Haverá mundo depois de nós?

Haverá mundo depois de nós?

A exibidora e produtora de filmes que no fim de 2022 surfou na crista da onda de sucessos cinematográficos para grandes plateias promete voltar a repetir o seu gol de natal e ano novo, neste verão. O filme (longo, duas horas e 20 minutos de duração), O Mundo Depois de Nós, que acaba de ser lançado, já é um dos mais acessados do catálogo da Netflix, misturando com esperteza e para gáudio da massa de espectadores, assuntos que estão na ordem do dia discutir e debater.

Nessa produção gênero suspense e tipo distopia com recados antirracistas e sociais, e mensagens geopolíticas enviadas por russos, coreanos, árabes e chineses desejando “morte à América”, tudo colocado em uma coqueteleira, tem também a marca de Barack e Michelle Obama como produtores executivos do filme. Mais o dedo de Julia Roberts na sua fase pós-estelar e de Ethan Hawke cinquentão, assumindo cada vez mais o seu personagem de escritor, professor, roteirista e intelectual da Califórnia.

A forte atração cinematográfica é dirigida por Sam Esmail e inspirada no romance Leave the World Behind (Deixe o Mundo para Trás)*, do escritor nova-iorquino Rumaan Alam, de 46 anos, morador do Brooklin e finalista de dois prêmios literários importantes nos Estados Unidos, este ano: o National Book Award e o Orwell Prize. Alam é coautor do roteiro do filme que abriga suspense com pitadas de terror psicológico, toques de ficção científica e ameaças originadas em teorias da conspiração.

No elenco, os personagens da dupla indispensável para desenhar a disputa racista de pai e filha negros, educados, sofisticados e membros da alta classe média de Manhattan, interpretados pelos atoresMahershala Ali e Myha’la Herrold. O pai, G.H., é um bem sucedido agente do poderoso mercado dos grandes capitais.

Na trama, é apresentado o mundo huis clos do casal branco com dois filhos adolescentes, e o universo do pai negro e da jovem filha, todos trocando farpas e trancados em uma casa alugada para férias na beira do mar de Long Island. Lá fora, o mundo se desfaz em um ataque cibernético repentino que, ao que parece, começaria a rolar por todo o planeta.

A ação discorre sobre o fim de semana da família da mal humorada Amanda (Julia Roberts), profissional de relações públicas, e de Clay Sandford (Ethan Hawke), professor universitário. Os dois desejam descansar em companhia dos filhos e distantes da trepidante Nova York. Mas a calmaria do início de férias logo é interrompida ao perceberem que celulares, sinal de internet, computadores e transmissões TV e de rádio saem do ar e dispositivos de segurança pública, na estrada, deixam de funcionar.

Um navio petroleiro, de repente, entra pela praia adentro completamente desgovernado quase atropelando a família de Amanda que toma banho de sol. Aviões em sua rota habitual caem de repente do céu sem nuvens, e explodem no mar e na areia. Estradas são bloqueadas por carros danificados e parados ao longo das pistas, sem qualquer pessoa no seu interior.

É quando chegam, no meio da noite, G. H. e a filha Ruth (Myha’la Herrold, atriz da moda e em ascensão), que são os proprietários da casa alugada pela família de Amanda e Clay. Pedem para se abrigar ali durante o período em que durar o que todos pensam ser um blecaute passageiro; mas que na realidade é o tal ciberataque aos Estados Unidos.

Durante o embate entre negros e brancos que permeia o filme, enquanto os dois grupos familiares estão isolados, uma sucessão de reflexões existenciais emergem nas conversas, questionamentos sobre raça e preconceitos, e sobre a obsessão dos burgueses por dinheiro, conforto e aparência. E a falsa ideia que a classe média faz de si mesma.

“Acabamos achando que somos o que temos, o que possuímos, e não percebemos o que na verdade nós somos”: é uma das constatações-chaves.

A conduta ética e solidária diante da própria sobrevivência, na situação específica de desastre coletivo, também é posta à prova e ela se prova egoísta, violenta e mercantil. “Sacaneamos todo o tempo tudo que tem vida e é vivo neste planeta”, Amanda acaba constatando.

Durante os longos papos regados a muitos cálices de vinho, vão surgindo novas percepções e uma consciência justa por parte do quarteto de personagens que fazem, cada qual ao seu modo, um mea culpa dirigido a si mesmos, cidadãos estadunidenses enquanto população, sociedade e governo: “Fizemos inimigos no mundo todo. Para fazer esse ataque eles talvez tenham se cansado e se unido em uma sentença de ‘morte à América'”.

O interessante argumento de O Mundo Depois de Nós, embora sem grandes novidades, acaba se adaptando a um roteiro confuso, um coquetel demasiado temperado com uma sucessão de episódios, muitos deles clichês, do gênero tudo/ao mesmo tempo/aqui/e agora/no mesmo lugar.

No entanto, a ideia inquietante, pretendendo fechar a narrativa em modo de alarme, acaba aberta, no filme e também no livro de Alam; é o que comentam leitores que conhecem a obra. Talvez o mundo tal como o conhecemos hoje acabe a qualquer momento; e depois dele não haverá outro mundo ‘normal’, como aliás pondera um personagem.

Apenas estarão a salvo, e por algum tempo, os inocentes, as crianças, como sugere o filme. Os que habitarem bunkers previamente construídos para sobrevivência, aparelhados com sinais de televisão indomáveis, com coleções de episódios de Friends arquivados e com alguns hambúrgueres e batatas fritas fast food que permaneceram preservados por algum tempo na geladeira. Mas apenas por algum tempo.

*Da Editora Intrínseca

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