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Amazônia, um bioma ameaçado de extinção?

Amazônia, um bioma ameaçado de extinção?

A Amazônia Legal brasileira, que abrange oito estados e 38 milhões de habitantes, sofreu graves secas em 2005, 2010 e 2015. O aquecimento do Oceano Atlântico Tropical Norte foi um fator comum nas três ocasiões e o El Niño, que aquece as águas do Pacífico equatorial, nos dois últimos. Agora, a associação destes dois fenômenos se repete.

POR MÁRIO OSAVA

RIO DE JANEIRO – As paisagens são apocalípticas. Rios exuberantes reduzidos a filetes de água e seus canais desnudos como imensas praias, onde por vezes “estacionam” diversas embarcações, inclusive de grande porte, de três ou mais andares, típicas do transporte de passageiros na Amazônia brasileira.

“O rio virou igarapé”, resumiu Yolaide Gonçalves, líder do povo indígena Tikuna, radicado em São Paulo de Olivença, município de 33 mil habitantes no estado do Amazonas, no oeste do Brasil, próximo à fronteira com a Colômbia e o Peru.

Igarapé, palavra indígena de uso comum na Amazônia, significa “caminho da canoa” e designa um arroio ou braço de rio, que são cursos de água relativamente pequenos na região amazônica, no norte do Brasil.

Os Tikuna eram o maior povo indígena do Brasil, segundo o censo nacional de 2010, com 46.100 membros. Mas os dados foram bastante alterados no censo de 2022, que identificou um total de 1,69 milhão de indígenas brasileiros, 88,8% a mais que em 2010 e 0,83% da população nacional de 203 milhões. Ainda não são conhecidos dados detalhados sobre os 266 povos indígenas identificados no novo censo.

“É a pior seca que vivi desde a minha infância. “Nunca morreram tantos peixes como nas secas anteriores”, disse Gonçalves, 39 anos, à IPS nesta sexta-feira, 6, de Tabatinga, onde participava de uma reunião de lideranças indígenas e ribeirinhas para chegar a um acordo sobre ações para mitigar o atual desastre climático e social em suas áreas.

A novidade e exemplo da letalidade desta seca é a morte dos botos, símbolo da Amazônia. Mais de 120 desses cetáceos foram encontrados mortos, a maioria deles no Lago Tefé, cujas águas ficaram muito baixas e quentes na bacia do rio Solimões, nome dado ao curso médio do Amazonas no Brasil.

Em termos hidrológicos, esta seca é até agora “semelhante à de 2010”, embora seja mais visível porque atinge grandes cidades como Manaus, capital do estado do Amazonas, avaliou Naziano Filizola, professor da Universidade Federal Universidade do Amazonas com doutorado em Hidrologia e Geologia.

“Nos últimos 20 anos ocorreram eventos extremos na Amazônia com mais intensidade e maior frequência do que em todo o século XX. Isso é um fato, sem dúvida”: Naziano Filizola.

Os efeitos são “assustadores” porque “a coincidência de vários fatores no mesmo período provoca eventos extremos”. Desta vez, foi antecipada a estação seca amazônica, que costuma ser mais intensa de setembro a novembro, com o fenômeno El Niño, também “fora do tempo normal”, e o avanço das mudanças climáticas, explicou em entrevista à IPS de Manaus.

Rio Solimões em seu trecho final, em Iranduba, próximo ao seu encontro com o rio Negro e formando o rio Amazonas, no norte do Brasil. Uma praia alongada, devido à seca, afastou suas águas da cidade, que costuma margeá-la. Imagem: Cadu Gomes/VPR-FotosPúblicas

Repetição mais rápida

Além disso, “nos últimos 20 anos ocorreram eventos extremos na Amazônia com mais intensidade e frequência do que em todo o século XX. Isso é um fato, sem dúvida”, disse.

A chamada Amazônia Legal brasileira, que abrange oito estados e 38 milhões de habitantes, sofreu graves secas em 2005, 2010 e 2015. O aquecimento do Oceano Atlântico Tropical Norte foi um fator comum nas três ocasiões e o El Niño, que aquece as águas do Pacífico equatorial, nos dois últimos. Agora, a associação destes dois fenômenos se repete.

As secas se alternam com anos de chuvas extremas, como em 2017, quando o rio Juruá, afluente do Solimões em seu trecho central, antes de se chamar Amazonas, registrou sua maior enchente. Havia municípios em seu litoral com 90% de território submerso, quase todos viviam na Amazônia, lembrou o professor de 56 anos.

“Mas as secas são mais catastróficas do que as inundações”, argumenta Filizola, ao ameaçarem toda a população de sede e de fome, além de deixar muitas comunidades isoladas em uma região onde muitos assentamentos dependem do transporte fluvial. Também afeta as mentes de uma população acostumada à abundância de água.

Perdas variadas

A grande mortalidade de peixes afeta a dieta de uma população que tem o peixe como principal fonte de proteína. O futuro parece pior, pois a seca reduz drasticamente a reprodução da fauna aquática.

“Nas aldeias Tikuna não havia mais água potável”, disse Gonçalves. Felizmente, ele contou, a Secretaria Nacional de Saúde Indígena distribuiu cisternas de 500 e 1.000 litros para cada família, o que lhes permitiu coletar água da pouca chuva que caiu naquela semana. Medidas como estas, entretanto, nada mais são do que “um pequeno alívio”, sublinhou.

Agora estão sendo feitos esforços para perfurar poços artesianos para garantir água potável se a seca durar além de dezembro, quando começa a estação chuvosa na Amazônia, e também para o futuro.

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“A seca em São Paulo de Olivença começou em agosto e se agravou desde então. Os peixes morrem por falta de água e também porque a água ficou muito quente. Em terra, os animais também morrem sem água e devido ao calor.

A queda na vazão do rio dificulta o transporte fluvial, o mais utilizado no estado do Amazonas. Uma viagem de São Paulo de Olivença a Manaus, numa distância de 1.360 quilômetros, antes demorava três ou quatro dias, agora leva duas semanas, segundo a liderança indígena.

Para Joed Pereira de Melo, agricultor de 40 anos, as inundações extremas dos rios são piores para os agricultores em terras propensas a inundações. “A perda é total”, lamentou.

Em Iranduba, onde Melo sempre morou, esses produtores são maioria entre os quase 6 mil agricultores do município de 49 mil habitantes. A atividade é atrativa porque abastece a vizinha Manaus, maior cidade amazônica, com 2,06 milhões de habitantes, separada apenas pelo rio Negro, obstáculo superado desde 2011 por uma ponte de 3.595 metros.

Melo escapa aos maiores danos da seca porque possui dois hectares de sequeiro onde um poço lhe permite irrigar as suas hortaliças e as suas culturas de feijão e mandioca. Mas ele também sofre sérios prejuízos com a alta temperatura, que chega a 42 graus Celsius em sua fazenda.

Além disso, ele também possui 0,8 hectares de terras alagáveis, onde só poderá plantar quando as chuvas voltarem. A escassez de alimentos vai piorar nos próximos meses. Até agora, o que foi plantado no início da seca, há três meses, foi colhido, quando o solo das margens dos rios ainda estava molhado.

A produção agroecológica que pratica também ajuda a resistir melhor às secas, ao considerar todo o ecossistema e não apenas a agricultura em si, disse Melo à IPS de Iranduba.

Num braço do rio Solimões, casas outrora flutuantes instalaram-se em seu leito quase seco. A população de muitas cidades costeiras amazônicas no Brasil não pode mais se movimentar, nem transportar seus produtos ou mercadorias nas pequenas embarcações que são seu principal meio de transporte, porque não há água suficiente para navegar. (Foto: Cadu Gomes/VPR-FotosPúblicas)

Agravantes

Um problema adicional, por exemplo, é a sedimentação muito intensa nos rios amazônicos, principalmente no Solimões, onde a seca atual é mais sentida, explicou o agricultor.

As terras caídas, fenômeno de deslizamentos de terra devido à erosão que geralmente ocorre durante as secas, contribuem para essa sedimentação, observou Eder Mileno, professor graduado em Geografia da Universidade Federal do Pará, em Belém, outra grande capital, com 1,3 milhão de habitantes, na entrada oriental da Amazônia, a mais próxima do Oceano Atlântico.

O desabamento de uma ravina no rio Purus, afluente do Solimões, causou a morte de duas pessoas e provocou a perda de moradias para 200 pessoas, no dia 30 de setembro, por exemplo.

Os eventos climáticos “que vivemos podem alterar permanentemente a dinâmica dos rios”, afetados por diversas atividades meteorológicas, bem como pelas atividades humanas, explicou à IPS de Belém.

“A atual seca amazônica se diferencia das anteriores pela maior influência do homem no clima global, intensificando eventos extremos e sua repetição”, observou.

A atual seca pode enfraquecer em breve devido à influência da Zona de Convergência Intertropical, sistema meteorológico que provoca chuvas na Amazônia ao reunir ventos úmidos dos hemisférios Norte e Sul, espera o geógrafo.

Este ano, a seca, que ocorre em diferentes formas e intensidades em partes da Amazônia, começou no oeste e avança para o leste, afetando até agora principalmente os afluentes da margem sul do Amazonas, geralmente com fontes no Peru e na Bolívia, destacou o professor Filizola.

Em São Paulo de Olivença, no oeste do estado do Amazonas, começou em agosto, confirmou Gonçalves, líder Tikuna.

Logo, passou a afetar os rios Juruá, Purus e Madeira. Neste último, a redução da vazão levou a hidrelétrica de Santo Antônio a suspender sua geração no dia 2 de setembro. A ausência temporária dos seus 3.568 megawatts de potência afeta o Sistema Elétrico Nacional, com capacidade total de 190 gigawatts.

O avanço da seca extrema já atingiu o rio Tapajós, no estado do Pará. Se continuar, será a vez do rio Xingu onde foi instalada a segunda maior hidrelétrica americana, Belo Monte, com 11.233 megawatts de potência.

Artigo publicado na Inter Press Service.


Lago em Tefé, município do centro do estado do Amazonas, às margens do rio em seu trecho médio, deixado pela seca de setembro. O evento extremo afetou a água potável da população, a produção agrícola e pesqueira e o transporte fluvial, fator determinante para a mobilidade naquela localidade. (Foto: Prefeitura de Tefé).

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