park Chan-Wook, Bong Joon-Ho e Na Hong-jin  entre outros. Já trabalhou como ator e é diretor de outro filme, esse romântico e   também encontrado no catálogo de cinema on line intitulado (com notável mau gosto) de Intensivão do Amor.  Estritamente do ponto de vista cinematográfico Kill Boksoné um bom filme.

A sua trama inusitada é esta: Gil, mulher madura e mãe de uma adolescente encontrou a forma de conciliar suas duas vidas paralelas. A visível, com as dificuldades inerentes de criar e educar sozinha a sua garota, fazer as compras de supermercado, cozinhar, cuidar da casa, das plantas e manter um alto padrão econômico, e a sua vida profissional secreta, em geral noturna, como célebre matadora de aluguel, funcionária da empresa MK, em Seul, de Chan Min Kyo, seu mentor, guru e colega e com quem trabalha sem incidentes há muito tempo.

Uma das vidas de Gil Bokson não pode interferir na outra até o dia em que, como ocorre com frequência nos roteiros cinematográficos, há um momento em que um episódio imprevisto – e, é claro, violento – se instala e atinje em cheio a  filha, a mãe e o seu patrão.

A história criada por Byun Sung-hyun vem se reunir à famosa Trilogia da Vingança de três filmes de Park Chan-wook – Mr. Vingança, Oldboy e Lady Vingança – que na sua feroz brutalidade (e no seu fascínio estético) tratam de vingança, expiação, ética, justiça e sobre a salvação do koichi, o herói.

Alguém já disse, com razão, que o cinema de violência é um dos mais puros meios de se consumir cinema como arte. Com ele, muitos diretores se fizeram consagrados tanto na Ásia como nas versões ocidentais dessa ”violência explosiva da negatividade”, observa o filósofo Byung han-chung**, sul-coreano radicado na Alemanha, aquela que vem ”de uma pressão externa e ao contrário da violência da positividade originada por uma pressão que vem de dentro causando tensões e impulsos destrutivos. E na sociedade do desempenho todos precisam ser autênticos, inovadores, produtivos e o significado de honestidade perde seu valor’’.

No crime, na agressão física e na violência há produtividade e a série coreana Round 6, que estourou índices de audiência na Netflix nos quatro cantos do mundo, reforça as observações de Byung. Ela traz um mundo distópico e violentíssimo no qual os participantes se dedicam com paixão a um jogo que acena com a possibilidade de seus participantes ganharem fortunas para saldarem suas dívidas, mesmo com risco de morte. E detalhe: a crescente desigualdade social na sociedade coreana é fato já apontado por especialistas no mundo inteiro.

É urgente e importante a discussão de como será possível regulamentar esse ‘’cinema da violência’’ às vezes pastelão (como o que ganhou o Oscar deste ano), mas em outras ocasiões de estética fascinante e qualidade artística como em Kill Bokson, sem os controles que antes os tornavam de difícil acesso a crianças e adolescentes nos cinemas.

A violência brutal do filme em cartaz vem lembrar que ela não é festejada apenas nas redes sociais e nos celulares. Também se encontra sem restrições nas telas da televisão e diante dos respeitáveis sofás da família.

*Netflix

** Byung Chulk-Han: ‘’Os infômanos estão exaustos’’ em Carta Maior e em https://www.youtube.com/watch?v=hdZ-xzm5wys

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