Os (votos) guerreiros contra o dragão do poder

Os (votos) guerreiros contra o dragão do poder

Uma voz contra o poder. Título de filme adequado para essa última semana antes da eleição que mudará, pelas próximas décadas, o destino e o rumo do país. No domingo, cada voto consciente será contra o Estado atual; não um voto a favor ou contra um candidato.  Agora, a voz dos guerreiros reivindica a reconstituição…

Uma voz contra o poder. Título de filme adequado para essa última semana antes da eleição que mudará, pelas próximas décadas, o destino e o rumo do país. No domingo, cada voto consciente será contra o Estado atual; não um voto a favor ou contra um candidato. Somado a outros milhares de votos que virão, será a voz do povo clamando contra o poder político autocrata e discricionário que desvitalizou a nossa já combalida democracia e devastou suas instituições. Agora, a voz dos guerreiros reivindica a reconstituição do estado e a restauração da democracia.

Um exemplo do tanto que a voz (ou voto) de cada indivíduo do povo pode conseguir quando se concentra no esforço da luta-pela-luta-em si-mesma, na plena atenção do aqui, agora, e da trilha que está sendo percorrida, é o relato desse filme de ficção canadense porém enraizado em uma história real. Deve ser visto.*

Percy Vs Goliath é um filme lançado há dois anos, dirigido pelo diretor e ator americano Clark Johnson e baseado na história do fazendeiro canadense Percy Schmeiser, então já entrado em anos, que enfrentou com denodo e simplicidade uma batalha legal na suprema corte do Canadá, em 1989, contra a Monsanto, gigante do agronegócio e dos pesticidas. A sua luta foi desigual, é claro, com um exército de advogados por parte da acusação da Monsanto contra um outro advogado, jovem e inexperiente, na defesa do agricultor.

Schmeiser era um tradicional e idoso plantador de canola,  acusado pela Monsanto de cultivar em sua fazenda, sem licença, sementes transgênicas de propriedade da poderosa corporação. Processando o homem, a empresa iniciava assim uma ofensiva de se apoderar, sob a capa de proteção de legalidade jurídica, da propriedade não apenas desse fazendeiro, mas em seguida de outros da região e de outros países. 

A disputa de Percy contra ”Golias”, como aponta o nome do filme, foi longa, sofrida e recheada de perseguições e intimidações inclusive físicas. O velho, perplexo a princípio, e revoltado, acabou entendendo que perderia a sua propriedade caso não passasse à ofensiva  defendendo a honra e o legado familiar. A disposição do fazendeiro de se defender na justiça acabou servindo de modelo, como ocorreu, para milhares de outros pequenos e médios fazendeiros ao redor do mundo cobrados indevidamente pela Monsanto.

O processo de Schmeiser versus a Monsanto acabou chamando a atenção da mídia nacional e internacional, como relata Uma voz contra o poder. E se o filme não proporciona maior manejo formal e traz a narrativa tradicional, sem imaginação, exaltando o conhecido caminho do herói,  ele atrai pelo argumento e pela performance do ator Christopher Walken fazendo o fazendeiro corajoso. A perseverança e a simplicidade do idoso, segundo Walken, são cativantes.

Outros aspectos importantes da história são a presença da líder de uma ONG ambientalista, concentrada nas lutas do seu grupo, que percebe uma ótima oportunidade de engrossar a batalha contra o trigo transgênico da Monsanto usando (e manipulando) o caso Schmeiser e se utilizando do personagem para ampliar e denunciar as práticas ilegais em questão.

Outro personagem de suporte na narração é o do advogado jovem e com pouca experiência que defende Percy. Um pouco arrastado pelos acontecimentos, ele percebe uma chance para seu próprio reconhecimento profissional e para ser catapultado para fama, um pouco pela sua crença na inocência do cliente. De qualquer modo, sua coragem é determinante. O (bom) ator é Zach Braff – da conhecida série Scrubs.

Quando o poder funciona 

Outro filme a ser visto nesse momento de tensão, de expectativa, da imperiosa ação individual e também da ação organizada coletiva urgente que exige a luta do indivíduo contra  os poderes – no caso, poderes aleijados e corrompidos – é a pequena e recente produção uruguaia A vida de Togo (de 2021)* de Israel Adrian Caetano, autor também de Crônica de uma fuga e de El otro hermano.

Trata-se do registro da vida de um morador de rua já idoso, ex-boxeador obrigado a parar a atividade nos ringues depois de sofrer grave acidente, e que trabalha como vigia de carros, um  guarda dedicado, honesto, limpador de automóveis e personagem querido da comunidade do bairro de classe média.

A paz do local é abalada quando traficantes que querem expandir seus negócios tentam se instalar no ‘território’ de Togo e corrompê-lo fazendo-o de cúmplice. Ou tirá-lo à força do lugar, como fazem ao espancar um cadeirante, um companheiro ‘flanelinha’. 

O velho não se dispõe a negociar com os bandidos embora saiba que não será apenas denunciando-os à polícia que conseguirá afastá-los; e isso está claro em determinada cena em que Togo vai até a delegacia local lavrar ocorrência das primeiras ações de violência física. Diego Alonso Gómez é um excelente ator fazendo o velho Togo. 

Há tramas paralelas sentimentais e discutíveis envolvendo a jovem filha do ex-boxeador em tratamento anti-drogas em uma clínica; e outro enredo com a adolescente da alta classe média viciada em tranquilizantes. Elas não chegam a abalar o timing, o clima e a consistência poética dessa pequena pérola que apresenta o poder falido das instituições; um tema para nós tão próximo, nessa altura dos acontecimentos dos últimos dias.

A vida de Togo engrossa o rol de outras várias produções do cinema uruguaio, despretensiosas, envolventes e ritmadas sem afetação; como O banheiro do PapaWhisky e o pungente La Demora

É um outro conto sobre a resistência humana diante dos desmandos que vêm de cima.

Uma voz contra o poder e A vida de Togo estão na Netflix. 

Tagged: , ,

Leave comment

Your email address will not be published. Required fields are marked with *.