Rússia supera a França neocolonialista na África Ocidental

Rússia supera a França neocolonialista na África Ocidental

Os golpes militares em três ex-colônias francesas – Burkina Faso, Mali e, mais recentemente, Níger – são talvez uma indicação do início do fim dos laços pós-coloniais e neocoloniais franceses com a África Ocidental. (Foto: MINUSMA/Harandane Dicko)

POR THALIF DEEN

NAÇÕES UNIDAS – Do século XVI até o final dos anos 1960, a França foi descrita como a segunda maior potência colonial do mundo – logo atrás do Império Britânico. Como dizia o velho ditado, “o sol nunca irá se por sobre o Império Britânico, porque Deus não confiaria em um inglês no escuro”. 

Isso também se aplicaria ao império colonial francês?

Os golpes militares em três ex-colônias francesas – Burkina Faso, Mali e, mais recentemente, Níger – são talvez uma indicação do início do fim dos laços pós-coloniais e neocoloniais franceses com a África Ocidental. Os três líderes militares estão se voltando para a Rússia e o grupo mercenário russo Wagner para novas alianças políticas, econômicas e militares.

A manchete de um artigo do New York Times na semana passada afirmava: “Influência minguante para a França, o colonizador que permaneceu na África Ocidental”.

O golpe no Níger, um país sem litoral com cerca de 25 milhões de pessoas, provavelmente resultará na saída de mais de 2.500 soldados ocidentais, incluindo 1.100 americanos, que estavam estacionados no país da África Ocidental para combater grupos militantes antiamericanos e antiocidentais. No país africano, também houve forte apoio público aos russos, inclusive com manifestantes agitando bandeiras russas.

À IPS, Stephen Zunes, professor de Política da Universidade de San Francisco, afirmou que muitos africanos guardam um ressentimento compreensível em relação ao neocolonialismo francês e seus colaboradores locais. “Desgraçadamente, apesar da falta de legado colonial, a influência russa é ainda pior. Eles estão apoiando alguns dos piores senhores da guerra da região, líderes militares reacionários e elementos criminosos”, avalia.

Vijay Prashad, diretor do Tricontinental: Institute for Social Research, afirmou à IPS: “Sim, há uma mudança definitiva no humor no Sahel. Eu vi isso cerca de quatro anos atrás. As pessoas ficaram aborrecidas com a chegada das tropas francesas para supostamente conter o avanço da Al-Qaeda. Foram incapazes de fazê-lo, e as baixas civis foram abundantes”.

Havia também um sentimento por toda parte de que o Ocidente estava saqueando recursos e impedindo a passagem de migrantes pela região. Na ausência de um caminho político promissor, é claro que os militares iriam agir. Eles são comandados por jovens do meio rural e de famílias urbanas de classe média baixa. Conhecem o preço pago por seus países e não querem mais pagá-lo, acrescentou.

O porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Matthew Miller, por sua vez, disse aos repórteres: “Ouvi perguntas sobre os protestos nesta sala de reunião. Às vezes, vemos as pessoas presumirem, ao ver as pessoas nas ruas, que se trata de um apoio real, quando as pessoas podem ter sido pagas para comparecer aos protestos”.

Minimizando os manifestantes pró-Rússia, Miller disse ser estranho, “num país que está sofrendo uma tentativa de golpe militar, que a primeira coisa que as pessoas façam seja ir a uma loja para comprar uma bandeira russa. Parece-me um cenário um tanto improvável”.

“Certamente vemos Wagner tirar proveito desse tipo de situação sempre que ocorre na África”, destacou, ao lembrar que Yevgeniy Prigozhin, chefe do grupo paramilitar russo, estava comemorando publicamente os eventos no Níger.

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“Nós não vimos nenhum papel do Grupo Wagner na instigação dessa tentativa de aquisição, e ainda não vimos nenhuma presença militar de Wagner no Níger. Não há nenhuma atividade específica, mas vimos Prigozhin comemorando publicamente o que aconteceu, e foi muito estranho ter um monte de bandeiras russas nas manifestações de apoio aos líderes da junta”, acrescentou.

Talvez as batalhas mais longas e amargas contra o colonialismo francês tenham ocorrido no norte da África durante a guerra de independência da Argélia. A batalha foi um grande conflito armado entre a França e a Frente de Libertação Nacional da Argélia (NLF) entre 1954 e 1962, levando o país a conquistar a sua independência da França. O exemplo mais recente e sangrento da história colonial da França no continente africano, com aproximadamente 1,5 milhão de argelinos mortos e outros milhões deslocados na luta de oito anos pela independência.

Uma postagem no site Política Externa, de 8 de agosto, aponta que os líderes do golpe de Estado do Níger tinham uma semana para renunciar ao poder, e restabelecer o presidente deposto Mohamed Bazoum, ou enfrentariam uma intervenção militar da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO).

À meia-noite de domingo (13), o prazo expirou sem que Bazoum fosse reintegrado. Agora, o Níger e seus vizinhos estão se preparando para uma possível guerra – e a CEDEAO, que planeja realizar uma segunda cúpula de emergência, está questionando se a ameaça sem precedentes foi uma ideia inteligente.

No domingo, o governo da junta do Níger enviou reforços de tropas para a capital, Niamey, e fechou o espaço aéreo do Níger para se preparar para uma possível invasão da CEDEAO. 

Na segunda-feira (14), um diplomata sênior dos EUA manteve conversas “francas e às vezes bastante difíceis” com os líderes da junta, que rejeitaram os apelos para restaurar a democracia.

Questionado sobre a influência russa no Níger, o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, disse aos repórteres em 7 de agosto: “Com certeza, temos preocupações quando vemos algo como o Grupo Wagner possivelmente se manifestando em diferentes partes do Sahel. Em todos os lugares onde o Grupo Wagner foi, a morte, a destruição e a exploração se seguiram”.

Blinken avalia a insegurança aumentou e não diminuiu. “O que aconteceu e continua acontecendo no Níger não foi instigado pela Rússia ou por Wagner, mas conforme eles tentam tirar vantagem disso, nós vemos a repetição do que já aconteceu em outros países, onde eles levaram nada além de coisas ruins em seu rastro – isso não seria bom”, acrescentou.

Artigo publicado na Inter Press Service.

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