Como a Grã-Bretanha ficou rica

Como a Grã-Bretanha ficou rica

Mark Koyama e Jared Rubin, no livro “How the World Became Rich: The Historical Origins of Economic Growth” (Polity Press, 2022), para responder à questão “Como é que o mundo ficou rico?” começam com a análise da Revolução Industrial da Grã-Bretanha. A industrialização desencadeou uma série de acontecimentos resultante, em última análise, em um crescimento econômico moderno e sustentado em diversos países.

Em meados do século XIX, a economia britânica começou a apresentar um PIB per capita crescente, de forma contínua, embora a população também continuasse a expandir-se. Apesar dos altos e baixos das guerras e dos ciclos econômicos, não se verificaram reversões graves no crescimento.

Os coautores buscam apresentar as razões tanto para a localização do crescimento econômico moderno e quanto de seu tempo histórico. Dados alguns dos pré-requisitos institucionais para o crescimento, a controvérsia é sobre quando, onde e por qual razão.

Acima de tudo, a principal mudança revolucionária na industrialização foi a aceleração na taxa de inovação. Garantiu o crescimento econômico não se esgotar. Novas e importantes tecnologias surgiram na Grã-Bretanha na virada do século XVIII para o XIX.

Possuía vários pré-requisitos importantes: 1. a ascensão de uma sociedade orientada para o mercado e as suas implicações para a oferta de trabalho e os padrões de consumo, 2. a dimensão da economia nacional, 3. a agricultura comercial, 4. a cultura e as normas sociais, e 5. a importância crescente da economia de comércio transatlântica.

Fatores distintos entre a Grã-Bretanha dos seus rivais holandeses incluem o seu elevado nível de capacidade estatal e o seu papel dominante no comércio transatlântico do produzido por escravos nas colônias. A inovação foi uma resposta aos altos salários e ao capital e à energia baratos. Os desenvolvimentos culturais e intelectuais na sociedade britânica e europeia, juntamente com o aumento do capital humano e das competências, foram responsáveis pela industrialização da Grã-Bretanha.

Sua economia doméstica podia ser descrita como uma economia de mercado. As atividades econômicas eram orientadas em torno do intercâmbio de mercado.

Todas as sociedades de grande escala dependem, até certo ponto, dos mercados. Mesmo na União Soviética havia trocas de mercado, tanto legais como as muitas no “mercado negro” (paralelo). Em lugar do planejamento central de todas as atividades é mais adequado permitir os mercados desempenharem um papel-chave na alocação de capital e demais fatores de produção, senão na alocação de bens finais.

Em 1700, a Grã-Bretanha tinha uma economia de mercado totalmente desenvolvida. A expansão e a melhoria da integração dos mercados internos foi obtida com uma rede nacional de estradas e canais fluviais.

Outra característica de uma sociedade de mercado surgiu neste período: a ascensão do consumidor. Houve um afastamento da produção e do consumo dentro das famílias para uma produção e um consumo orientados para o mercado. Foi uma mudança radical na forma como as pessoas consumiam bens e serviços – da autossubsistência para o varejo.

As famílias se tornaram participantes mais ativos na economia de mercado, tiveram de trabalhar mais tempo para ganhar os salários necessários para comprar todos os bens novos e acessíveis. Novas oportunidades de consumo significaram menos bens produzidos na economia familiar. Podiam a comprar bens sem substitutos domésticos.

Durante o século XVII e início do século XVIII, houve um aumento nos fatores de trabalho, tanto nas horas de trabalho como no número de dias trabalhados. A razão, segundo a narrativa neoliberal, foi “os trabalhadores trabalharem mais porque queriam rendimentos adicionais para aproveitar novas oportunidades de consumo”!

Não falam na exploração abusiva da força de trabalho com péssimas condições de trabalho fabris. No século XIX, não houve aumento nos salários reais ingleses.

“Esta maior vontade de trabalhar mais horas pelos salários necessários para a aquisição de novos bens de consumo pode ser vista como uma pré-condição para a ascensão do sistema fabril”. Afinal, “as fábricas exigiam grandes investimentos em capital fixo. Isso só valeria a pena se houvesse uma força de trabalho disposta a ocupar as fábricas e, se necessário, trabalhar longas e exaustivas horas”. Caso contrário, ela morreria de fome…

No século anterior à Revolução Industrial, a agricultura inglesa foi altamente comercial em relação ao resto da Europa. A produção era voltada para o mercado. A maioria dos trabalhadores eram trabalhadores assalariados.

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As explorações agrícolas eram grandes em comparação com a Europa continental, o que lhes permitia explorar economias de escala. Em meados do século XVIII, a Inglaterra era um grande exportador de alimentos. Esta agricultura “capitalista” distinta foi uma pré-condição importante para a Revolução Industrial.

“O aumento da produtividade agrícola entre 1500 e 1700 no noroeste da Europa (Inglaterra) ajudou a banir o espectro da fome”. Também ajudou a sustentar um grande aumento na proporção da população habitante nas cidades. Afinal de contas, o desenvolvimento urbanoindustrial só é possível quando existe um excedente agrícola suficientemente grande para alimentar todos os habitantes das cidades. Depois, durante a Revolução Industrial, a Grã-Bretanha tornou-se um importador líquido de alimentos.

Nas Ilhas Britânicas, as instituições políticas proporcionaram uma certa estabilidade depois da Revolução Gloriosa de 1688 com consequências políticas e econômicas. Na esfera política, a Monarquia Parlamentarista (ou constitucionalista) permitiu o endividamento público. Também resultou em maior poder fiscal e militar.

As instituições políticas por si só não podem explicar por qual razão a Grã-Bretanha se industrializou primeiro. A Revolução Industrial foi a onda de inovações a partir da segunda metade do século XVIII, dada sua grande oferta de trabalhadores qualificados.

Embora a estabilidade política britânica e a proteção dos direitos de propriedade fossem importantes, não podem explicar plenamente esse desenvolvimento. Lá tinha direitos de propriedade intelectual com um sistema de patentes usado para proteger a inovação.

Os cidadãos britânicos podiam sentir-se relativamente seguros de as suas propriedades, inovações e produção industrial não serem apreendidas por um governo ou qualquer outra pessoa com poder coercitivo. No Poder Legislativo parlamentar, havia restrições suficientes sobre o Poder Executivo para a população se sentir bem protegida contra violações dos direitos de propriedade individual.

Distinguia-se da coroa espanhola e/ou portuguesa. Estavam sempre dispostas a transgredir os direitos de propriedade, especialmente os dos seus comerciantes. Regularmente, renegaram as suas dívidas e confiscaram tesouros provenientes do comércio transatlântico. Venderam (por bom dinheiro) aos comerciantes estrangeiros privilégios sobre os comerciantes nacionais. Pisotearam os direitos das minorias religiosas como os judeus perseguidos e expulsos para a Holanda ou o Brasil.

A ascensão da economia transatlântica mudou o panorama econômico da Grã-Bretanha. A nova orientação do comércio internacional para oeste alterou a estrutura e a geografia da economia britânica. Com exceção de Londres (a maior cidade do mundo em 1800), a geografia econômica da Grã-Bretanha deslocou-se para o Noroeste.

Produtos novos, exóticos e viciantes foram introduzidos na Europa pelo comércio atlântico, especialmente chá, tabaco e açúcar – este a importação mais importante. Esses bens eram antes luxos, mas logo se tornaram acessíveis à população em geral.

Como a Grã-Bretanha construiu uma indústria têxtil de algodão líder mundial? Críticos apontam as políticas de colonialismo agressivo no exterior e a intervenção estatal, regulação e coerção contra a força de trabalho no país.

Não se pode reduzir a Revolução Industrial apenas à essa indústria. As indústrias de exportação são normalmente vistas como motores-chave do crescimento econômico. As exportações são os preços pagos pelas importações: ambas crescem juntas. Na verdade, a importância do comércio para a Revolução Industrial Britânica foi considerável, mas não tão significativa a ponto de justificar ser descrita como crítica ou essencial.

O tamanho dos mercados, especialmente dos mercados urbanos, expandiu-se consideravelmente na Inglaterra dos séculos XVII e XVIII. Isto desempenhou um papel importante ao permitir a especialização regional e promover o crescimento. O Estado britânico estava empenhado no livre comércio interno, sem dúvida, devido à preeminência das elites econômicas no Parlamento com a Monarquia Constitucionalista.

A capacidade estatal da Grã-Bretanha era incomparável na Europa. Ao contrário da Holanda, foi capaz de financiar numerosas guerras com a França. Sustentou enorme dívida pública sem recorrer a níveis draconianos de tributação. Enfim, a equação chave foi Desenvolvimento = Estado + Mercado + Comunidade (força de trabalho educada).

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