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Mosul e o suplício das populações

Mosul e o suplício das populações

Em outubro de 2016, Mossul (ou Mosul, em inglês), a histórica e segunda maior cidade do Iraque, viveu uma das batalhas urbanas mais violentas desde a Segunda Guerra Mundial. Assim como ocorre hoje com a covarde tentativa de destruição da Faixa de Gaza, uma feroz guerra urbana devastou a cidade e a população que a habitava, à beira do Rio Tigre.

A violenta batalha na antiga Nínive, como a cidade é citada na Bíblia, durou quase um ano com o embate das forças policiais iraquianas de elite da Swat tentando expulsar o grupo do Isis, Estado Islâmico ou Daesh, organização jihadista islamita de orientação salafita e wahabita criada após a invasão do país pelos Estados Unidos, em 2003.

O grupo tentava dominar o Iraque com ações praticadas no cenário geral da caótica guerra civil em que o país mergulhou a partir da invasão iniciada com o bombardeio de Bagdá, vinte anos atrás.

Embora sem contexto histórico ou geopolítico, o filme de Matthew Michael Carnahan, Mosul*, que pretende ser uma homenagem a essa batalha nas ruas da cidade próxima de ricos poços de petróleo iraquiano, entrou no catálogo do streaming e vem sendo ‘descoberto’ pela mídia, pela crítica e pelas grandes plateias.

Falado em árabe e com legendas em diversos idiomas, o filme carrega uma força extraordinária se detendo num ritmo avassalador, e com rigor, nos asfixiantes e cruentos episódios, utilizando quase sempre planos americanos, closes e grandes closes que empurram o espectador para dentro das brutais ações através das ruínas da cidade devastada.

São ações que foram relatadas em famoso texto publicado na revista New Yorker, The desperate battle to destroy ISIS, de Luke Mogelson, o artigo que inspirou a produção desse filme.

Um expressivo ator iraquiano, de Bagdá, Suhail Dabbach, de 58 anos, interpreta o protagonista, o major Jasem, líder do grupo da Swat composto por sunitas, xiitas, cristãos e curdos que se uniram e só aceitavam como novos soldados os homens que já tinham sido feridos ou que perderam alguém da família nas mãos do Estado Islâmico.

Em recente entrevista, Dabbach relatou que ao postar em suas redes sociais que Mosul estava para ser lançado, começou a receber ameaças do Isis.

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A sinopse do filme é esta: após uma ação de uma prisão policial ter fracassado, o jovem Kawa e seu parceiro são resgatados por uma equipe da Swat liderada pelo major Jasem e se juntam ao grupo para cumprir uma missão.

Embora Kawa seja a testemunha dos violentos fatos que se seguem, o trágico protagonista da história é, como ocorre hoje na Faixa de Gaza, a população local da qual foi usurpada sua rotina cotidiana e sua vida em paz, e as crianças, os idosos e as mulheres especialmente expostos aos tiroteios que eram iniciados a todo instante, em qualquer rua, bairro, feira, mercado, em qualquer local da pobre – mas rica – Mosul.

Em um dos episódios mais pungentes, o comboio dos soldados que se detém a certa altura, a mando do major Jasem, que quer saber para onde estão indo as duas crianças feridas, dois irmãos que se arrastam pela estrada conduzindo em uma carroça o corpo coberto da mãe morta.

Em outras passagens, a ênfase em um dos princípios do ISIS: não deixar para trás feridos.

Outra peculiaridade de Mosul é que é filme realizado a partir do ponto de vista árabe, e não de uma perspectiva ocidental do cinema americano, embora seja produção de plataforma californiana. Por exemplo, os intervalos com rezas filmadas entre uma e outra batalha durante as quais os soldados param de lutar para fazer suas orações. Ou o encontro final desconcertante do soldado com a família e com a mulher grávida.

O mais relevante, no caso do filme Mosul, é nos fazer refletir, mais uma vez, no desastre irreparável vivido pelas populações das cidades e das regiões onde foram e ainda são travadas as ‘guerras eternas’ americanas, durante as últimas décadas, ao redor do mundo.

Até hoje, cinco anos depois, a população de Mossul procura realizar, lentamente, o retorno a uma existência empaz. O processo de reconstrução dessa cidade que foi a capital cultural iraquiana, está longe de estar concluído. Mas o seu petróleo continua lá, instigando a cobiça ocidental.

Assista ao trailer:

*Disponível na Netflix

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