Chamadas para fim do mundo

Chamadas para fim do mundo

Em Nova Iorque existe um relógio que não informa as horas. Exibe uma contagem decrescente e avisa quanto tempo resta para o ponto de não retorno, quando de nada adiantará qualquer esforço para evitar a destruição do mundo tal como a humanidade o conheceu até agora. Pois talvez não exista mais a humanidade.

A catástrofe ronda o planeta enquanto autoridades mais conscientes não escondem sua preocupação e o seu medo do que está por vir. “A era do aquecimento global acabou”, disse o secretário geral da ONU Antônio Gutierres. “Começou a era da ebulição global”. Na semana passada, os termômetros acusavam mais de cinquenta graus centígrados em algumas regiões do Hemisfério Norte. O mês de julho que acaba de se encerrar foi o mais quente de que se tem notícia desde que começaram a se fazer registros da temperatura na Terra. Os dados foram confirmados pelo Copernicus, programa de observação da terra da União Europeia.

Os trágicos incêndios na Grécia, na Itália, em Portugal, são um sinal de que não está longe a paisagem de uma Europa árida e desértica. A seca, que era um fenômeno típico nos países do Sul europeu, alastra-se hoje para o Centro e o Norte, países nórdicos e do Leste do continente. Aponta-se um crescente déficit de humidade no solo mesmo quando chove.

Em todos os encontros oficiais para tratar do clima, nos editoriais da imprensa, em todas as discussões sobre o assunto e mesmo diante da opinião pública internacional, o Brasil do governo Bolsonaro foi condenado como um grande vilão, um dos maiores responsáveis pela ameaça à vida no planeta. A Europa ameaça rejeitar o acordo comercial com o Mercosul, que levou mais de vinte anos de negociações, por causa da posição do Brasil diante dos problemas do meio ambiente. A condenação tem como causa não apenas a destruição das florestas, dos rios e dos pântanos criadores, mas também pela indecente posição do governo Bolsonaro diante de um problema que o mundo inteiro considera muito grave porque se refere à própria sobrevivência das espécies, entre elas a humana. Desde a posse do novo Governo brasileiro, respira-se uma atmosfera de distensão.

Em 2019, na Cimeira do Clima, realizada em Madrid, o Brasil bloqueou a edição do documento final com as resoluções do encontro, que só foi publicado após longa discussão. Os representantes brasileiros, liderados pelo então Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, recusavam-se a aceitar parágrafos que falavam do uso da terra e da poluição dos oceanos tiveram de ser pressionados pelos outros países presentes para finalmente assinarem o documento.

Os negacionistas, aqueles mesmos que creem na terra plana, que são contra as vacinas e alinham-se à extrema direita política, negam as ameaças climáticas.

As horas que faltam

Em Nova Iorque existe um relógio que não informa as horas (https://climateclock.net/). Exibe uma contagem decrescente e avisa quanto tempo resta para o ponto de não retorno, quando de nada adiantará qualquer esforço para evitar a destruição do mundo tal como a humanidade o conheceu até agora. Pois talvez não exista mais a humanidade.

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O relógio da Union Square mostra o tempo que resta ao planeta. Se forem mantidas as emissões de carbono nos níveis de hoje, dentro de poucos anos a temperatura vai subir 1,5 graus Celsius e tornará insustentável a vida na Terra. A ONU declara que as alterações climáticas representam uma emergência sem precedentes. Nunca a destruição foi tão rápida e a comunidade internacional está falhando no combate à crise climática. Os últimos cinco anos foram os mais quentes de toda a lembrança humana e a temperatura média aumentou quase 1 por cento. A Organização Mundial de Meteorologia – OMM – acredita que, na trajetória atual, o mundo caminha para um aumento de temperatura de 3 a 5 graus Celsius até o final do século.

Gan Golan e Andrew Boyd, responsáveis pelo relógio do fim do mundo, pretendem reproduzi-lo nas principais cidades do mundo porque o mundo não deve esquecer a ameaça sob a qual está vivendo. Eles dizem que o tempo marcado não significa o prazo para fazer alguma coisa. Pelo contrário, diz que a ação deve ser imediata pois as alterações climáticas já estão presentes.

O degelo

A Expedição Mosaic, que explorou o Ártico durante 389 dias a bordo do   quebra-gelo alemão Polarstern, defrontou-se com uma surpresa: faltava gelo no Polo Norte. O líder da expedição, Markus Rex, disse que “se as alterações climáticas continuarem como estão, em algumas décadas teremos um Ártico sem gelo no verão”. E acrescentou que viu apenas uma calota derretida, fina, com lagos a perder de vista. Voltou com uma certeza: “o Ártico está dez graus mais quente que há vinte e cinco anos”.

Já Antje Boetius, diretor do instituto alemão Alfred-Wegener, que coordenou a expedição, disse que a placa de gelo polar tem metade da espessura que tinha há 40 anos.

O Conselho de Direitos Humanos da ONU publicou seu relatório destacando que os países mais pobres serão os mais afetados pela fome e pelas doenças que se intensificarão com as mudanças climáticas.

O Acordo de Paris, um protocolo em que 194 países se comprometem a reduzir a emissão de gases poluentes, foi assinado em 2015 e esteve sob ameaça de fracasso quando o segundo maior emissor de gases poluentes, os Estados Unidos, responsáveis por quase 18% da poluição mundial, retiraram sua assinatura em 2020, no governo Trump, mas voltaram em 2021.

O tempo se esgota para a possibilidade de vida na Terra.

*Imagem em destaque: (Pixabay)

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