Pureza no país dos escravizados

Pureza no país dos escravizados

Dona Pureza é como se chama a mãe do jovem que saiu de casa para ganhar a vida num garimpo da Amazônia e tentar tirar a família da miséria no interior do Brasil. Pureza é também o título desse brilhante filme brasileiro produzido em 2020, ficção inspirada em fatos concretos que ocorreram nos anos 90, dirigido pelo documentarista Renato Barbieri, 37 anos, de Brasília. O mesmo diretor do doc Cora Coralina, todas as vidas.

É um filme que chega no momento certo, no mesmo pacote de excelentes e necessárias produções nacionais como Marighella, Madalena, Medida provisória, Curral, O pai da Rita e outros tantos filmes documentais que retratam nossa vida de agora.

No Brasil, o trabalho escravizado ainda hoje consentido e fruto da secular tradição escravagista do país onde viceja o baronato de patrões ricos e sem escrúpulos, é uma atividade criminosa praticada até hoje sob diversas formas – no campo e nas cidades. A escravização perdura com a fiscalização frouxa e naturalizada à prática do trabalho análogo à escravidão.

A década de 90 é o cenário de Pureza. Ela é esse personagem protagonista da  grande mãe, Pureza Lopes Loyola, da cidade de Bacabal, no Maranhão, que saiu à procura do filho Abel, desaparecido, e se depara com uma fazenda sustentada e explorada com o trabalho escravagista em  garimpo ilegal do interior da Amazônia.  

Na sua busca, Pureza encontra um sistema de aliciamento e de cárcere de trabalhadores rurais, e denuncia os fatos às autoridades federais. Sem ter credibilidade na sua denúncia  (é mulher modesta e pobre), e lutando contra um sistema adverso, – no filme e na realidade – ela volta ao acampamento da floresta para registrar a situação ilegal com apresentação de provas.

O drama  mescla o gênero documental – ao trabalhar com atores profissionais e com uma das melhores atrizes do nosso cinema atual, Dira Paes, comovente no papel título – e com trabalhadores rurais ex-escravizados.

Todos preparados, juntos, para alcançar a forte interpretação da narrativa aliada à beleza plástica criada pelo diretor de fotografia Felipe Reinheimer que trabalhou em companhia do mestre fotógrafo Affonso Beato.

O roteiro montado em três ‘atos’, de Marcus Ligocki Júnior, é enxuto. A trilha musical do compositor americano Kevin Riepl é convincente e a trajetória do filme Pureza tem sido bem sucedida. Ganhou prêmios em diversos festivais onde foi apresentado (Florianópolis, Vitória, Jaraguá do Sul) e no estrangeiro, em Xangai, Marselha, Washington, La Paz, Seattle, no Festival de Salento e em Newport entre outros.

”Vejo o cinema como uma poderosa ferramenta social. Não abro mão dessa vertente desde quando decidi, há décadas, fazer exclusivamente filmes de relevância social, ambiental e cultural”, diz o diretor e produtor Barbieri, que vem da Faculdade de Psicologia da USP e é autor também do filme Cora Coralina, todas as vidas.

O que causa impressão e imprime energia especial a esse filme de Barbieri é a austeridade das suas imagens e a limpeza da linguagem com que procede, em primeiro lugar, durante o prólogo, quase sem diálogos e sem adjetivos. Em seguida, durante o desenvolvimento do roteiro, iluminado no limite de um lusco-fusco crepuscular que nos faz descer às profundezas de um inferno construído por criminosos, proprietários de terras.

Um roteiro e uma história sobre a qual o atual presidente da República diz saber ” pouco disso”, como afirmou em uma das suas ‘respostas’ oficiais. Que se mova para assistir Pureza e tomar conhecimento do que ocorre no Brasil profundo, no campo e nas cidades. Em Minas Gerais, no Vale do Jequitinhonha. Em Goiás e na Bahia. No Espírito Santo.

Nas plantações de café, no cultivo de fumo, algodão, soja, erva-mate, batatas, cebolas, cana e laranja. Na fabricação de farinha de mandioca, no cultivo e extração de florestas nativas, na produção de carvão e  na siderurgia, construção civil e em oficinas de costura amoitadas em São Paulo.

O presidente precisa conhecer a história de Dona Leda dos Santos, de 61 anos, resgatada há poucos anos em Salvador. Trabalhou durante 50 anos para uma família sem receber salário. Foi ‘entregue’ pelos parentes com dez anos, nunca estudou nem sabia – disse ela – o que era brincar.

O presidente sabe pouco sobre a  “luta de uma trabalhadora rural maranhense que foi atrás de seu filho e durante três anos percorreu fazendas que escravizavam trabalhadores”, como foi lembrado por Dira Paes numa entrevista sobre Pureza. Um filmeindispensável.

*Em tempo: O Ministério da Justiça e Segurança Pública registra que o número de operações da Polícia Federal para resgatar trabalhadores em condições análogas à escravatura aumentou 470% em 2021 em relação a 2020.

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