Como o Japão e os Tigres Asiáticos ficaram ricos

Como o Japão e os Tigres Asiáticos ficaram ricos

Por qual razão os Tigres do Leste Asiático enriqueceram? Tal como o Japão, estes países (Hong Kong, Cingapura, Coreia do Sul e Taiwan) não precisaram de “reinventar a roda”…

POR FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA

Mark Koyama e Jared Rubin, no livro “How the World Became Rich: The Historical Origins of Economic Growth” (Polity Press, 2022), reconhecem: o mundo inteiro não é realmente rico. Mais de um bilhão de pessoas ainda vivem em pobreza extrema. A erradicação dessa pobreza deveria estar entre os principais objetivos da civilização.

O mundo como um todo certamente ficou muito mais rico nos últimos 200 anos. Os frutos destas riquezas espalharam-se, finalmente, muito além da Europa e dos EUA. Também se espalharam muito além de pequenos grupos de elites como visto na Ásia.

Repetem o típico argumento neoliberal em defesa do capitalismo sem fazer uma crítica construtiva em busca de uma melhor alternativa: “a condição para quase todos os seres humanos sobreviventes, antes de 1800, era a pobreza ou quase pobreza. Isto mudou ao longo do século XX e continua a mudar no presente. A Ásia está se tornando mais rica e, como tal, o mundo se torna mais rico”.

Em muitas partes do mundo, a colonização desempenhou, sem dúvida, um papel crucial no atraso dessa convergência. Colônias com escassez de mão de obra e abundância de terras na América do Norte, Austrália, Nova Zelândia e Argentina emergiram no fim do século XIX. Atraíram grandes quantidades de migrantes e capital – e algumas submergiram por suas instituições extrativistas – expoliam a renda da maioria em favor de uma minoria – e não inclusivas – fomentam a atividade econômica empregadora.

Por exemplo, a Índia, a maior das antigas colônias (incluía o atual Paquistão e Bangladesh), também permaneceu pobre, embora o seu crescimento tenha melhorado nas últimas décadas. A percentagem urbana da sua imensa população (com baixíssima renda per capita) era apenas 8,7% em 1870. Uma confluência de fatores foi responsável pelo declínio econômico da Índia, entre outros, o agravamento das condições climáticas, múltiplas invasões e guerras endêmicas, prolongadas com pilhagens.

As tentativas de instituir um sistema de direitos de propriedade tiveram como consequência involuntária a criação de uma casta de proprietários. Os mercados de fatores de produção, especialmente os mercados de crédito, permaneceram subdesenvolvidos e os agricultores locais continuaram dependentes de agiotas.

A Índia continuou a ser produtora de produtos primários e importadora de bens manufaturados britânicos. Na independência, em 1947, apenas 17% da população tinha alfabetização básica – muito atrás até de países como o Brasil. Hoje, dez das onze cidades mais poluídas do mundo estão na Índia.

Mas o crescimento recente contribuiu para a redução da pobreza. A percentagem de indianos na pobreza extrema diminuiu de 61,6% em 1977 para 21,2% em 2011.

O primeiro país não-ocidental a alcançar um crescimento econômico sustentado foi o Japão. Após a Restauração Meiji em 1868, ao remodelar toda a sociedade japonesa, implementou um rápido programa de construção do Estado e industrialização.

Não foi necessário “reinventar a roda”. Pode copiar a  tecnologia dos países líderes. Para estar em posição de o fazer, o país tinha um certo conjunto de pré-condições institucionais e culturais.

O investimento no capital humano é afetado tanto pelas instituições (requer financiamento) como pela cultura (ajuda se a educação for valorizada). Estes não foram impedimentos no Japão com a oferta de bens públicos.

As reformas implementadas após a Restauração Meiji foram radicais. Foi um dos exemplos mais notáveis de modernização do Estado. O governo Meiji estabeleceu um sistema de educação obrigatória e aumentou significativamente os impostos.

As corporações profissionais e as proteções locais foram abolidas de modo a criar um mercado de trabalho único e unificado. O Estado favoreceu as empresas tanto na sua política fiscal como nas suas políticas regulatórias, inclusive dando apoio à formação de grandes conglomerados industriais conhecidos como zabatsu.

Embora fosse pró-negócios, o governo Meiji não era protecionista. O Japão tornou-se altamente integrado na economia mundial, passando da produção interna de uma vasta gama de produtos para a importação de produtos caros e a exportação de produtos produzidos de forma mais barata. No início do século XX, a estrutura da economia japonesa já se assemelhava à dos líderes industriais, embora fosse muito mais pobre.

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Antes, faltava educação superior. Em 1864, o Xogunato enviou estudantes para estudar em universidades ocidentais. Durante o período Meiji, introduziu um sistema educacional de três níveis, baseado em modelos ocidentais. Então, os japoneses modificaram as tecnologias ocidentais para torná-las apropriadas aos preços dos fatores.

O Japão carecia de recursos naturais – em particular, carecia de carvão, petróleo e gás. Para a sua produção se desenvolver, precisava de acesso aos mercados internacionais. Daí sofreu com a Grande Depressão e o consequente protecionismo em todo mundo.

Esta crise econômica alimentou a linha militar japonesa. Procurou isolar o país dos choques econômicos globais através da busca de um império na Ásia continental. Esta estratégia teve resultados catastróficos na Segunda Guerra Mundial.

O crescimento do pós-guerra retomou o caminho traçado no período Meiji. A economia japonesa conseguiu entrar em novas indústrias de alta tecnologia, onde tinha uma vantagem comparativa, devido à sua mão-de-obra qualificada. Na década de 1980, o Japão já era rico, com uma das principais economias do mundo.

Por qual razão os Tigres do Leste Asiático enriqueceram? Tal como o Japão, estes países (Hong Kong, Cingapura, Coreia do Sul e Taiwan) não precisaram de “reinventar a roda”. Os países pobres e distantes da fronteira tecnológica necessitam ser capazes de alcançar um rápido crescimento econômico através da importação de novas ideias e tecnologias.

Hong Kong, Taiwan, Singapura e Coreia do Sul carecem de recursos naturais, especialmente, petróleo e gás. Mas a geografia econômica colocou-os em presença de centros e aglomerações econômicas. Os países próximos uns dos outros têm maior probabilidade de negociar entre si no chamado “modelo gravitacional” de comércio.

Não estão apenas geograficamente próximos do Japão, mas também foram governados ou ocupadas por ele. Como resultado, estas economias do Leste Asiático estavam bem-posicionadas para seguir o caminho iniciado pelo Japão.

As economias do Leste Asiático eram todas relativamente pequenas. Foram, portanto, forçados a confiar nos mercados internacionais. Não caíram na armadilha, na qual muitos países em desenvolvimento de maior dimensão caíram, de depender de tarifas protetoras e subsídios para apoiar as empresas industriais nacionais.

As tarifas protecionistas e os subsídios pareciam plausíveis em países com grandes mercados internos, como o Brasil e a Índia. Tais políticas poderiam funcionar (como nos EUA do século XIX), mas na prática protegeram os fabricantes nacionais, com defasagem tecnológica, da ameaça da concorrência internacional e incentivaram a rent-seeking e a corrupção. Os países pequenos necessitam confiar nos mercados internacionais.

Os Tigres da Ásia Oriental não eram inicialmente democráticos. A Coreia do Sul e Taiwan permaneceram ditaduras até a década de 1980. A economia sul-coreana também foi sujeita à disciplina dos mercados mundiais.

A democratização seguiu o crescimento econômico – e não o precedeu. Uma série de diferentes acordos institucionais evoluiu para restringir os governantes, resolver problemas de ação coletiva e permitir compromissos credíveis internacionalmente com os grupos chaebols. Essas elites restringiram os instintos predatórios dos governantes.

O Estado desempenhou um papel fundamental na mobilização de recursos, forçou a poupança a aumentar e encorajou a industrialização. A dependência das exportações é uma característica unificadora das experiências dessas quatro economias asiáticas.

No entanto, os coautores não explicam como os Tigres Asiáticos tornaram-se centros financeiros significativos. Não contribuíram para seu rápido desenvolvimento econômico? Esses historiadores econômicos não se intrometem na área financeira…

As normas culturais influenciadas pelo ideal confucionista chinês de uma classe dominante instruída favoreceram o investimento em capital humano. Enquanto investiam fortemente no capital humano, as sociedades do Leste Asiático passaram por uma transição demográfica, desacelerando o crescimento populacional. Passaram de famílias numerosas para pequenas com crianças de elevado nível de escolaridade.

Até qual ponto o sucesso dos Tigres da Ásia Oriental é replicável? “A China foi capaz de replicar muitos aspectos do modelo econômico do Leste Asiático após a sua experiência desastrosa com o comunismo”, segundo os anticomunistas Koyama e Rubin,  embora em uma escala muito maior. Contudo, para países de outras partes do mundo com histórias, culturas e geografias diferentes, as lições do milagre da Ásia Oriental podem ser mais limitadas.

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