O Eu Dividido

O Eu Dividido

Both Sides of the Blade (Com Amor e Fúria) vem com a epígrafe: ”Quando amamos alguém o amor não desaparece”. Mas é mais que um triângulo de amantes à moda do vigoroso cinema americano comercial e quantas vezes visto, revisto nas telas, e até, algumas vezes, com embalagem de qualidade.

Lançado em 1960 pelo célebre psicanalista britânico Ronald Laing, O Eu Dividido até hoje perdura como leitura básica da obra ícone do autor para leitores(as) que vêm da geração da contracultura. Esse título poderia batizar com precisão o filme de Claire Denis, de 76 anos, que acaba de entrar em cartaz nos cinemas, Amour et Achernement, traduzido para o português, talvez para atrair bilheteria como Com Amor e Fúria

Considerações lingüistas à parte, trata-se de um excelente cartaz e com certeza será uma das produções mais atraentes e procuradas pelo espectador durante a atual conclusão da temporada cinematográfica deste trepidante ano que começa a terminar – com grande alívio. 

Both Sides of the Blade, o título dado pela indústria americana ao precioso filme de Denis, é inspirado no livro inédito no Brasil, Un Tournant de la Vie, de Christine Angot, e vem com dois grandes símbolos do cinema atual francês: Juliette Binoche e Vincent Lindon, ambos estrelas, e excelentes intérpretes, que já trabalharam com a diretora em outros dos seus sucessos na tela *

Com Amor e Fúria recebeu um Urso de Prata na categoria Melhor Direção no Festival de Berlim deste ano e teve uma pré- estréia, mês passado, na  Mostra Internacional de São Paulo.

Premiado e elogiado pela crítica em várias praças, e com razão, basicamente Com Amor e Fúria fala do que pode ocorrer quando o passado mal resolvido de alguém emerge com força no tempo presente e compromete projetos de vidas estáveis.

No caso, a relação amorosa e bem sucedida, que já dura nove anos, da jornalista Sara (Binoche) com Jean (Vincent Lindon), que por sua vez, lá atrás, foi um grande amigo de François (ator Grégoire Colin), namorado pelo qual ela era apaixonada. Quando François reaparece na cena do casal, a paixão do passado ressurge com força para a moça. Sua personalidade, seus impulsos afetivos e sexuais se esgarçam e o racha se estabelece.

O cinema de Denis é consistente, inteligente e busca o fundo dos sentimentos. Aqui, é o mundo de ações, reações, hesitações, e o vai-e-vem que desnorteia e separa o casal, os dois protagonistas, mas sem salpicar no amante que reaparece e é, como insinua Denis, um espécime de narciso; o grande sedutor.

Both Sides of the Blade vem com a epígrafe: ”Quando amamos alguém o amor não desaparece”. Mas é mais que um triângulo de amantes à moda do vigoroso cinema americano comercial e quantas vezes visto, revisto nas telas, e até, algumas vezes, com embalagem de qualidade. Aqui, se fala das incongruências humanas, das contradições nunca resolvidas, das fragilidades da alma e do coração e, de passagem, acena ao feminismo e, explícito, fala de racismo. 

(Note-se que Claire Denis, nascida em Paris, sempre esteve ligada à África onde foi criada e viajava regularmente para lá acompanhando o pai, um funcionário francês. Chocolate, seu primeiro longa metragem de sucesso, de 1980, premiado com um Cesar, fala da sua vida  de menina no continente africano). 

Fala-se no filme, de passagem, sobre a afirmação do protagonismo da mulher no mundo de hoje quando o personagem Sara (Binoche) se rebela: “Sempre fiz tudo que esperaram de mim, sempre me comportei”. 

E sobre o racismo, em cena importante durante conversa do pai  (Vincent Lindon) com o filho adolescente negro, fruto de um casamento anterior com uma martiniquense. 

”Frantz Fanton”, diz Jean, ”foi quem melhor compreendeu o racismo quando escreveu sobre o pensamento branco, a norma desses confinamentos existenciais, violência que faz embarcar no discurso sobre a impossibilidade e imutabilidade da condição de brancos, negros, árabes, pobres, ricos”.

Há bem mais o que refletir nesse belo filme de Claire Denis, com seus detalhes visuais claros e a câmera sempre em grandes closes sobre pessoas e objetos, como que desejando mergulhar na alma de seus personagens através desses. É bom lembrar que a diretora foi assistente de gigantes do cinema – de Jacques Rivette, Costa-Gavras, Jim Jarmusch, Wim Wenders.   

“Não conseguir viver com quem amamos é muito triste”, diz Sara, a certa altura. E em outro momento, durante discussão com o companheiro: ”Não traí você; traí a mim mesma.” 

Com outros pequenos sinais e seus diálogos com frases decisivas há muito mais por detrás da história de uma personalidade que racha, neste Com Amor e Fúria, do que o explícito no filme e narrado na tela.

* Claire Denis e Binoche trabalharam juntas em High Life- Uma nova Vida e Deixe a Luz do Sol EntrarEste, rendeu à cineasta um prêmio na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, em 2017. Dirigiu Vincent Lindon em Bastardos e Friday Night.

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