Milícias e Violência no Rio de Janeiro

Milícias e Violência no Rio de Janeiro

Se o Governo Federal enviar a Força Nacional ou o Exército para intervenção no Rio, será no mínimo “um passo em falso”, como adverte Luiz Eduardo Soares, especialista em segurança pública.

Na segunda-feira, 23/10, no Rio de Janeiro, foram queimados 35 ônibus e um trem, em represália à morte de um miliciano. Foi o maior ataque já feito ao transporte público no Rio.

Se o Brasil não é para principiantes, o Rio é para especialistas, o que não é o meu caso. Mas, como morador da cidade e leitor assíduo de notícias, tanto as publicadas na imprensa quanto as que se encontram apenas em relatórios de pesquisadores, posso dizer que tenho muitas dúvidas e algumas poucas certezas.

1 – Para começar, o Governador do RJ foi eleito com o apoio dos milicianos que mostraram força e conseguiram presença até no primeiro escalão do atual governo federal, não apenas no Governo passado. Como se sabe, a Ministra do Turismo antes nomeada é esposa do Prefeito de Belfort Roxo, ligado às milícias. E foi substituída por necessidade de apoio parlamentar do Centrão na Câmara dos Deputados.

2 – O ponto de partida é simples: as milícias controlam a votação em diversos municípios mediante ameaças e o terror. Eles já controlam e exigem pagamento de taxas por diversos serviços essenciais: gás, comida, transporte, TV, nomeiam Secretários para as Prefeituras, controlam nomeações para escolas, hospitais etc.

3 – Para conseguir votos, o atual Governador fez acordos com as milícias. E, quando a Polícia combate milicianos ou traficantes em uma área, é porque milicianos ou traficantes rivais pagaram a Polícia para fazer isso. As relações entre as diversas facções do tráfico e das milícias não é estável. Aliados hoje, inimigos amanhã.

4 – As milícias foram criadas por policiais, bombeiros e militares que, na base, se misturam, o que torna complexo saber o que é legal ou ilegal na atuação das polícias, militar e civil. No Rio de Janeiro, e não só, as fronteiras entre o legal e o ilegal foram diluídas. Vejam essa notícia estampada no jornal O Globo, de 24/10/2023: “Milícia responsável por caos no Rio foi fundada por policiais, expandiu-se pelo estado na última década e vive crise interna após morte de ex-chefe”.

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5 – Durante a intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro em 2018, o general interventor Braga Netto atacou os traficantes nas favelas, mas poupou os milicianos que continuaram se expandindo. Afinal, o chefe político dos milicianos era o então candidato Bolsonaro que várias vezes manifestou apoio público aos chefes de milícias. Hoje, as milícias controlam mais de 50% da cidade e são grandes eleitores de Prefeitos e do Governador.

6 – Se o Governo Federal enviar a Força Nacional ou o Exército para intervenção no Rio, será no mínimo “um passo em falso”, como adverte Luiz Eduardo Soares, especialista em segurança pública. O Governo Lula passaria a ser cúmplice dos ataques policiais assassinos nas áreas vulneráveis da cidade, vitimando principalmente pobres e negros, como vem acontecendo.

7 – O Governador Cláudio Castro tentou ressuscitar a fracassada política de “criação do inimigo público número 1”, que “substitui a necessidade de elaborar um plano de combate ao crime organizado” (O Globo, 24/10/2023. Trata-se de uma empulhação, na linha da tradicional política do “Me engana, que eu gosto”.

8 – Não tenho receitas para resolver o problema. Mas o fracasso evidente na política de segurança pública, não só do Governo Estadual, mas também do Governo Federal, vai provavelmente jogar água no moinho da extrema direita.

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