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A tragédia que o neoliberalismo escreveu

A tragédia que o neoliberalismo escreveu

Durante os anos da troika, que duraram até 2014, Portugal viveu a maior recessão desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Aumento do desemprego para 25 por cento da população ativa, cortes nos serviços de saúde, pensões e salários, nos serviços públicos, na ciência e na cultura. A emigração forçada voltou a assustar. Cem mil pessoas por ano abandonaram o país.

Numa manhã de primavera, nos primeiros dias do mês de abril, um aposentado que tinha sido comerciante, de 77 anos, saltou do metrô na estação próxima do Parlamento. Dirigiu-se ao centro da Praça Sintagma, que fica em frente ao belo edifício que já foi o Palácio Real, olhou em volta e deu um tiro na cabeça. Foi em Atenas, na Grécia, no ano de 2012. Ele deixou um bilhete escrito à mão em que dizia: “como não posso encontrar justiça, não encontro outro modo de reagir que não seja o de pôr um fim decente a minha vida, antes de ter de começar a revirar o lixo para encontrar comida”.

Alguns meses antes o governo, seguindo o plano de austeridade decretado pelo Fundo Monetário Internacional junto com o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia, a denominada “troika”, havia feito um violento corte nos salários e nas pensões dos aposentados. Houve também um brutal aumento dos impostos. Naquele ano houve 500 suicídios na Grécia atribuídos ao arrocho econômico a que o país foi submetido e à depressão emocional que a falta de dinheiro provocou nas pessoas.

Troika é a palavra russa que significa triunvirato na raiz latina. A mais famosa de todas as troikas soviéticas foi a formada por Georgi Malenkov, Lavrentiy Beria e Vyacheslav Molotov, que governou o país brevemente após a morte de Stalin em 1953. Na Europa, foi o termo escolhido para definir a ditadura das organizações financeiras que, ignorando as consequências humanas e sociais, impôs medidas ditas “de austeridade” que levaram muitos à pobreza, ao desespero e também ao suicídio. Esse tipo de austeridade era a exigência da troika para emprestar dinheiro aos países mais afetados pela crise financeira global.

Além da Grécia, submeteram-se ao duro regime imposto pela troika também a Irlanda, Chipre, Espanha e Portugal.

Alinhamento

Em Portugal ficou a má lembrança dos anos em que os portugueses se submeteram às imposições da troika. Foi nesse tempo, ainda muito recente, que Portugal viu aumentar o desemprego além de cortes em pensões, salários e subsídios. Foi exigida também a privatização de empresas estatais e o abandono de grandes projetos do governo, como o do TGV. Portugal recebeu um empréstimo de 78 bilhões de euros e foi imediatamente vendida a empresa de energia elétrica, a EDP, a capitais chineses, árabes e franceses.

O povo foi às ruas, indignado.

Durante todo o tempo em que durou, o programa de austeridade sofreu a oposição do Partido Comunista Português, do Bloco de Esquerda e do PEV, o Partido Ecologista “Os Verdes”. Foram os partidos que não se convenceram do alinhamento do país aos mercados, a principal motivação do programa da troika.

A recessão

Durante os anos da troika, que duraram até 2014, Portugal viveu a maior recessão desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Aumento do desemprego para 25 por cento da população ativa, cortes nos serviços de saúde, pensões e salários, nos serviços públicos, na ciência e na cultura. A emigração forçada voltou a assustar. Cem mil pessoas por ano abandonaram o país. Dizem os portugueses que a troika não resolveu, mas agravou todos os problemas nacionais. Só em 2018, sob o governo socialista e com o abandono das políticas de austeridade, é que Portugal começou a se recuperar, apesar do novo baque sofrido com a chegada da pandemia do coronavírus.

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A Espanha recebeu um empréstimo de 100 bilhões de euros que teve de canalizar para os bancos. Eles estavam sob ameaça de quebrarem e foram feitas fusões e reestruturação de dívidas.

A Irlanda viu crescer o desemprego e conheceu uma aguda crise social com o empobrecimento coletivo, da mesma forma como aconteceu em todos os países que sofreram intervenção da troika. A crise econômica terá tido como uma das causas o grande endividamento das famílias provocado pelo incentivo dos bancos, empenhados em conseguirem cada vez mais devedores facilitando o financiamento na compra de imóveis e do consumo.

A conclusão é que o objetivo imediato dos programas impostos pelo Fundo Monetário Internacional em parceria com o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia foi o de salvar os bancos e adaptar as economias à filosofia do neoliberalismo econômico. O que os tecnocratas chamam de flexibilização do mercado laboral significa a retirada de direitos dos trabalhadores. E as privatizações levam o Estado a perder capacidade de investir recursos nos programas sociais em benefício daqueles mesmos trabalhadores.

Havia pouco conhecimento da realidade econômica de cada país e da extensão da crise em cada um deles. As medidas adotadas, no entanto, foram semelhantes.

O que houve, na opinião dos economistas que se posicionam contrários às políticas de austeridade, foi uma forte transferência de rendimentos do trabalho em benefício do capital, que recebeu tratamento privilegiado. Os mais prejudicados foram as classes trabalhadoras e os mais pobres. O capital, ao contrário, assumiu uma posição estratégica superior à que ocupava antes das intervenções da troika.

Por trás de tudo, há um poderoso embuste ideológico sobre a origem dos problemas dos países que foram vítimas das medidas draconianas chamadas programas de austeridade.

*Imagem em destaque: Movimento que se lixe a troika (Reprodução/Facebook)

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