A luta da esquerda: Portugal, Itália, Espanha

A luta da esquerda: Portugal, Itália, Espanha

Além da fragmentação, os movimentos de esquerda espanhóis enfrentam alguns desafios, entre os quais a perceptível mudança de valores na sociedade, que se torna mais secularizada e individualista, o que dificulta a predominância dos valores de esquerda, baseados na igualdade e na solidariedade.

Depois da Segunda Guerra Mundial, com a completa derrota do nazifascismo, os movimentos de esquerda, principalmente os partidos comunistas, tiveram importante papel na política de quase todos os países europeus. Eles vinham do combate à extrema direita liderando as ações clandestinas de resistência, perseguidos e assassinados como terroristas pelos governos colaboracionistas ou aqueles ocupados diretamente pelos gauleiter nazistas. Os diversos movimentos de esquerda existentes hoje na Europa tiveram sua matriz naqueles partidos e numa tradição que vem desde a Revolução Russa e suas dissidências.

Em “Inquérito a um cidadão acima de qualquer suspeita” (Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto), filme italiano de Elio Petri de 1970, um inspetor de polícia interpretado por Gian Maria Volonté diz a um colega sobre alguns manifestantes de esquerda que acabavam de entrar na prisão: “espera que dentro em pouco eles estarão brigando entre si”. Trata-se de uma ironia do diretor quanto às inevitáveis dissidências nos movimentos de esquerda. A direita preserva sempre uma só estratégia de ação, enquanto as esquerdas, em permanente debate, discutem, dividem-se e querem implementar propostas diversas. Por essa razão é tão difícil uma união das esquerdas, a não ser em momentos de grave tensão política diante de forte ameaça da direita.

A Europa de hoje continua sendo palco da luta entre a esquerda e a direita políticas. Marc Lazar, historiador francês, diz que ambas têm sofrido derrotas eleitorais, pois a opinião pública tem mais se preocupado com temas como separatismo, autonomismo, migração e populismo. Na França, 62 por cento da população declara que considera a imigração como algo negativo e 68 por cento veem o Islã com grande inquietação.

O populismo de direita explora as inseguranças e dúvidas dos eleitores, mas há também um populismo regionalista e independentista que se manifesta, por exemplo, no caso dos catalães; da Liga italiana e do movimento flamengo, na região de Flandres, na Bélgica, que é independentista e também de direita.

A resistência de esquerda posiciona-se principalmente como oposição ao fortalecimento da direita e da extrema direita diante dos problemas enfrentados pela social-democracia. Critica a falta de empregos, a ausência de políticas que combatam a pobreza de 25 por cento da população da Europa e a falta de combate efetivo às ameaças que representam as alterações climáticas. Crescem também as preocupações diante da aparente desagregação da União Europeia.

Vale como exemplo o que acontece em Portugal, na Itália e na Espanha.

Portugal

Uma frente de esquerda liderada pelo Partido Socialista em coligação com o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português resgatou o país da política de austeridade que lhe vinha sendo imposta pela chamada troika, como foi apelidada a missão conjunta da Comissão Europeia, do Banco Central Europeu (BCE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI) que interveio no país após a crise financeira de 2008. Chamou-se o acordo político de “Geringonça”, nome pejorativo atribuído pela oposição de direita e que acabou adotado pelo próprio governo. Os socialistas foram reeleitos, fortalecidos pelo sucesso da coligação que haviam liderado, conseguiram maioria absoluta no parlamento e a Geringonça foi desfeita. A mais combativa das forças de esquerda é o Bloco de Esquerda, formado pela União Democrática Popular, Partido Socialista Revolucionário e Política XXI e que foi fundado em março de 1999. Sua jovem líder e porta-voz, eleita este ano depois do revés do seu partido nas últimas eleições, é Mariana Mortágua, de 37 anos, filha do histórico líder comunista Camilo Mortágua. O BE representa hoje a quarta força política de Portugal. Suas prioridades programáticas imediatas são recuperação de salários e pensões, fortalecimento dos serviços públicos, investimento público para responder à crise da habitação e à emergência climática.

O histórico Partido Comunista Português liga-se ao Partido Ecologista Os Verdes na CDU-Coligação Democrática Unitária e é um dos partidos mais antigos e ideologicamente estáveis do país. Conta com dez deputados no parlamento, o que faz dele a terceira força política de Portugal. Defende de imediato um programa que luta por aumento geral de salários, aumento geral de pensões e aposentadorias e creche gratuita para todas as crianças até três anos de idade. Renovou no ano passado a sua liderança ao eleger para o cargo de secretário geral Paulo Raimundo, de 47 anos, antigo militante e funcionário do partido, para substituir Jerônimo de Souza, que se afastou por motivo de saúde.

Itália

Depois da Segunda Guerra o Partido Comunista Italiano emergiu como uma grande força política e dividiu a arena política nacional com os democratas cristãos. Teve o filósofo Antônio Gramsci como um dos seus fundadores, em 1921. Deu grande contribuição à luta antifascista italiana. Em 1948 renunciou à tomada violenta do poder e em 1956 passou a adotar a via parlamentar.

Nos anos 1970 afastou-se da influência soviética e, sob a liderança de Enrico Berlinguer, ensaiou uma coalisão com a democracia cristã que não se realizou diante do trauma nacional que foi o assassinato de Aldo Moro pelas Brigadas Vermelhas. O PCI dissolveu-se em 1991, transformou-se no PDS, depois DS, Democratas de Esquerda. Deu-se a cisão e a ala mais à esquerda dividiu-se em Partido da Refundação Comunista (PRC) e no Partido dos Comunistas Italianos (PdCI).

Em 2000, um relatório do parlamento italiano assegura que a morte de Moro teve a participação dos Estados Unidos, via infiltrados da CIA nas Brigadas Vermelhas. O objetivo era impedir que o PCI chegasse ao poder pela coligação com a democracia cristã de Aldo Moro.

O Partido Comunista italiano (PCI) está hoje em uma situação de declínio. Nas eleições legislativas de 2023, o partido obteve apenas 5,4% dos votos, o seu pior resultado desde 1946. O PCI é atualmente o quarto maior partido da Itália, atrás do Partido Democrático, do populista Movimento Cinco Estrelas (M5S) (PD) e do neofascista Fratelli d’Italia.

A fragmentação da esquerda italiana é um dos principais fatores que contribuem para o declínio do PCI. O país tem atualmente uma grande variedade de partidos de esquerda, incluindo o PD, que reúne várias ideologias, o M5S, o Partido Socialista Italiano (PSI), o Partido da Refundação Comunista (PRC) e o Partido Comunista dos Trabalhadores Italianos (PCdI). Esta fragmentação dificulta que a esquerda italiana se apresente como uma força única e coerente.

Espanha

Com uma tradição de resistência que vem desde a Guerra Civil e das perseguições do regime franquista, a esquerda espanhola encontra-se hoje reunida no movimento Izquierda Unida. Constituído por seis diferentes partidos, o IU tem se apresentado em coligação com o Podemos, formando o Unidos Podemos. Tem contado com 10 por cento dos votos de um eleitorado dividido e muitas vezes indeciso.

Na Catalunha, a Esquerra Unida i Alternativa foi fundada em 1998 e se declara um movimento político e social nacional, catalão e republicano, anticapitalista e solidário. Está na luta contra o crescimento da extrema direita cuja face mais visível é o Vox.

Além da fragmentação, os movimentos de esquerda espanhóis enfrentam alguns desafios, entre os quais a perceptível mudança de valores na sociedade espanhola, que se torna mais secularizada e individualista, o que dificulta a predominância dos valores de esquerda, baseados na igualdade e na solidariedade. O partido de extrema-direita Vox é atualmente o terceiro maior partido na Espanha. O crescimento da extrema-direita tem atraído eleitores de esquerda.

*Imagem em destaque: Reprodução/bloco.org

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