Macron: “Força democrática do Brasil venceu e retomou todos os equilíbrios”

Macron: “Força democrática do Brasil venceu e retomou todos os equilíbrios”

Lula: “Verdadeira guerra é garantir o funcionamento das instituições democráticas e a sobrevivência da democracia contra o totalitarismo, contra a extrema-direita, contra a barbárie. É isso o que a gente tem que fazer agora. Quem quiser discutir paz, me convide. Quem quiser discutir guerra, não me convide”.

POR TATIANA CARLOTTI

Em seu último dia (28/03) no Brasil, o presidente da França, Emmanuel Macron, reuniu-se com o presidente Lula no Palácio do Planalto, em Brasília, onde assinaram acordos e realinharam o plano de ações conjuntas no escopo de uma parceria desde 2006. Entre elogios rasgados “a França ama e acredita no Brasil”, devidamente retribuídos, o presidente francês agradeceu ao colega brasileiro pelo modo como seu governo vem restaurando a normalidade democrática. “Ninguém está a salvo das forças de sistemas que estremeçam a democracia. A força democrática do Brasil venceu e retomou todos os equilíbrios. Quero agradecer pelo combate e resistência, bem como pela forma como restaurou a democracia no Brasil”, disse Macron.

Após a assinatura dos tratados, eles participaram de uma coletiva de imprensa onde comentaram dois temas divergentes nas relações Brasil e França: a Guerra da Ucrânia e o acordo entre Mercosul e EU, além das eleições na Venezuela (confira a íntegra aqui). Ao responder o questionamento do jornalista do Libération sobre a postura do Brasil em relação à Guerra da Ucrânia, Lula foi didático:

“Eu sou presidente de um país que vive em uma zona de paz, mas que tem que lutar muito contra a desigualdade racial, desigualdade de gênero, desigualdade na saúde, desigualdade na educação, desigualdade no salário, desigualdade no emprego. É tanta desigualdade que eu não tenho tempo de pensar em outra guerra a não ser na guerra de construir algo mais positivo para os 203 milhões de brasileiros que moram aqui. Em 2003, quando o Bush me convidou para ir para aí participar da Guerra do Iraque, o argumento era de que se o Brasil participasse da guerra, a gente ajudaria na reconstrução do país [depois da guerra]. Na verdade, era um convite para construir o que eu teria destruído. Ficava muito mais barato para a humanidade não destruir, se já estava construído”.

“Eu tenho muitas guerras neste país, muitas guerras. Uma delas é a verdadeira guerra para garantir o funcionamento das instituições democráticas e a sobrevivência da democracia contra o totalitarismo, contra a extrema-direita, contra a barbárie. É isso o que a gente tem agora que fazer. Por isso eu sou um pacifista nacional e um pacifista internacional. Quem quiser discutir paz, me convide. Quem quiser discutir guerra, não me convide”, complementou Lula.

Acordos bilaterais

Macron chegou ao Brasil. em Belém, na última terça-feira e participou de vários eventos, incluindo a condecoração do cacique Raoni Metuktire com a Legião de Honra da França e o lançamento do submarino Toneleiro, resultado da parceria entre Brasil e França no Programa de Desenvolvimento de Submarinos. Ele também participou do Fórum Econômico Brasil-França, onde criticou o acordo entre o Mercosul e a União Europeia, chamando-o de “muito ruim” e apelando por um novo acordo que leve em conta questões ambientais. “Prefiro bater o pé, tal como está negociado hoje é um acordo muito ruim, para vocês e para nós (…) Não há nada que leve em conta o tema da biodiversidade e do clima. Nada! Por isso digo que ele não é bom”, destacou o francês Le Monde. “É um ‘péssimo acordo’ sem fortes compromissos climáticos”, frisou The Guardian.

Macron teve uma agenda cheia no país. Na quarta-feira, com Lula e Janja, ele participou do lançamento do terceiro submarino, de uma série de quatro Scorpènes, previstos no âmbito da parceria assinada em 2008. O último submarino, o Angostura, será lançado em 2025. O acordo também permite ao Brasil projetar e construir seu primeiro submarino de ataque nuclear. Le Monde cobriu o tema, destacando que Brasília busca convencer Paris a aumentar suas transferências de tecnologia para ajudá-la a integrar o reator nuclear ao submarino e a vender-lhe equipamentos ligados à propulsão nuclear (turbina, gerador). A empresa francesa Naval Group tem auxiliado no projeto, mas a França tem sido cautelosa em fornecer tecnologia de propulsão nuclear devido a preocupações com a não-proliferação, informa a agência russa RT, também na cobertura da matéria.

Entre os acordos firmados constam a venda de 50 helicópteros Caracal e assinatura de um contrato de 6,7 bilhões de euros para o Brasil desenvolver suas capacidades submarinas e a sua indústria. Outro destaque é agenda ambiental, trazida pelo Le Monde; e a aposta de Macron no Sul Global analisada por Le Figaro, para quem França e Brasil aproveitaram a viagem de Macron para alinhar pontos em comum que deverão perseguir juntos durante o G20 no Rio, em novembro próximo. No L´Humanité, vale prestigiar a reportagem sobre a condecoração do cacique Raoni Metuktire, símbolo das lutas dos povos indígenas pela proteção do meio ambiente, que recebeu de Macron a ordem do cavaleiro da Legião de Honra da França, principal honraria concedida por aquele país a estrangeiros que se destacam no cenário global.

Veja Também:  Em cerimônia com Lula, comandante do Exército defende a democracia

Além dos jornais franceses, a visita de Macron foi notícia no argentino La Nacion (“Macron y Lula se muestran como mejores amigos y anuncian planes para la Amazonia y un submarino nuclear”), Político (“Macron encanta Lula com submarinos”), “Agencia Estrageia.la (“Amazônia: Lula abriu as portas para Macron”), Clarín (“No Brasil, Emmanuel Macron enterra o acordo entre a UE e o Mercosul: “É muito mau e temos de construir um novo”), Pagina 12 (“Lula e Macron inauguraram submarino construído no Brasil com tecnologia francesa”), na cubana Prensa Latina entre outros.

MAIS EMPREGOS

O Brasil gerou mais de 300 mil empregos formais líquidos em fevereiro. A boa nova divulgada pela cubana Prensa Latina traz os dados do Ministério do Trabalho que revelam uma forte expansão do mercado de trabalho em relação a janeiro, com a criação de 306.111 empregos formais líquidos. O número representa 137.608 novos empregos a mais em relação ao mês anterior, quando foram criadas 168.503 vagas. Segundo o texto, “com os números registrados em janeiro e fevereiro, o Brasil acumula quase meio milhão de novas vagas formais de emprego e chega a um saldo de 474.614 empregos gerados. Os indicadores foram positivos nos cinco grandes grupos de atividades econômicas: serviços, indústria, comércio, agricultura e construção. São Paulo liderou com a criação de 101.163 novos cargos formais, em destaque o setor de serviços que abriu 67.750 vagas”.

60 ANOS DO GOLPE

“No Brasil, Lula proíbe qualquer comemoração oficial dos 60 anos do golpe militar”, afirma reportagem de Bruno Meyerfeld no Le Monde, destacando o desapontamento das organizações que trabalham com a memória dos crimes cometidos pela ditadura, com a postura do governo federal. Na Agência Nodal dois artigos sobre a ditadura brasileira: Larissa Ramina aborda as consequências da impunidade que persiste há 60 anos no país. No mesmo Nodal, Jean Marc Von Der Weid questiona “Lula e os militares – concessões necessárias ou erros estratégicos?”

RUSSOS NO MAR

Embarcações com mais de 3,2 milhões de barris de diesel russo estão definhando nas águas brasileiras, informa a Bloomberg, com dados da Kpler. “A razão e quantos navios estão à espera permanecem desconhecidos, mas o excedente sublinha os crescentes estrangulamentos no fornecimento de energia russo, no meio da escalada de sanções dos EUA e do Reino Unido, desde a invasão da Ucrânia pela Rússia”, afirma a reportagem.

CASO DE POLÍCIA

Na última segunda-feira, o norte-americano The New York Times revelou que Jair Bolsonaro permaneceu dois dias na embaixada da Hungria, dias após ter o seu passaporte confiscado pela Polícia Federal para investigação da intentona golpista de 8 de janeiro. Frente à denúncia, o ministro Alexandre de Moraes deu 48 horas ao ex-presidente para se explicar. A defesa do ex-presidente alega que “(Bolsonaro) sempre manteve estreita interação com as autoridades daquele país, tratando de questões estratégicas de política internacional de interesse do setor conservador”. Segundo o direito internacional, aponta Prensa Latina, o terreno de uma embaixada é a soberania do país representado. Por esta razão, quaisquer agentes brasileiros só poderiam chegar a Bolsonaro [se ele permanecesse no local] com autorização do Governo húngaro, detalha a reportagem.

O jornal mexicano Jornada destaca que o Tribunal do Distrito Federal do Brasil acusou Jair Renan Bolsonaro pelos crimes de “lavagem de capitais, falsificação de identidade e utilização de documentos falsos”. A defesa de Renan alega que ele “foi vítima de um golpe armado por uma pessoa, que só posteriormente foi conhecida pela polícia e pela Justiça”. Segundo tese da Polícia Federal, o filho de Bolsonaro falsificou as relações de faturamento da empresa RB Eventos e Mídia para conseguir um empréstimo de R$ 157 mil em 2022 e de R$ 251 mil e R$ 291 mil em 2023.

GEOPARQUE NO BRASIL

O Conselho Executivo da UNESCO aprovou a criação de 18 novos Geoparques Mundiais e nessa lista um será na América Latina, na brasileira Uberaba. Locais como este servem às comunidades locais, combinando a conservação do seu patrimônio único com a divulgação pública e o desenvolvimento sustentável. Confira a reportagem da Prensa Latina.

Foto em destaque:
Fábio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil