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Desaparecidos políticos – Ana Rosa Kucinski Silva (12/1/1942 – 22/4/1974) e Wilson Silva (1942 – 22/4/1974). “Dos Filhos deste Solo”, Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio.

Desaparecidos políticos – Ana Rosa Kucinski Silva (12/1/1942 – 22/4/1974) e Wilson Silva (1942 – 22/4/1974). “Dos Filhos deste Solo”, Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio.

Nesta data, há 49 anos, a ditadura cometia crimes bárbaros até hoje impunes.

Ana Rosa Kucinski Silva e Wilson Silva eram casados, moravam e trabalhavam em São Paulo, militavam na ALN e desapareceram juntos no dia 22 de abril de 1974.

O caso está registrado no Dossiê dos Mortos e Desaparecidos a Partir de 1964, no qual consta depoimento do jornalista Bernardo Kucinski:

Minha irmã, Ana Rosa Kucinski, e meu cunhado, Wilson Silva, foram presos e desaparecidos em São Paulo na tarde de 22 de abril de 1974. Nesse dia, Wilson Silva e seu colega de trabalho Osmar Miranda Dias foram fazer um serviço de rotina, saindo do escritório da Avenida Paulista para o centro da cidade, um pouco antes da hora do almoço, após o que Wilson se separou de Osmar dizendo que iria se encontrar com sua esposa Ana Rosa, na Praça da República. A partir desta tarde, nunca mais foram vistos.

A família tomou conhecimento, através de colegas, da ausência de Ana Rosa na Universidade e, de imediato, passou a tomar providências no sentido de localizar o casal.

Impetrou-se habeas corpus, através do advogado Aldo Lins e Silva, sem nenhum resultado. No dia 10 de dezembro de 1974, foi enviado pedido de investigação à Comissão de Direitos Humanos da OEA. Meses depois, a família recebeu resposta
da OEA, na qual esta afirmava que, consultado, o governo brasileiro declinava qualquer responsabilidade no episódio.


O congresso dos desaparecidos, de B. Kucinski (Publicado Alameda Editora)

Bernardo Kucinski, desde a publicação de seu romance, hoje já um clássico, K. - Relato de uma Busca, em 2011, tem lançado a cada par de anos uma nova produção literária. Seus livros orbitam em torno do “buraco negro” da memória da ditadura civil-militar de 1964-1985. Trata-se, portanto de um projeto literário sólido que se volta contra as políticas de esquecimento e de memoricídio tão fecundas neste país.

O congresso dos desaparecidos, que agora vem à luz, é uma obra desconcertante em muitos sentidos. Primeiro, por ter como personagens exclusivamente vítimas do desaparecimento como prática de terrorismo de Estado. Essa prática, amplamente utilizada nas ditaduras latino-americanas do século XX, no entanto, é apresentada por Kucinski no contexto da Colonialidade: desde que o Brasil foi criado praticou-se e se pratica o desaparecimento dos considerados indesejados pelos donos do poder.

Assim, ao lado dos desaparecidos da ditadura que organizam um congresso e, depois, uma tomada de Brasília (em um contramodelo revolucionário dos atos fascistas de 8/1/2023), encontramos também Zumbi, Antônio Conselheiro, Amarildo, combatentes da Cabanagem, da Guerra do Contestado, das ligas camponesas, de Canudos, indígenas, vítimas espectrais da violência e do racismo estruturais.

Kucinski em seu romance-manifesto repagina a história do país do ponto de vista das continuidades de práticas de dominação e de necropolítica. Nascido como fruto e resistência ao “surto fascista” que vivemos recentemente, no livro fica claro que nossa tarefa agora é organizar uma memória resistente para se combater os fascismos de hoje e estruturar uma sociedade na qual os fascistas não tenham mais vez.

De quebra, o romance, decerto inspirado no Pedro Páramo, de Juan Rulfo, e em outros diálogos de espectros e mortos, apresenta uma autorreflexão crítica sobre as práticas de resistência e revolucionárias das esquerdas durante os anos de chumbo.

Como sempre em suas obras, com ironia, personagens históricos e criados se misturam para permitir imaginarmos – criar uma imagem – da ditadura. Como o período neoditatorial de 2016- 2022 deixou claro com sua glamorização da ditadura, a memória desse período e a memória da barbárie institucional no Brasil devem constituir espinhas dorsais da resistência contra os fascismos que sempre galopam no dorso pútrido do negacionismo.

Nesse sentido, a prática do desaparecimento deve ser vista com o epítome do fascismo latino-americano, seu cerne.

A “fenomenologia do desaparecido político”, traçada por Kucinski aqui, não deixa dúvidas quanto a isso.

Márcio Seligmann-Silva

B. Kucinski é a assinatura literária do jornalista e professor aposentado da ECA-USP Bernardo Kucinski. Em 2011, ele lançou K. Relato de uma busca, traduzido para várias línguas e finalista de prêmios São Paulo de Literatura e Portugal Telecom. Recebeu dois prêmios da Biblioteca Nacional, por Você vai voltar pra mim (2014) e Júlia – nos campos conflagrados do Senhor (Alameda, 2020). Pela Alameda, publicou também A nova ordem (2019), A cicatriz e outras histórias (2021) e O colapso da Nova Ordem (2022).

O general Golberi do Couto e Silva chegou a reconhecer, em dezembro de 1974, que Ana Rosa se encontrava presa numa instituição da Aeronáutica.

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O governo americano — por meio do Departamento de Estado — encaminhou informações à família de que Ana Rosa ainda estaria viva, presa em local não sabido e que Wilson Silva, provavelmente, estaria morto.

As famílias dos desaparecidos políticos estiveram com o general Golberi do Couto e Silva em Brasília, em audiência solicitada por dom Paulo Evaristo Arns. Dias depois, o ministro de Justiça, Armando Falcão, em nota oficial, informou sobre os “desaparecidos políticos” e incluiu na lista nomes de pessoas que jamais foram tidas como desaparecidas. Em relação a Ana Rosa e Wilson Silva, a nota do Ministério alegava que eram “terroristas” e estavam “foragidos”.

Amílcar Lobo, o médico psiquiatra envolvido com torturas no Rio de Janeiro e que resolveu denunciar os assassinatos políticos, em uma entrevista comigo, quando lhe mostrei fotos de minha irmã e seu marido, este reconheceu as fotos de Wilson Silva como sendo uma pessoa que ele atendera após uma sessão de torturas. Quanto a Ana Rosa, entretanto, o reconhecimento foi positivo, mas não categórico.

O ex-sargento do Exército Marival Chaves do Canto prestou depoimento à Comissão Externa para os Mortos e Desaparecidos Políticos da Câmara dos Deputados em que afirma:

(…) foi por causa do trabalho de Jota, João Henrique Ferreira de Carvalho, que Wilson Silva e sua mulher Ana Rosa Kucinski Silva foram presos, torturados e mortos.

Disse também: o coronel Fred Perdigão, do Centro de Informações do Exército desde a sua época de capitão, tinha influência suficiente no porão para viver levando presos de São Paulo para Petrópolis. Ele participou do desaparecimento
de Ana Rosa Kucinski Silva e Wilson Silva.

Extorsão

Bernardo Kucinski contou, em entrevista à Veja, que certa vez foi extorquido e pagou US$ 25 mil a militares em troca de informações. “Eram falsas. Enquanto o corpo não é encontrado, a família não consegue se livrar do sentimento de culpa e faz qualquer coisa para saber o que aconteceu.”

Ana Rosa era professora de Química na USP e Wilson era físico e trabalhava na Servix/SP.

Ana Rosa foi desligada da USP por “abandono de emprego”, injustiça corrigida apenas 21 anos depois.

A responsabilidade do Estado no desaparecimento e morte de Ana Rosa Kucinski
e Wilson Silva foi reconhecida no Anexo da Lei 9.140/95

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