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Surgimento da Contabilidade Bancária: Moeda Escritural

Surgimento da Contabilidade Bancária: Moeda Escritural

O dinheiro depende da confiança social – e “o crédito nos negócios é como a lealdade ao governo”, escreveu Bagehot. O dinheiro soberano é qualitativamente diferente do dinheiro privado. Todos os bancos dependem do Banco Central, assim como todos os comerciantes dependem de algum banqueiro.

Durante quatro anos e meio (2003-2007), quando representei a Caixa Econômica Federal na Diretoria Executiva da FEBRABAN, ficou evidente para mim a frase original de Ogden Nash: “os banqueiros são como todo o mundo, exceto serem mais ricos”…

Durante seu apogeu como centro financeiro, em 1422, setenta e dois “bancos internacionais” operavam em Florença, segundo informação de Jack Weatherford no livro A História do Dinheiro. “Os cambistas operam em pequenos escritórios ou mesmo em cabines de metal reforçado, concreto e vidro grosso. Eles não têm os lobbies sofisticados dos grandes bancos (…). A maioria deles não usa colarinho e gravata ou o estilo de fantasia como nos grandes bancos. Em contraste, os cambistas são notoriamente mais comuns em estilo e maneira”.

Cambistas se instalaram desde quando existem várias moedas. Podem ser encontrados quase sempre nas proximidades dos mercados onde costumam se reunir comerciantes de várias origens e, recentemente, ao redor de pontos turísticos em todo o mundo.

Por mais mundanas e inexpressivas fossem suas atividades e serviços cotidianos, as maiores famílias de banqueiros da Florença renascentista surgiram de suas fileiras e tiveram um profundo impacto na arte, arquitetura e matemática, bem como no mundo das finanças. Os Medici e outras famílias ricas de Florença financiaram um grande renascimento da vida acadêmica e, mais tarde, da pintura, escultura e arquitetura.

Em 1202, Leonardo Fibonacci, também conhecido como Leonardo Pisano em homenagem a Pisa, seu lugar de origem, publicou o Liber Abad, texto pelo qual introduziu na Europa o hoje chamado de algarismos arábicos, embora os árabes os tivessem aprendido na Índia. Esse sistema simplificado oferecia grandes vantagens sobre os complicados numerais romanos, difíceis de somar e subtrair na prática.

A introdução de algarismos arábicos eliminou a necessidade do ábaco – antigo instrumento de cálculo formado por uma moldura com bastões ou arames paralelos, dispostos no sentido vertical, correspondentes cada um a uma posição digital (unidades, dezenas, centena etc.), nos quais estão os elementos de contagem (“contas”). Os comerciantes passaram a calcular os novos algarismos, de maneira prática e rápida, em suas cabeças ou em tiras de papel.

Os séculos XIII e XIV trouxeram consigo uma revolução matemática, quando integrou o cálculo numérico às ruas e negócios de toda a Europa. A expansão do sistema bancário fez da Itália o centro desse novo desenvolvimento.

Em 1478, apareceu o Treviso Arithmetic, um manual anônimo, destinado a ensinar às pessoas ligadas ao comércio algo mais sobre números e cálculo. Em 1487, Lúea Pacióli, um monge franciscano, publicou a Summa de Aritmética Geometria Proporcionali et Pnoportionalitá, uma obra-prima de seiscentas páginas, onde ensinava as operações matemáticas agora comuns e apresentava a contabilidade de partidas dobradas.

Matemáticos árabes desenvolveram a álgebra como um meio de operar em quantidades desconhecidas. A palavra “álgebra” vem de al-jabr, termo usado no título do livro Hisab al-Jabr w-alrMuqabalah (“A Ciência do Retorno e Redução”) pelo matemático persa Muhammad ibn-Musa al-Khwarizmi no século IX.

Uma corruptela do nome al-Khwarizmi levou ao hoje conhecido pela palavra moderna “algoritmo”, isto é, qualquer procedimento computacional mecânico ou recursivo. Lula acertou quando discursou na China: “Estamos sendo tratados como algoritmos!”

Em 1585, foi publicado De Thiende pelo acadêmico holandês de Bruges Simon Stevin (1548-1620), cuja carreira começou como caixa em uma loja. Ele se propôs a introduzir os métodos de contabilidade itálicos no norte da Europa e publicou as primeiras tabelas de cálculo de juros, para as pessoas pudessem entender até então o enigmático procedimento desenvolvido por banqueiros, agiotas e outros credores.

Os estudiosos universitários, por fim, buscaram suporte teórico para esses novos sistemas numéricos. René Descartes desenvolveu plenamente o substrato filosófico desse método científico de natureza matemática. Em 1637, publicou seu Discurso sobre o Método. Ele abominava o estudo da Matemática sem propósito, pois ela era um meio de compreender o mundo e conseguir resultados práticos.

O uso da Matemática para entender a natureza recebeu um segundo impulso, em 1686 (véspera da Revolução Gloriosa na Inglaterra), com a publicação dos Principia Mathematica de Isaac Newton. Noventa anos após, Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações, a obra mais famosa de Adam Smith, foi publicada pela primeira vez em Londres, em março de 1776, véspera da Revolução Americana (Independência dos Estados Unidos) em 4 de julho do mesmo ano. Eram iluministas.

A ascensão da Economia Monetária criou, assim, uma nova maneira de pensar. Como resume Georg Simmel, um filósofo do século XX, “por sua própria natureza, o dinheiro torna-se a representação mais perfeita de uma tendência cognitiva da Ciência moderna como um todo: a redução de fatores qualitativos a outros de natureza quantitativa”. Ele muda os sistemas de conhecimento do mundo, pensamento, artes e valores.

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Um século após “o das Luzes” (Iluminista), o editor da revista The Economist era Walter Bagehot, o primeiro dos pensadores de uma tradição inestimável, mas negligenciada, no pensamento econômico: Economia Financeira. Nasceu em 1826 e, por isso, não tinha treinamento formal em Economia referenciado aos Princípios de Economia Política de John Stuart Mill, de 1848, o primeiro livro organizador do assunto a ser ensinado.

Bagehot aprendeu tudo sabido no trabalho – primeiro como banqueiro, trabalhando para um tio com controle do maior banco do oeste da Inglaterra e, mais tarde, como jornalista financeiro. Foi sem precedentes a profunda influência de seus escritos depois de ele se tornar editor do The Economist, em 1860, tanto no pensamento econômico quanto na política econômica.

O visto por Bagehot como a realidade mais básica a ser compreendida sobre a economia monetária moderna era a compreensão convencional do dinheiro como ouro e prata –adotada pelo hábito pelo homem comum e promovida pelos economistas acadêmicos de então – escamoteava a realidade. O dinheiro predominantemente usado pelos empresários era, em grande parte, crédito privado transferível: acima de tudo, depósitos bancários e notas. “Comércio é realizado em grande parte com dinheiro emprestado.”

Esse fato tem profundas ramificações para a compreensão dos ciclos de expansão e recessão da economia moderna – e como moderá-los. Se o dinheiro é, em essência, um crédito transferível – em vez de uma mercadoria como meio de troca, como insistiam os economistas acadêmicos –, então fatores diferentes explicam a demanda por ele.

Atender a demanda por commodities era visto como uma questão de garantir uma oferta suficiente no mercado. Quando se trata de crédito transferível, no entanto, o volume por si só não é suficiente: a solvabilidade do emissor e a liquidez do passivo entram em jogo. E ambos os fatores são determinados pelos níveis de fé e confiança.

“O ponto principal no qual um sistema de crédito difere de outro é a ‘solidez’”, escreveu Bagehot. Crédito significa uma certa confiança ser concedida e uma certa confiança depositada. O crédito é uma opinião gerada e variável pelas circunstâncias. Por isso, uma compreensão genuína do funcionamento da economia requer uma familiaridade íntima com sua história, sua política e sua psicologia – “nenhum argumento abstrato e nenhuma computação matemática ensina-o a nós”, cita Felix Martin no livro Dinheiro.

Essa mudança de perspectiva sobre a natureza fundamental do dinheiro implicava não só uma compreensão diferente do sistema econômico, mas políticas alternativas para evitar crises e recessões. O primeiro passo foi entender, embora todo dinheiro seja um crédito transferível, haver um emissor de moeda nacional, cujas obrigações são, em circunstâncias normais, mais dignas de crédito e mais líquidas comparadas às de todos os outros: o soberano, cuja autoridade monetária foi delegada ao Banco Central.

O dinheiro depende da confiança social – e “o crédito nos negócios é como a lealdade ao governo”, escreveu Bagehot. O dinheiro soberano é qualitativamente diferente do dinheiro privado. Todos os bancos dependem do Banco Central, assim como todos os comerciantes dependem de algum banqueiro.

Da mesma forma como o dinheiro do Banco da Inglaterra, originalmente, ganhou sua moeda de seu acordo com o soberano, o dinheiro emitido pelos bancos e corretores de notas passou a ganhar o seu dinheiro desse Banco Central, ou seja, o dinheiro dos bancos do país ganhou sua moeda do mercado de títulos de dívida privada, senão pública. Eles atraem depósitos e investimentos dos rentistas a ser lastreados neles.

Em uma crise, o papel fundamental do Banco Central fica claro para todos verem: torna-se, de repente, o corretor de títulos e o banqueiro (“emprestador”) de última instância, porque só ele sempre é capaz de descontar os títulos de dívida.  “Essa infraestrutura monetária foi”, explicou Bagehot, “o sistema operacional da Revolução Industrial e distinguiu a Grã-Bretanha de todos os outros países do mundo.”

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