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Um mal incurável chamado esperança

Um mal incurável chamado esperança

“Na última noite nesta terra, arrancamos os dias/das pequenas árvores, e contamos as costelas que levaremos junto/e aquelas que deixaremos aqui, na última noite/não diremos adeus, não teremos tempo para acabar/Tudo ficará como está, já que o lugar trocará os nossos sonhos/e trocará os nossos hóspedes”.

Mahmoud Darwish

Perpassando e sobrepondo-se ao estrondo e ao estrago letal das bombas de Israel e dos sobrevoos dos aviões assassinos de bebês e de crianças que massacram a infeliz população do gueto de Gaza, na Palestina ocupada, há uma voz de resistência que não se cala e atravessa o silêncio, a hipocrisia e a indiferença dos povos.

A voz vem da Palestina e diz: Sofremos de um mal incurável chamado esperança.

Esta frase nomeia o texto que Mahmoud Darwish leu, numa noite de 2002, num teatro superlotado da cidade de Ramallah, na Cisjordânia, para uma plateia comovida às lágrimas. Nas primeiras filas, um grupo de nove autores americanos, europeus e um africano, do Parlamento Internacional de Escritores – José Saramago (que na ocasião comparou Gaza a Auschwitz) e Russel Banks entre eles – em visita ao grande poeta palestino traduzido em vinte idiomas e considerado no mundo como uma das vozes mais belas da poesia do seu país. O teatro de Ramallah onde Mahmoud leu sua poesia, poucos dias depois foi arrasado por tanques israelenses.

Na ocasião, sendo um prisioneiro político a céu aberto na Cisjordânia, Darwish não obtivera autorização do governo de Israel para viajar aos Estados Unidos e encontrar os colegas durante um congresso. Mas a expedição de seus companheiros que fora ao seu encontro ganhou o mundo através da edição de um livro, Viagem à Palestina (Ediouro/2004) incluindo belo texto de Jacques Derrida, que não pôde efetuar a viagem, e do documentário Écrivains des frontières, de Samir Abdallah e José Reynès, exibido em Paris.

A poesia de Mahmoud Darwish é de resistência e de combate assim como a de outro poeta nacional, Tawfic Zayyad, autor de O cantar dos que não se rendem e de Não iremos embora,ondealerta:

Aqui/Sobre vossos peitos/Persistimos/Aqui/Sobre vossos peitos
Persistimos/Como uma muralha/Em vossas goelas/Como cacos de vidro/Imperturbáveis/E em vossos olhos/
Como uma tempestade de fogo (…)

Um dia, Zayyad comentou: “A democracia israelense não suporta que os palestinos cantem”.

Pois a poesia de ambos continua cantando; não silencia e sobe no céu azul e quente de verão escaldante dos bombardeios apesar das explosões e dos tanques que matam garotos palestinos brincando na praia de Gaza. A mesma que no passado, antes de 48, era um jardim à beira do Mediterrâneo. Hoje, seria uma concorrida praia de turismo internacional.

A poesia de Mohamoud e de Zayyad vem do povo e a ele retorna – e daí ela extrai a sua força. Nos seus primeiros versos, Darwish expressou claramente isso: “Se os mais humildes não nos compreendem/será melhor jogar fora os poemas/e ficarmos calados./O poeta diz:/se meus versos são bons para meus amigos/e enfurecem os meus inimigos/então é que sou mesmo poeta”.

Gênero mais popular da literatura palestina, o poema vem da tradição oral daquela cultura. É sempre simples e nele não há artifícios de linguagem em favor da estética. Como observou outro poeta, o egípcio Ahmed Fouad Negm, por ocasião da morte de Darwish, aos 67 anos em decorrência de complicações cardíacas, na poesia do seu amigo se traduz a “dor dos palestinos de forma mágica. Ele nos fazia chorar e nos fazia feliz; mexia com nossas emoções”. Sua obra simboliza como poucas outras a defesa da causa palestina.

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 Ao morrer, Mahmoud recebeu funeral de chefe de estado, uma honraria oferecida quatro anos antes a Arafat. Na ocasião, o presidente Mahmoud Abbas decretou três dias de luto nacional.

“A questão palestina, na poesia dele”, disse o poeta libanês Zehi Wahbi, outro amigo do palestino nascido numa aldeia de sua família e que dela foi expulso, ainda menino, refugiando-se no Líbano e preso diversas vezes no retorno à sua terra, “não é mais uma lenda, mas uma história sobre pessoas feitas de carne, sangue e sentimentos”.

Darwish, autor do texto da simbólica Declaração da Independência Palestina, de 1988, encomendada e lida por Arafat, em um dos seus mais tocantes poemas – Na última noite nesta terra – canta a dor da Nakba, a expulsão de suas terras:

Na última noite nesta terra, arrancamos os dias/das pequenas árvores, e contamos as costelas que levaremos junto/e aquelas que deixaremos aqui, na última noite/não diremos adeus, não teremos tempo para acabar/Tudo ficará como está, já que o lugar trocará os nossos sonhos/e trocará os nossos hóspedes. De uma hora para outra, não saberemos mais brincar/porque o lugar estará pronto para receber a poeira…/Aqui, na última noite, contemplamos as montanhas rodeadas de nuvens (…)

Entrem, senhores conquistadores, entrem nas nossas casas,/bebam do vinho/das nossas doces “muachahat*”./Seremos a noite e, finda a meia-noite,/já não haverá mais auroras levadas em dorso de cavalo, ouvido o último muezim. (…)

Nesta hora de agora, trágica e que envergonha, mas infelizmente apropriada, vejam abaixo alguns dos versos emocionantes do poeta nacional palestino sobre Gaza. Constituem um autêntico teatro poético onde, com frequência, há diálogos embora nunca lamurientos. São tristes, mas firmes. São versos que vêm de alguém da mesma estirpe que denuncia, combate e resiste, de um Edward Said e de um Marwan Barghouti – entre milhares de outros – e da bomba humana demográfica que fugirá sempre ao controle da matança.

Versos que relembram o que escreveu Tawfic Zayyad no passado: Nossos nervos são de gelo/Mas nossos corações vomitam fogo.

A terra nos é estreita, de Mahmoud Darwish

A terra nos é estreita. Ela nos encurrala no último desfiladeiro

E nós nos despimos dos membros

Para passar.

A terra nos espreme. Fôssemos nós o seu trigo para morrer e ressuscitar.

Fosse ela a nossa mãe para se compadecer de nós.

Fôssemos nós as imagens dos rochedos

que o nosso sonho levará como espelhos.

Vimos o rosto de quem, na derradeira defesa da alma,

o último de nós matará. Choramos pela festa dos seus filhos e vimos o rosto

Dos que despenham nossos filhos pela janela deste último espaço.

Espelhos que a nossa estrela polirá.

Para onde irmos após a última fronteira?

Para onde voarão os pássaros após o último céu?

Onde dormirão as plantas após o último vento?

Escreveremos nossos nomes com vapor

carmim, cortaremos a mão do canto para que nossa carne o complete.

Aqui morreremos. No último desfiladeiro.

Aqui ou aqui… plantará oliveiras

Nosso sangue.

(Edições Bibliaspa/2012. A terra nos é estreita e outros poemas. Tradução de Paulo Farah, professor da língua e literatura árabe da USP).

*Músicas do século X da Andaluzia

**Imagem de Mahmoud Darwish no Muro da Cisjordânia, em Belém (Wikimedia Commons)

***Este texto foi publicado originalmente no site Carta Maior em 2014

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