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“Dois Brasis em Paris e a eleição de 2018”

“Dois Brasis em Paris e a eleição de 2018”

Leneide Duarte-Plon, de Paris

Era janeiro de 2019.  O Brasil acabava de passar por uma eleição que levou ao poder um militar saudoso da ditadura e de torturadores como Brilhante Ustra.

Ao reler o texto abaixo, que escrevi e foi publicado na Carta Capital em janeiro de 2019, achei importante compartilhar com os leitores o que ouvi de Fernando Henrique Cardoso num encontro na Maison de l’Amérique Latine cujo título era « L’ordre contre la démocratie ? Dialogue entre le président Fernando Henrique Cardoso et Alain Touraine ».

Na mesma semana, fui ouvir Vladimir Safatle, entre outros intelectuais, no encontro «Solidarité Brésil : Intellectuels, artistes, militants – comment agir?»

Na Maison de l’Amérique Latine, FHC disse coisas tão absurdas – sobre o Brasil que emergia de uma eleição em que Lula fora impedido de concorrer pela prisão decretada por um juiz depois declarado «parcial» pelo STF – que me perguntava o que o motivava.

Acho que Freud explica.

A seguir, o relato de dois encontros separados por poucos dias:

Na mesma semana, com poucos dias de intervalo, testemunhei duas narrativas diametralmente diferentes sobre o Brasil. Em dois encontros em Paris, um representante da oligarquia paulista vendeu a normalidade democrática brasileira. Em outro, franceses e brasileiros lançaram uma rede de solidariedade para enfrentar as medidas liberticidas do novo governo.

O país que Fernando Henrique Cardoso apresentou dia 14 de janeiro na Maison de L’Amérique Latine se chamava « Brasil ». Mas, surpreendentemente, na palestra, lida em francês, quem ganhou a eleição foi a « direita », as instituições do país funcionam normalmente e não houve golpe de Estado. A eleição de Bolsonaro foi « a expressão da rejeição da corrupção e da violência ».

Sergio Moro – braço direito do atual presidente e responsável pela sua vitória ao mandar prender o principal opositor, preferido nas pesquisas – não definiria de outra forma o que se passou no país.

No meio da tribuna, entre seu ex-professor, o sociólogo Alain Touraine, e o presidente da Maison de l’Amérique Latine, Alain Rouquié, ex-embaixador da França no Brasil, FHC parecia muito à vontade, incensado pelos dois amigos.

O título do encontro anunciava algo mais sólido que a gelatina intelectual que nos serviram os três octogenários (Touraine tem 94 anos) : « L’ordre contre la démocratie ? Dialogue entre le président Fernando Henrique Cardoso et Alain Touraine ». Ao apresentar seu hóspede, Rouquié frisou que FHC foi eleito e reeleito presidente do Brasil no primeiro turno. FHC voltou a esse dado um pouco depois, para se vangloriar.  O embaixador declarou ler as obras de FHC como se fossem « romances policiais ».

Era um elogio.

Vacuidade

Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente em dois mandatos (dos quais o segundo foi viabilizado por uma emenda, que demandou compra de deputados para mudar a Constituição) tem certeza de que foi eleito duas vezes « porque representava a esperança de reconstrução do país ».

Fazendo em francês uma leitura titubeante, FHC se mostrou em seu esplendor: oco, impreciso, apresentando um panorama do Brasil que não corresponde à realidade vista e analisada por juristas, professores universitários e correspondentes dos maiores jornais do mundo, além dos observadores honestos da imprensa brasileira e de jornalistas independentes.

« O que se passa no Brasil é um fenômeno de decomposição », resumiu FHC num dos raros momentos em que se aproximou da realidade do país, sem contudo aprofundar a análise. Criticou os partidos políticos e contradisse seu diagnóstico de que as pessoas votaram contra a corrupção e a violência ao dizer: « As pessoas não vêem com bons olhos a melhor distribuição das riquezas ».

Foi Touraine, como professor, quem abriu os olhos do ex-presidente para o papel do Estado e da política, disse o aluno reconhecido, não sem antes garantir que lera « O Capital » e « A crítica da mais valia ».

« Não foi uma ideologia que ganhou a eleição no Brasil. Enganam-se os que dizem que é um fascismo. Assim como se enganam os que dizem que havia um comunismo antes. As instituições funcionam no Brasil. Não há uma ideologia no poder ».

Se não é uma ideologia, o que seria?

Para FHC « a sociedade brasileira tem forças capazes de barrar qualquer ataque que ameace a democracia ». Essa fé na democracia tupiniquim foi desmentida minutos depois quando citou o sociólogo Sérgio Buarque de Holanda para quem « a democracia é frágil, como uma planta que precisa ser regada todo dia ».

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O cinismo de FHC ficou evidente quando declarou que espera a emergência « de um novo pólo democrático fundado em uma dupla rejeição: a da ordem contra a democracia e a do populismo da velha esquerda contra a democracia ».

Era nada mais nada menos do que a justificativa de sua posição de neutralidade diante de uma eleição em que o candidato da esquerda não representava nenhuma ameaça à democracia.

Talvez sem saber que o próprio FHC mandara esquecerem seu livro « Dependência e desenvolvimento na América Latina », Touraine citou-o como obra célebre, co-escrita com Enzo Faletto.

« Não é preciso ser muito esperto para saber que na América Latina há sempre a mão dos Estados Unidos em alguns momentos históricos », afirmou Alain Touraine. E vaticinou:

« No século 21 as mulheres serão os principais atores na vida social e política do mundo ocidental. As mulheres americanas é que vão destruir Trump. Primeiramente lutamos pela cidadania, depois pelos direitos dos trabalhadores, agora é o momento de apagar a dominação masculina ».

   No único momento em que criticou o atual presidente, FHC disse que ele não é capaz de inspirar a construção de um futuro político que motive a nação. Como contraponto, a eterna rivalidade com Lula veio à tona:  « Monsieur Lula, na época em que o conheci, era bastante ignorante, mas era capaz de dizer o que sentia e fazer o outro sentir a mesma coisa ».

Ninguém, contudo, se compara a ele. Cidadão parisiense, morador de um belo apartamento na Avenue Foch, oficialmente de propriedade do grande parceiro e sócio de seu filho, Jovelino Mineiro, cuja mulher, Maria do Carmo, esteve na plateia do evento.

 O Brasil visto de Paris pela esquerda

Poucos dias após, em 18 de janeiro, professores universitários, artistas, intelectuais se reuniram no Institut des Hautes Études de l’Amérique Latine num encontro intitulado « Solidarité Brésil : Intellectuels, artistes, militants – comment agir ? »

Obviamente, o tom era outro. Havia muita preocupação com o que se passa no Brasil: ameaça à democracia, às liberdades individuais, à liberdade de expressão, incitação ao ódio e à violência contra minorias e inimigos designados como tal, além de ameaça ao meio ambiente.

Do encontro organizado pelas brasilianistas Maud Chirio e Juliette Dumont participaram o filósofo Vladimir Safatle, o historiador Luiz Felipe de Alencastro, o ex-correspondente do « Le Monde » no Brasil, Nicolas Bourcier, a jurista Marie Rota, entre outros.

O historiador Luiz Felipe de Alencastro relembrou que o que está na origem do que se passa no Brasil é a prisão arbitrária do ex-presidente Lula. Ele anunciou a criação da « Comissão de Direitos Humanos Evaristo Arns », a ser lançada dia 12 de fevereiro. A presidente de honra é Margarida Genevois e o presidente, Paulo Sérgio Pinheiro. Alencastro e Safatle integram a Comissão.

Para Safatle, o Brasil falhou na tentativa de construir uma democracia. O país não foi capaz de absorver a maior parte da população num processo de constituição de subjetividades políticas. E falhou em garantir que o Estado não seria o elemento fundamental de violência da sociedade.

« A violência do Estado contra as populações mais vulneráveis nunca mudou, sob nenhum governo. As pessoas da periferia vivem sempre em situação de risco e de exceção. A situação brasileira é terminal. Somos o único país das Américas que elegeu um governo de extrema-direita militarista. Isso nunca tinha acontecido. A situação brasileira é clara: o capitalismo não tem mais necessidade da democracia formal », declarou Safatle.

Finalizando sua brilhante análise, ele apontou um caminho para combater a extrema-direita global, que emergiu também na Europa.

« Contra esta extrema-direita global, temos necessidade, como em outros momentos da História, de formar uma nova Internacional ».

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