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Nossa pequena fatia de universo

Nossa pequena fatia de universo

A contradição de Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo fica por conta dos próprios roteiristas do filme quando comentam em algumas sequências: ”Mas tudo se resume a isso? A apenas uma rosquinha, a um donut”?

No meio do emaranhado de máquinas com as quais já estamos convivendo, as aventuras de Evelyn Wang no filme Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo não causam surpresa. Ela vai e vem entre a sua vida insatisfatória como a imigrante chinesa ansiosa e quase histérica, dona de uma lavanderia capenga em Nova Iorque, e transita por universos diversos, compensadores (outras consciências) e regrados pelas lutas kung fu nas quais se revela imbatível.
 
O filme da dupla norteamericana conhecida como os Ds, Daniel Kwan e Daniel Scheinert, é grande sucesso de crítica no streaming e em cinemas em todo o mundo desse nosso universo. Interessante assisti-lo apesar de ser longo demais (duas horas e 19 minutos), excessivo demais, repetitivo demais, porém indicado com entusiasmo em dez categorias de ‘melhores’ do próximo Oscar do dia 12 de março.
 
Apresentado em uma campanha publicitária bilionária, ele está sendo relançado agora nos nossos cinemas. Trata-se na realidade (a nossa) de um filme que, sem trocadilho infame, está em todo lugar ao mesmo tempo agora.
 
”Vivemos em uma bolha, apenas uma pequena bolha da espuma cósmica do universo”, é o recado vertiginoso  que vem inserido em um dos diálogos do multiverso criado pelos dois diretores Ds. Universos sem fim, para além dos buracos negros que já sabemos que existem: esse é o recado vertiginoso de um filme que não é tão empolgante assim.
 
Uma mistura de ficção científica com comédia, um dos seus trunfos é a atriz malaia de 60 anos, hoje uma das mais populares na Ásia e que se tornou uma queridinha da crítica no ocidente, Michelle Yeoh, de O Tigre e o Dragão. Ela faz a protagonista onipresente em toda a narrativa porque é quem embarca em uma viagem interdimensional estonteante, de ruptura com a realidade conhecida, e na qual precisará utilizar os seus poderes – que ela não sabia possuir – para lutar contra as ameaças do multiverso. A principal inimiga é a vilã Jogo Tupaki.
 
Uma das ameaças que a cometem é corporificada por Jamie Lee Curtis interpretando a funcionária furibunda da Fazenda, do fisco dos Estados Unidos, que descobre irregularidades nas contas do comércio de Wang e ameaça a chinesa de interditar o negócio. Jamie Lee Curtis é muito divertida na sua caracterização de mal humorada – e preconceituosa?
 
Mas, como ”tudo que fazemos é levado para um mar de possibilidades”, como se aprende no multiverso do filme, a conclusão é a de que ” apenas alguns momentos minúsculos na nossa vida faz com que algo faça sentido”, como é o caso da  mínima fatia que possuímos, dessa nossa realidade. É pelo menos o que reza a história de Everywhere All at Once  musicada com boas canções como Life can be so delicious e Assim Falava Zaratrustra.
 
São esses alguns dos devaneios de um roteiro demasiado discursivo, porém de um bom argumento, instigante, e que nos faz remeter à chamada Ciência no seu estágio atual e como a conhecemos hoje, como lembra o físico Andrei Linde, da Universidade de Stanford: ”Nossa compreensão da realidade não está completa; muito pelo contrário. A realidade existe independentemente de nós.”
 
A contradição de Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo fica por conta dos próprios roteiristas do filme quando comentam em algumas sequências: ”Mas tudo se resume a isso? A apenas uma rosquinha, a um donut”?
 
Provável que sim, responde o multiverso. Os adeptos histéricos do ex-presidente da república daqui, do Brasil, estão aí ainda soltos, circulando até no Congresso de Brasília para provar. A realidade existe apesar de nós. Um perigo.
 
Vale lembrar que Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo já arrecadou cerca de 103 milhões de dólares nas bilheterias do mundo –  desse mundo que nós conhecemos. Já no multiverso…
 
No YouTube, Google Play Filmes, Amazon Prime Video e Apple TV+.

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