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“Bioeconomia é só um ajuste ao gosto do capitalismo”

“Bioeconomia é só um ajuste ao gosto do capitalismo”

Em entrevista, Ailton Krenak, escritor indígena recém-eleito para ABL, afirma que propostas de enfrentamento da crise climática precisam repensar o capitalismo. ” A lógica do capitalismo é devorar o planeta.”

POR JOÃO PEDRO SOARES
Entrevista publicada na DW Brasil

No dia 5 de outubro, Ailton Krenak se tornou o primeiro indígena eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL). A cerimônia de posse está prevista para abril de 2024. “Chega a ser uma contradição”, diz, ao lembrar o desprezo imposto às línguas indígenas pela colonização.

“Eu me aproximei do português como uma maneira de estabelecer linhas de fuga. Um povo de língua estranha acessar esse espaço de alta referência é insurgente”, afirma. Embora se mostre surpreso, Krenak não espera se sentir desconfortável na Academia.

“Já que eu não fui convertido, agora vai ter um sujeito lá dentro que é como um estranho no ninho. Então, eles podem me estranhar, mas eu já estranho eles desde sempre”, projeta.

Em entrevista à DW Brasil, o filósofo se mostra devotadamente leal ao “pensamento selvagem”. Krenak se recusa a aceitar qualquer proposta de enfrentamento da crise climática que não passe por repensar o capitalismo, em sua essência.

O discurso do governo Lula, de conciliar preservação ambiental e crescimento econômico, é alvo de duras críticas de Krenak, que não poupa sequer a proposta de bioeconomia defendida pela ministra do Meio Ambiente, Marina Silva.

“O que ela está chamando de bioeconomia é só um ajuste aos termos e ao gosto do capitalismo”, avalia. “Houve um tempo em que a gente comprava turbinas para hidrelétricas. Agora, a gente vai comprar qualquer outra bobina para bioeconomia. Quer dizer, não tem nada de novo”.

A celebrada criação do Ministério dos Povos Indígenas pelo governo Lula, em seu terceiro mandato, não desperta entusiasmo de Krenak.

“Nós não estamos sendo admitidos dentro da estrutura de poder. Nós estamos sendo cooptados para o sistema de governança liberal, progressista, desenvolvimentista, que quer tirar petróleo na foz do Amazonas”, defende.

Em meio à expectativa pela próxima Conferência do Clima, a COP28, que acontece em dezembro, o escritor indígena critica duramente o papel dos países envolvidos em guerras.

“Se a gente continuar esquentando desse jeito, vai ser uma hipocrisia discutir questão climática. Porque, enquanto a gente discute o clima, os senhores da guerra estão afundando pedaços de continente inteiro”, dispara. “Eu quero ver o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente calcular o dano que as guerras estão causando ao clima no planeta”.

DW Brasil: O que representa a sua nomeação para a Academia Brasileira de Letras, em um país onde a língua portuguesa foi imposta aos povos originários?

Ailton Krenak: Olha, isso é uma espécie de eclipse da colonialidade. A gente podia lembrar um ritual que acontece no Recôncavo, na Bahia. Lá tem a Festa do Nego Fugido. Quer dizer, nego fugido é um escravo que deu no pé. E a metáfora que eu estou evocando é que, quando dá um eclipse, os negros fogem (risos). Eles aproveitam a escuridão, já que são pretos, e passam. Na história colonial do Brasil, a gente já teve alguns eclipses. Um deles foi o evento mal resolvido da abolição. Muito depois de todo mundo, do ponto de vista econômico, histórico, o Brasil resolveu abolir a escravidão – constrangido por outras nações que tinham interesses comerciais e não queriam mais que o Brasil continuasse tendo mão de obra negra escravizada.

Mas o Brasil jogou os pretos na estrada, com nada no bolso, nem nada na mão. Sem terra. O primeiro movimento sem terra foi criado pelos colonialistas brasileiros, quando eles aboliram a escravidão, eles criaram o movimento social sem terra, que nunca teve esse nome, mas são todos os pretos fugidos. Então, essa festa do Recôncavo é uma incrível perseveração, na memória de luta do povo da diáspora de matriz africana no Brasil.

Entre os indígenas, a gente pode considerar que a trajetória de fuga do colonialismo se dá por outras beiradas, que é a da aproximação com a língua portuguesa. Quando a gente entra no molde da língua portuguesa, passa a ter alguma possibilidade de inclusão, de aceitação, porque você está falando língua de gente. A história colonial do Brasil é tão marcada por um racismo estrutural, institucional, que as línguas nativas eram chamadas de “gírias”. Em algumas regiões da Amazônia e do sertão brasileiro, quando ouvem os índios falando sua própria língua, eles dizem: eles estão cortando gíria. Cortar gíria é falar uma linguagem dissimulada para despistar quem está ouvindo. Quer dizer, é uma falta de respeito total com as línguas nativas.

A Academia Brasileira de Letras é o centro da lusofonia no Brasil, com esse elogio constante ao vínculo com a colonialidade europeia. E o Brasil faz essa excelência se tornar cada vez mais uma espécie de língua mãe, lingua mater. Ora! Eu me aproximei do português como uma maneira de estabelecer linhas de fuga. Um povo de língua estranha acessar esse espaço de alta referência é insurgente. Chega a ser até uma contradição. Já que eu não fui convertido, agora vai ter um sujeito lá dentro que é como um estranho no ninho. Então, eles podem me estranhar, mas eu já estranho eles desde sempre.

Fenômenos climáticos extremos têm acontecido com frequência cada vez maior, com graves impactos sociais e ambientais. Porém,  

Você citou alguns eventos extremos que vão se tornar cada vez mais frequentes. Isso aí já está visível. Ninguém consegue mais despistar isso. Os negacionistas têm a cara de pau de dizer que isso sempre aconteceu. Sempre. teve calor extremo, tempestades de inverno e tal. Buscam até eventos ao longo da história para dizer “ah, isso aconteceu há 500 anos atrás, há 2.000 anos atrás”. Esta é a maneira de eles dissimularem o debate.

A questão é que os cientistas e os agentes engajados num debate para mudar esse quadro de risco iminente de extinção de uma espécie, da sexta extinção em massa no planeta, não conseguem articular as ideias – ao mesmo tempo políticas, de clima e da economia global, da disputa global que é inerente ao capitalismo. É como se eles quisessem fazer uma conversa fora do domínio da economia capitalista. O domínio da economia capitalista é predatório. A lógica do capitalismo é devorar o planeta.

O discurso do governo Lula transita entre a preservação ambiental e uma visão desenvolvimentista, que divide espaço com a bioeconomia. Como você avalia essa postura?

Se a gente tem um governo aqui no nosso país, neste momento, buscando ao mesmo tempo lidar com a complexidade climática e promover o faturamento da economia, ele pode estar cometendo um erro muito grave, de esquizofrenia. Porque não dá para você chutar a bola para o gol e pegar a bola no gol. Só se você for um homem borracha. Eu acho que a ideia da economia brasileira de querer performar melhor do que qualquer país capitalista para garantir um lugar de governança social é de alto risco.

Talvez, o Lula não tenha outra opção. Ele foi pego numa sinuca de bico entre um Congresso fascista e um conjunto de situações internamente estruturadas por uma classe econômica totalmente vampira. Os bancos são vampiros, o agronegócio é vampiro. Todo mundo aqui é vampiro. E eles querem vantagens. Costuma ser coincidente também que esses vampiros são burros. Então, vai ter um dia em que eles vão morder o próprio pescoço.

A metástase é o vampiro chupando o pescoço dele mesmo, quando o clima do planeta não permitir mais ninguém fazer nada, ficar todo mundo morto na calçada feito uma lesma em dia de calor. Mas esses caras são tão burros que não adianta a gente dizer para eles que isso tá errado. Eles são fundamentalistas. Eles acreditam que o capitalismo é a única maneira de viver no planeta. Se eles continuarem acreditando nisso, eles não vão deixar a ideia do desenvolvimentismo. E o próprio governo do Brasil não vai conseguir escapar dessa receita medíocre.

É uma pena, porque a gente podia fincar pé no propósito de fazer valer a diversidade étnica e cultural do Brasil, e inventar um tipo de economia que não fosse essa fúria modernizante, tecnológica, tecno-industrial, técnico-ambiental, que a ministra Marina Silva chama de bioeconomia. O que ela está chamando de bioeconomia é só um ajuste aos termos e ao gosto do capitalismo: muita grana, muito investimento, consumo, comprar equipamentos. Houve um tempo em que a gente comprava turbinas para hidrelétricas. Agora, a gente vai comprar qualquer outra bobina para bioeconomia. Quer dizer, não tem nada de novo.

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Você sempre teve uma visão crítica sobre a relação de tutela estabelecida pelo Estado brasileiro com os indígenas por meio da Funai. Qual é a sua avaliação sobre a criação do Ministério dos Povos Indígenas no governo Lula?

A minha visão política não mudou, continua orientando a minha compreensão do fato de a gente ter um governo, finalmente, nacional. Coincide de ser o Lula, no terceiro mandato. Mas podia ser outro governo, em que ia sentir a necessidade de fazer essa espécie de atualização dos instrumentos de governança. Se você quiser fazer parte do clube, do que eles chamam de democracias liberais, escapar do carimbo de ser uma ditadura, precisa dar acesso às minorias: minorias sexuais, raciais, étnicas. Tudo. Em algum nível, você tem que abrir para a participação da diversidade da sociedade, se quiser expressar um projeto de democracia liberal.

A democracia liberal é a ferramenta de governança do capitalismo. Quando o governo brasileiro se abre para essas representatividades, está se atualizando para servir ao sistema capitalista. Quem entender isso de outra maneira precisa estudar. Nós não estamos sendo admitidos dentro da estrutura de poder. Nós estamos sendo cooptados para o sistema de governança liberal, progressista, desenvolvimentista, que quer tirar petróleo na foz do Amazonas. Então, ele precisa de tudo. Vamos precisar de todo mundo (canta trecho da canção O Sal da Terra, de Beto Guedes). Para tirar petróleo na Foz do Amazonas, vamos precisar de todo mundo, inclusive da doação e da ajuda internacional. Para continuar sendo capitalista.

A COP28 será realizada em dezembro, em Dubai. O que deve estar no centro das discussões?

Uma Conferência do Clima realizada neste final de 2023, quando estamos assistindo a uma violência incontrolável dos senhores da guerra, deveria fazer um cálculo do dano que uma guerra como as que estão acontecendo agora na Europa podem causar para o clima global. E, se isso for possível de medir, quanto nós vamos cobrar dos donos da guerra por isso? Senão nós vamos ficar discutindo teses sobre clima, parecendo um bando de crianças, enquanto o mundo desaparece de sob os nossos pés, e o céu despenca sobre as nossas cabeças. Eu já falei isso tantas vezes, que parece que estou ficando velho.

Não adianta você resolver uma questão local, se a questão global está toda torcida, como nós estamos agora diante dessas guerras. Guerras! Eu não vou anunciar de novo a lista, porque ninguém é burro e sabe o tanto de guerra que estamos tendo, espalhadas pelo mundo, e o quanto elas cresceram na última década. Se a gente continuar esquentando desse jeito, vai ser uma hipocrisia discutir questão climática. Porque, enquanto a gente discute o clima, os senhores da guerra estão afundando pedaços de continente inteiro.

Como é que você vai calcular o dano ambiental da guerra no Golfo? De Israel e Palestina? Da Rússia invadindo a Ucrânia? E de todas as outras guerras espalhadas pela África e outros continentes. A gente está o tempo inteiro fritando o mundo, cara. Eu quero ver o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente calcular o dano que as guerras estão causando ao clima no planeta. E avaliar se jogar missel é menos danoso do que jogar merda.

O presidente Lula reivindica com frequência que os países ricos aumentem sua contribuição financeira para a preservação ambiental. O que você espera do “norte global”?

Olha, eu podia dizer que não espero nada. Mas seria uma resposta curta demais para um problema amplo, global. Por ser global, seria uma grave omissão os países ricos da Europa fingirem não ver que nós estamos fritando. Não só na Amazônia. Nós estamos degelando, torrando, fritando, em diferentes lugares do planeta. O El Niño e outros fenômenos que são marcadores das situações extremas climáticas não acontecem só na América do Sul, acontecem no planeta inteiro. Enquanto a Europa achar que é o centro do mundo, não vai poder ajudar ninguém em lugar nenhum. A gente deveria questionar essa ideia de ajuda e começar a pensar em corresponsabilidade de quem faz a governança global.

Quem está governando qualquer lugar do mundo teria que estar envolvido num programa obrigatório de corresponsabilidade. Esses países que estão se lambuzando na guerra agora, quando cessarem a hostilidade um com o outro, deveriam ser obrigados a pagar uma contribuição trilionária para os países que não participaram de guerra nenhuma enquanto eles estavam cagando no mundo. Porque nós vamos ter que limpar a merda deles. Aí, a gente ia criar uma economia um pouquinho mais cooperativa e menos caritativa. A Europa acha que faz caridade, tirando um pouco da sua fortuna para ajudar os outros que estão afundando. Mas é ela que afunda o mundo. As pessoas têm que ter corresponsabilidade, parar com esse papo furado de caridade.

Após a tese do Marco Temporal ser derrotada no Supremo Tribunal Federal, a disputa segue no Congresso, com forte pressão da bancada ruralista sobre o governo. Qual desfecho você projeta?

Essa expressão de caráter jurídico, Marco Temporal, é uma invenção fajuta, sem nenhuma âncora na história jurídica do país. Ela apenas nomeia um período de disputa entre aqueles que querem expropriar os direitos dos povos nativos e aqueles que querem fazer valer o princípio do direito entre as sociedades – em que caberia, sim, espaço para o tal do desenvolvimento econômico que os caras do capitalismo querem. Mas também o direito ambiental daqueles povos que já viviam aqui e não querem ter seus territórios plantados por madeireiras, petroleiras, mineradoras, por todo tipo de fúria capitalista que fica nos assediando como se fosse uma peste. A palavra Marco Temporal pode mudar, mas a fúria capitalista não muda. Isso não vai acabar. Enquanto existirem pequenas comunidades que querem viver com seus territórios livre do veneno, da droga e do crime, vai haver disputa.

Nós estamos imersos num oceano de ignorância, onde as pessoas querem dinheiro a todo custo. Os que não têm acham que vão ganhar, enquanto os que têm muito só querem aumentar suas fortunas. Isso é tão óbvio, mas é óbvio para quem já viveu e entendeu como é que funciona. Não é óbvio para as pessoas que acham que finalmente chegou a sua vez. Lá em Óbidos, no Pará, e em outras regiões carentes da Amazônia, se chegar uma mineradora na praça, eles vão adorar, porque nunca tiveram tanta facilidade para ter dinheiro de graça, para consumir tudo o que todo mundo consome. Essa sansara, essa roda da fortuna, onde sempre vai ter alguém chegando e falando “oba, agora é minha vez!”, é o motor que vai comer o mundo. O mundo vai ser comido assim, por idiotas que acham que chegou a sua vez.

Se você olhar a história, do século 19 ao 21, não vai ver nenhuma outra variante. O que apareceu no meio do caminho? O socialismo? Tem socialismo em algum lugar do mundo? O capitalismo virou a única religião planetária. Como você quer, dentro de uma religião planetária dessas, abrir rotas de fuga para outro tipo de vida que não seja a disputa constante contra a fúria da mercadoria? Como o genial (Davi) Kopenawa Yanomami nomeou, a sociedade não indígena se tornou a sociedade da mercadoria. Quer dizer, não tem outra coisa que justifica a vida dessas pessoas, é a mercadoria. É como se a mercadoria fosse o altar do capitalismo. É uma religião. Quem pensa que capitalismo é economia está enganado, é religião.

JOÃO PEDRO SOARES é reporter da DW Brasil.


 Ailton Krenak fotografado pelo Coletivo Multimídia.

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