OPEP descarta declínio dos combustíveis fósseis nesta década

OPEP descarta declínio dos combustíveis fósseis nesta década

A Organização dos Países Exportadores de Petróleo constata que ainda há um aumento no consumo de petróleo, gás e carvão, e descarta que a demanda por esses combustíveis fósseis diminua em um futuro próximo

Por Correspondente da IPS em Viena

A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) rejeitou nesta quinta-feira (14), as previsões da Agência Internacional de Energia (AIE), dos países consumidores industrializados, de que a demanda por combustíveis fósseis atingirá seu pico antes de 2030 e depois irá retroceder.

Em um comunicado divulgado no dia em que a OPEP celebra seu 63º aniversário de fundação em Bagdá, o kuaitiano Haitham Al Ghais, secretário-geral da organização, afirmou que “essas narrativas apenas preparam o sistema de energia global para fracassar espetacularmente”.

Esse fracasso “levaria a um caos energético em uma escala potencialmente sem precedentes, com consequências desastrosas para as economias e bilhões de pessoas em todo o mundo”, acrescentou Al Ghais.

A OPEP é composta por Angola, Argélia, Arábia Saudita, República do Congo, Emirados Árabes Unidos, Gabão, Guiné Equatorial, Irã, Iraque, Kuwait, Líbia, Nigéria e Venezuela, e produz coletivamente mais de 30 milhões de barris (de 159 litros) de petróleo por dia, cerca de um terço da demanda mundial.

Por outro lado, a AIE, uma entidade rival por meio século, está prestes a publicar seu relatório de perspectivas energéticas mundiais em questão de dias, e um resumo foi divulgado por seu diretor, o economista turco Faith Birol.

“Estamos testemunhando o início do fim da era dos combustíveis fósseis e precisamos nos preparar para a próxima era”, afirmou Birol, acrescentando que a demanda por petróleo, gás natural e carvão atingirá seu pico antes de 2030.

Segundo Birol, “no setor energético tradicional, existe um tabu que impede de sugerir que a demanda pelos três combustíveis fósseis possa entrar em declínio permanente”, com base em dados de crescimento da demanda, “mas esta era de crescimento aparentemente constante chegará ao fim nesta década”.

De acordo com dados da empresa britânica British Petroleum, o consumo mundial de combustíveis líquidos ultrapassa os 100 milhões de barris diários – ante os 90 milhões de uma década atrás, e o de gás natural é de cerca de 4 bilhões de metros cúbicos, em comparação com os 3,3 bilhões de 10 anos atrás.

A demanda por carvão também aumentou de 8,3 bilhões de toneladas, enquanto uma década atrás não chegava a 8 bilhões.

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A análise da AIE sustenta que o consumo dos três principais combustíveis fósseis começará a diminuir nesta mesma década devido ao rápido crescimento das energias renováveis e à disseminação de veículos elétricos.

De acordo com a OPEP, “previsões consistentes e baseadas em dados não apoiam essa afirmação”, tornando-se “uma narrativa extremamente arriscada e impraticável descartar os combustíveis fósseis ou sugerir que estão no início de seu fim”.

“O que torna essas previsões tão perigosas é que muitas vezes são acompanhadas por apelos para interromper investimentos em novos projetos de petróleo e gás”, destaca a mensagem da organização.

Além disso, “esse pensamento sobre os combustíveis fósseis é impulsionado ideologicamente, mais do que baseado em fatos”, de acordo com a OPEP, e “não leva em consideração o progresso tecnológico contínuo que a indústria continua a fazer em soluções para ajudar a reduzir as emissões de gases de efeito estufa”.

Para a OPEP, a abordagem de Birol e da AIE “também não reconhece que os combustíveis fósseis ainda representam mais de 80% da matriz energética mundial, assim como há 30 anos, nem que a segurança energética que eles proporcionam é vital”.

Um outro estudo recente, da empresa americana Exxon, previu que, até meados do século, petróleo e gás vão constituir pelo menos 54% dos produtos energéticos consumidos pelo mundo, e a demanda por petróleo será de cerca de 85 milhões de barris, mesmo que a partir de 2035 cada novo carro vendido seja elétrico.

Em sintonia com a tendência, a OPEP afirma que seus países membros “estão investindo pesadamente em projetos de hidrogênio, instalações de captura, uso e armazenamento de carbono, economia circular de carbono e também em energias renováveis”.

“Ciente do desafio que o mundo enfrenta para eliminar a pobreza energética, atender à crescente demanda e garantir energia acessível ao mesmo tempo em que reduz as emissões, a OPEP não descarta nenhuma fonte ou tecnologia de energia”, disse o secretário-geral.

Sendo assim, a organização “acredita que todas as partes interessadas devem fazer o mesmo e reconhecer as realidades energéticas de curto e longo prazo”, concluiu Al Ghais.

*Imagem em destaque: Trabalhadores em instalações de hidrocarbonetos nos Emirados Árabes Unidos (Reprodução/Adnoc)

**Publicado originalmente em IPS – Inter Press Service | Tradução de Marcos Diniz

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