A possível prisão de Bolsonaro e a desonra militar no Brasil

A possível prisão de Bolsonaro e a desonra militar no Brasil

Os militares brasileiros deverão se retirar novamente da política, devido ao descrédito e à perda da confiança popular resultantes do desastre bolsonarista. Isso já aconteceu após a ditadura que lideraram de 1964 a 1985, cujo fim desonroso os levou ao ostracismo político por três décadas

Por Mario Osava

RIO DE JANEIRO – Muitos são os caminhos que apontam a prisão como destino do ex-presidente Jair Bolsonaro, diante das evidências de sua participação em uma tentativa de golpe de Estado, corrupção, falsidades e lavagem de dinheiro ilegal, que também envolvem seus aliados e militares.

Os riscos se intensificaram nos últimos dias. Seu ajudante de ordens durante seu mandato, do primeiro dia de 2019 ao último de 2022, o tenente-coronel Mauro Cid, decidiu quebrar o silêncio e admitir a venda ilegal de um relógio de luxo da marca Rolex, por orientação de Bolsonaro, que o recebeu como presente do governo da Arábia Saudita em 2019.

A legislação brasileira considera patrimônio público os presentes de alto valor que não sejam de uso pessoal, recebidos pelos governantes como representantes do Estado.

Cid está detido desde 3 de maio em Brasília, por um caso de falsificação de certificados de vacinação contra a covid-19 para sua família e para Bolsonaro, sua esposa e sua filha mais nova, todos contrários à imunização.

Ele também é considerado responsável por várias operações indevidas com joias, algumas de grande valor, presenteadas tanto ao ex-governante de extrema-direita quanto a sua esposa, Michelle Bolsonaro, durante os quatro anos de mandato, embora ainda não haja ordens de prisão para este caso.

Além da venda do Rolex e de outro relógio da marca Patek Philippe, por 68 mil dólares nos Estados Unidos, o tenente-coronel do Exército, ainda em serviço ativo, tentou recuperar um conjunto de joias femininas avaliadas em 4,5 milhões de dólares, retidas pela alfândega no Aeroporto Internacional de Guarulhos, perto de São Paulo.

A retenção, em outubro de 2021, deveu-se à maneira ilegal como foram introduzidas no Brasil, na bagagem do ex-ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, um almirante aposentado da Marinha.

Cid representa, por ora, o maior risco para Bolsonaro e os militares, devido às suas possíveis revelações e às informações gravadas em seu celular, apreendido pela Polícia Federal, que investiga os diversos crimes envolvendo tanto o ex-mandatário quanto seus ministros e assessores diretos, incluindo vários generais.

Um dos envolvidos é o pai do tenente-coronel, o general Mauro Lourena Cid, que teria participado da venda ilegal dos relógios. O dinheiro obtido foi depositado em sua conta bancária.

Lourena Cid, que alcançou a patente máxima no Exército, a de general de quatro estrelas, dirigia o escritório da Agência Brasileira de Promoção de Exportações na cidade norte-americana de Miami, nomeado por Bolsonaro em 2019.

O programador de informática Walter Delgatti, à extrema esquerda, durante seu depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito, para responder a senadores e deputados sobre sua participação, a pedido do ex-presidente Jair Bolsonaro, nas tentativas de desacreditar o sistema eleitoral brasileiro baseado em urnas eletrônicas. Imagem: Lula Marques/Agência Brasil

A tentativa golpista

Outra testemunha-bomba relacionada às tentativas golpistas é o programador de informática Walter Delgatti, que afirmou ter recebido missões de Bolsonaro para verificar a possibilidade de fraudes nas urnas eletrônicas usadas nas eleições brasileiras.

O ex-presidente pediu-lhe para simular uma invasão das urnas eletrônicas, falsificar uma ordem de prisão contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e ajudar as Forças Armadas a produzir um relatório para questionar a confiabilidade das eleições eletrônicas, disse Delgatti à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que trata dos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.

Naquele dia, o oitavo de Luiz Inácio Lula da Silva na presidência, uma multidão de alguns milhares de pessoas invadiu as sedes dos Três Poderes em Brasília, com slogans contra supostas fraudes eleitorais e pedidos de intervenção militar para derrubar o novo governo.

Sete oficiais que comandavam a Polícia Militar do Distrito Federal estão detidos pela Polícia Federal, acusados de omissão ou facilitação na invasão do Congresso, da presidência da República e do STF.

A mesma acusação levou à prisão o comissário da Polícia Federal Anderson Torres, que foi ministro da Justiça no governo de Bolsonaro e que havia sido nomeado secretário de Segurança Pública de Brasília em 2 de janeiro, embora estivesse de férias em Miami no dia 8.

Seguidores do ex-presidente Jair Bolsonaro no topo do Senado em 8 de janeiro de 2023. A invasão e vandalismo dos Três Poderes em Brasília destruíram instalações do Congresso, da Presidência e do Supremo Tribunal Federal, em um apelo por um golpe contra o novo governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Imagem: Joedson Alves / Agência Brasil

Descrédito militar

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Dezoito oficiais das Forças Armadas estão sendo investigados pela polícia, por suspeita de participação em diferentes crimes que apontam Bolsonaro como líder ou beneficiário das ilegalidades.

O ex-presidente nega envolvimento em todos os eventos. Ele afirma que nunca ordenou a venda das joias que lhe foram presenteadas quando era presidente e que não recebeu um centavo da operação. Ele também nega qualquer pedido para a falsificação dos certificados de vacinação.

Ele alega que Cid tinha “autonomia” em suas ações, embora seja difícil acreditar em tal poder para um ajudante de ordens. As declarações conflitantes serão temas de novas investigações e interrogatórios, além de possíveis confrontos.

O ministro Alexandre Moraes, que coordena essas investigações no STF, autorizou a suspensão do sigilo bancário e telefônico de Bolsonaro e sua esposa. Ele atendeu a um pedido da Polícia Federal, diante das novas informações que envolvem o governante nas supostas ilegalidades.

O cerco se fecha em torno de Bolsonaro e repete a tormenta jurídica enfrentada por seu homólogo americano e referência política, Donald Trump, que está sendo julgado pela tentativa golpista da invasão do Capitólio em Washington, em 6 de janeiro de 2021, pelas pressões para alterar o resultado das eleições e por outros crimes não políticos.

A possibilidade de prisão a curto prazo é descartada pela maioria dos juristas. No entanto, ela pode ocorrer se Bolsonaro cometer algum ato que justifique a prisão preventiva, como tentar obstruir a justiça, pressionar testemunhas ou dar indícios de que pode deixar o país para escapar das consequências judiciais.

A CPI, composta por deputados e senadores, ameaça reter o passaporte do casal Bolsonaro para evitar uma possível fuga. Pelo menos é a intenção dos membros da aliança pró-governo.

Essa comissão é um exemplo da teimosia dos bolsonaristas.

Foram os legisladores pró-Bolsonaro que solicitaram a criação dessa comissão, aparentemente em uma tentativa de pressionar o novo governo, que manifestou interesse em rejeitar a iniciativa que prejudicaria a aprovação legislativa de medidas prioritárias, como as econômicas e sociais.

Mas era evidente que investigar os atos golpistas de 8 de janeiro colocaria em xeque Bolsonaro e seus auxiliares, bem como os militares que participaram ativamente de seu governo.

Da mesma forma, muitos dos ativistas que invadiram as sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro filmaram suas próprias ações com seus celulares, fornecendo provas contra si mesmos.

No entanto, o dano principal à extrema direita no Brasil é a deterioração da imagem das Forças Armadas, que tentam individualizar a participação de alguns militares nas ações bolsonaristas, como o tenente-coronel Cid e o general Eduardo Pazzuelo, ministro da Saúde entre 2020 e 2021, durante a pandemia de covid-19.

As Forças Armadas enquanto instituição não teria apoiado o governo de extrema-direita, cuja gestão da pandemia é considerada, pela opinião pública, responsável por grande parte das mais de 700 mil mortes. O Brasil é o segundo país com maior número de mortes registradas, atrás apenas dos Estados Unidos.

Os militares brasileiros deverão se retirar novamente da política, devido ao descrédito e à perda da confiança popular resultantes do desastre bolsonarista. Isso já aconteceu após a ditadura que lideraram de 1964 a 1985, cujo fim desonroso os levou ao ostracismo político por três décadas.

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*Imagem em destaque: O tenente-coronel Mauro Cid, vestindo uniforme militar, permaneceu em total silêncio na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que busca esclarecer os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. Como ajudante de ordens do ex-presidente Jair Bolsonaro, Cid conversou sobre o golpe de Estado com várias pessoas, conforme mostram as gravações em seu celular, apreendido pela Polícia Federal. O oficial superior do Exército está detido devido ao caso de falsificação de certificados de vacinação para a família presidencial e para ele próprio. Imagem: Lula Marques/Agência Brasil

**Publicado originalmente em IPS – Inter Press Service | Tradução de Marcos Diniz

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