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A depressão e o amor segundo Kaurismaki

A depressão e o amor segundo Kaurismaki

O ativista político finlandês Aki Kaurismaki é um dos mais brilhantes mestres da sua geração cinematográfica. Aos 66 anos de idade, o cineasta é autor de vinte filmes austeros e enxutos que chegam de Helsinque. Aquele que está em cartaz agora, fazendo justo sucesso no streaming* e nas bilheterias dos cinemas é Folhas de Outono (Kuolleet Lehdet), uma produção recente, Prêmio do Júri do Festival de Cannes de 2023, e surpreendente primeiro lugar entre as melhores produções do ano passado da relação anual da revista conservadora norte-americana Time.

O filme é candidato da Finlândia ao Oscar de Melhor Filme Internacional e o vencedor será anunciado durante a festa do próximo dia 10 de março.

 O cenário de Folhas de Outono é o da depressão, da melancolia e da tristeza dos indivíduos nas sociedades hiper capitalistas e super industrializadas; cenário do alcoolismo, um problema de saúde coletivo e que se perpetua nas populações de classe média; do trabalho precário e da vida solitária de homens e mulheres avulsos e sem família que deambulam pelas ruas das cidades, praças e parques, pelos cafés e pelas madrugadas dos bares com sonolentos karaokês.

Mas Kaurismaki trata do assunto com ironia, com um inesperado humor de fina comédia, usa várias pontas de cinismo e uma aguda delicadeza quando introduz nesse coquetel insólito, com habilidade e arte, a erupção de um amor inesperado entre duas pessoas solitárias, uma afeição límpida e honesta e, em especial, do reconhecimento no outro do seu próprio jeito de ser, de agir e de pensar.

Fallen Leaves, título do filme para o mercado internacional, é um fio de história conduzida por dois excelentes atores atuando quase monossilábicos, Jussi Vatanen e Alma Pöysti, que vão fundo nos malabarismos da expressão dramática. Passam para o espectador a sensibilidade à flor da pele de Holappa e Ansa, personagens criados no roteiro do cineasta e recém-chegados a uma galeria de tipos introvertidos de outros filmes do diretor.

O plot é singelo e conduzido pelo som de trilha musical romântica e nostálgica, com Schubert de contraponto indo e vindo, e com frequentes interferências de um noticiário radiofônico sombrio descrevendo em detalhes a guerra na Ucrânia. Aliás, um conflito seguido com particular interesse e motivo de temor da população finlandesa motivado pela entrada do país no grupo da OTAN, ano passado, na mesma época em que o filme estava sendo rodado.

Em Flores de Outono – ou Flores Caídas, como o título do filme foi traduzido em Portugal ao pé da letra –, uma mulher e um homem são operários em um mercado de trabalho precário. Ela, eventualmente é garçonete ou operária em construção civil (trabalho físico pesado) ou lava louças em restaurantes ou é contratada para recolher produtos que passam de validade das prateleiras dos supermercados. Nessa última ocupação Ansa entra na narrativa e já oferece a medida do desolado cenário geral, ao ser despedida (sem qualquer garantia de legislação trabalhista) porque está levando para casa, dentro da bolsa, um pequeno pão com prazo de venda vencido que deveria ter sido jogado no lixo por ela.

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O homem, Holappa, alcoólatra inofensivo e silencioso, também faz parte de um exército de trabalhadores precarizados que à custa de uma pequena garrafa com álcool sempre oculta no uniforme de trabalho consegue cumprir as duras tarefas de operários braçais. Os patrões são sempre boçais, como com frequência ocorre no cinema de Kaurismaki.

Uma amostra do humor finlandês, no diálogo de Holappa com um amigo que pergunta: “Por que você está deprimido?”, “Porque bebo demais”. E o amigo retruca: “E bebe por quê?”, “Porque estou deprimido”, responde Hollapa, fechando o que chama de “raciocino circular.

Nas paredes dos ambientes, cinemas, bares, há sempre um cartaz emoldurado chamando a atenção para preciosas obras primas da arte do cinema: Rocco e seus irmãos, Band à Parte, de Godard, o Robert Bresson de Diário de um Pároco de Aldeia. É um manifesto e declarações de Kaurismaki apontando seus ícones e sua ideologia política socialista iluminando, com o cinema, o mundo dos oprimidos, dos solitários, dos explorados e dos exploradores. Como fez Chaplin, o ícone do cineasta de Helsinque.

Em paralelo à exibição de Folhas de Outono nas telonas, a plataforma Mubi está com uma série de obras de Kaurismaki com início em uma Trilogia dos Perdedores, com retratos de personagens oprimidos que trabalham sob as ordens de chefes gananciosos e banqueiros obstinados. Os filmes dessa trilogia são Nuvens Passageiras, de 1996, Homem Sem Passado, de 2002 e Luzes na Escuridão, de 2006. Recomendamos vivamente.

Lembramos que as cores (são importantes, poéticas) e o humor do cineasta dão sentido a horizontes que de outro modo seriam definitivamente sombrios. É o que ele inclusive diz na última sequência desse Folhas de Outono, que talvez seja o seu último trabalho, conforme especulam no seu país. Uma imagem de reconstrução, de resistência e de amor à arte do cinema que reforça o que Kausmaki costuma repetir em entrevistas: As pessoas felizes e a classe média eu deixo para as telenovelas”.

*Disponível nos cinemas e nas plataformas Mubi e Amazon Prime Video

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