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Circulação do dinheiro

Circulação do dinheiro

Para a modelagem da economia capitalista como emergente de componentes interativos de um sistema complexo financeiro é necessário garantir a consistência entre ‘fluxos’ e ‘estoques’

Follow the money (siga o dinheiro) visa entender uma sociedade regida pela impessoalidade do dinheiro. O trabalho assalariado em uma relação contratual impessoal, onde se troca uma atividade laboral por dinheiro, foi uma conquista social.

Por milênios, na história da humanidade, predominou o regime de escravidão sob violência… desumana? Em outros séculos, a servidão predominou na Europa medieval como uma característica central do feudalismo, um sistema social e econômico onde os servos não possuíam terra nem dinheiro.

Para a sobrevivência, essas pessoas eram obrigadas a trabalhar para os senhores feudais em troca de proteção e acesso a terras para cultivar e morar. Os servos eram obrigados a fornecer parte de sua produção em trabalho compulsório ou vender seus produtos para pagar taxas e impostos. A sociedade feudal era estratificada, com os senhores feudais no topo da hierarquia, seguidos pelos vassalos e cavaleiros, ficando os servos na base. Essa estrutura era caracterizada por obrigações e relações de lealdade mútua.

O fim da servidão foi influenciado por fatores como a ascensão do comércio, o crescimento das cidades, as mudanças na produção agrícola e as transformações políticas e sociais ocorridas ao longo dos séculos. O surgimento do capitalismo e a revolução industrial foram decisivos para a transformação das relações de trabalho e a abolição da servidão em muitos lugares.

O capitalismo passou a ser um progresso civilizatório a partir do avanço da cidadania por conquistas sociais de direitos. Inicialmente, o crescimento das fábricas e da indústria trouxe condições de trabalho extremamente difíceis para muitos trabalhadores, incluindo longas jornadas, baixos salários e falta de segurança no trabalho.

Em reação coletiva, no século XIX, houve o surgimento dos primeiros movimentos operários em lutas sindicais. Buscavam a regulamentação das condições de trabalho como a duração da jornada de trabalho, a proibição do trabalho infantil e a segurança nos locais de trabalho.

Durante as primeiras décadas do século XX, várias nações com democracia, pressionadas pelos eleitores, começaram a adotar legislação mais ampla em prol dos direitos trabalhistas. Isso incluía leis sobre salário mínimo e seguro-desemprego.

A formação de sindicatos foi a maneira de os trabalhadores se unirem para reivindicar seus direitos e negociar com os empregadores. Greves e manifestações frequentemente ocorriam como uma forma de pressionar por melhorias nas condições de trabalho.

Houve um impulso significativo para a criação de leis trabalhistas mais abrangentes e sistemas de proteção social em muitos países. Isso incluía a introdução de direitos como férias remuneradas, licença maternidade, direitos de seguridade social e a regulamentação das relações de trabalho.

Até os dias atuais, luta-se por uma crescente conscientização sobre a importância da igualdade de gênero e diversidade no local de trabalho. Essas lutas em busca de igualdade salarial resultam em legislações proibitivas de discriminação no emprego.

Outro grande avanço é a conquista da cidadania financeira, isto é, o acesso popular a bancos e crédito. Todos os trabalhadores demandam remunerações justas em dinheiro para poderem planejar a aplicação financeira de uma parcela da renda no sentido de obter reservas de segurança, comprar moradia, complementar a previdência e fazer um planejamento sucessório patrimonial.

A esquerda, unida em luta pelo igualitarismo social, não deveria ser “cristã medieval” com ojeriza pela cobrança de juros. Pelo contrário, deveria obter Educação Financeira para compreender o juro ser uma justa remuneração do custo de oportunidade de alguém transferir a um terceiro o uso de seu dinheiro para ele obter lucro.

Em lugar de praticar a eterna “denúncia do capitalismo”, deveria entender a evolução sistêmica para conduzir e transformar o sistema capitalista com progressivas conquistas sociais. A experiência do Socialismo Realmente Existente (SOREX) mostra o caminho não ser via uma súbita revolução, feita por uma vanguarda, pois gera regimes totalitários.

Um sistema complexo é dinâmico (variável ao longo do tempo) por ser emergente de interações entre seus diversos componentes. No caso do sistema capitalista financeiro, suas configurações periódicas podem ser vistas como resultantes das interconexões entre pelo menos cinco subsistemas constituídos por famílias, empresas não-financeiras, governos, bancos e o resto do mundo.

A metáfora de “dreno improdutivo” distorce o entendimento diante da circulação monetária ser o meio de efetuar essas interconexões. Os meios de pagamentos de salários, juros, aluguéis e recebimentos de lucros são feitos cada vez mais por escrituração digital, ou seja, créditos para pagar débitos via ordens de transferência de depósitos à vista, antes feitas por cheques, agora por meio de PIXem tempo real.

Veja Também:  Discussão de relacionamentos entre epifenômenos sistêmicos

Está visível a imprescindibilidade de bancos para coordenar os subsistemas de pagamentos, gestão do dinheiro e financiamentos. Cobrar juros de dívidas, seja privada, seja pública, não é “dreno” de recursos da atividade dita “real” por ser produtiva, como só o trabalho operário industrial adicionasse valor, vulgo “mais-valia” para os marxistas.

Os demais trabalhadores seriam “improdutivos” por se ocuparem da circulação de mercadorias (e do capital) ou de serviços caracterizados pelos encontros diretos dos produtores com seus consumidores como médico-paciente e professor-aluno?!

É equivocado falar em “setor financeiro” como fosse algo à parte prescindível, um “dreno” ou um vampiro sugador do sangue em circulação. Justamente, dinheiro escritural circulante no sistema financeiro registra tanto os fluxos de caixa, seja de entrada, seja de saída, quanto a acumulação de estoque de riqueza.

Uma abordagem sistêmica financeira faz a contraposição de estoques ou saldos (balanço patrimonial) aos fluxos de caixa (liquidez). Estes são gerados nas contas de resultado pela diferença entre as receitas esperadas e correntes (confirmadas ou efetivadas) e as despesas de custeio e financeiras contratadas legalmente.

Por definição, os valores da esperada entrada no fluxo de caixa são previsões. Caso não se confirmarem, para efetuar o pagamento devido, essa eventual frustração de caixa, inesperadamente, deixa o devedor sem dinheiro suficiente para pagar suas obrigações.

Caso ocorra uma diferença a menor entre suas entradas e saídas, o devedor precisará recorrer a outras fontes de dinheiro. Daí a importância de ter saldos acumulados (reservas), senão tomar empréstimos ou vender ativos de maneira forçada (liquidação).

Uma metáfora mais adequada, em vez de apenas falar em “dreno”, seria referir-se a um sistema de armazenamento de água ou liquidez. O fluxo de entrada seria a água (o dinheiro) para atender o fluxo de saída do sistema, enquanto o estoque seria a quantidade total de água armazenada, ou seja, a disponibilidade liquidez ou caixa.

Para a modelagem da economia capitalista como emergente de componentes interativos de um sistema complexo financeiro é necessário garantir a consistência entre fluxos e estoques. Quando a taxa de entrada é equilibrada com a taxa de saída, o estoque permanece no nível planejado ao longo do tempo.

Se o fluxo de entrada exceder o fluxo de saída, o estoque aumentará. Isto, em caso de mercadorias, é um problema de sobrecarga, em caso de dinheiro, “nem louco o rasga”…

Se o fluxo de saída for superior ao fluxo de entrada, o estoque diminuirá, sinalizando a necessidade de encomendar mais produtos e/ou expandir a capacidade produtiva. Determina a necessidade de financiamento externo, seja à empresa, seja à economia, caso não tenha capacidade de autofinanciamento, dada a escassez de recursos financeiros disponíveis em caixa.

Por fim, para apresentar a realidade desse sistema no país, o Banco Central do Brasil divulgou, em outubro de 2022, as estatísticas da Matriz de Patrimônio Financeiro (MPF). No fim de 2021, o estoque de patrimônio financeiro bruto (riqueza) da economia brasileira, registrou em ativos totais e passivos totais (inclusive de não residentes) R$ 67,4 trilhões, cerca de oito vezes o PIB (fluxo de renda) do país de R$ 8,7 trilhões no ano.

Foram revelados os subsistemas institucionais liquidamente emprestadores da economia brasileira nos últimos quatro anos. Eram as famílias (3/4 do total concedido) e o resto do mundo (1/4). Em contrapartida, os liquidamente tomadores eram as empresas não financeiras (+/- 62%) e o governo (+/- 38%). O subsistema financeiro apresenta sempre posição consolidada quase equilibrada (diferença entre ativos e passivos com resíduo próximo de zero), devido à sua função de intermediação.

Observando quem financia (drena) quem, a MPF informa o subsistema institucional composto por empresas não financeiras ser financiado por todos os demais setores. O resto do mundo, expande seus investimentos em ações proprietárias e empréstimos a essas empresas, assim como as famílias possuem ações e títulos de dívida direta delas.

*Imagem em destaque: (Reprodução/netivist.org)

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