As esperanças de renovação desaparecem na Turquia

As esperanças de renovação desaparecem na Turquia

Recep Tayyip Erdoğan, que lidera o país há duas décadas, venceu o segundo turno das eleições em 28 de maio, conquistando cerca de 52,2% dos votos, enquanto seu oponente, Kemal Kılıçdaroğlu, obteve 47,8%.

Por Andrew Firmin

LONDRES, junho de 2023 (IPS) – As eleições na Turquia não trouxeram a mudança que muitos esperavam. Agora, grupos de mulheres, pessoas LGBTQIA+ e jornalistas independentes estão entre os que temem o pior.

Recep Tayyip Erdoğan, que lidera o país há duas décadas, antes como primeiro-ministro e depois como presidente, venceu o segundo turno das eleições em 28 de maio, conquistando cerca de 52,2% dos votos, enquanto seu oponente, Kemal Kılıçdaroğlu, obteve 47,8%.

As eleições representaram o maior teste eleitoral de Erdoğan. O período pré-eleitoral foi dominado por uma crise no custo de vida. Muitos apontaram o dedo para políticas econômicas altamente não convencionais defendidas por Erdoğan – como a redução, em vez do aumento, das taxas de juros em resposta à inflação – que pioraram a situação das pessoas.

A indignação também foi provocada pelos terremotos devastadores que atingiram a Turquia e a Síria em fevereiro, deixando mais de 50.000 pessoas mortas e cerca de 1,5 milhão de pessoas desabrigadas na Turquia. O governo foi acusado de agir lentamente na resposta e de ignorar as regulamentações de construção.

Erdoğan superou esses obstáculos, embora com uma vitória apertada. O resultado acirrado mostra que muitos turcos queriam mudanças. Mas, após uma eleição profundamente polarizada, não há indícios de que Erdoğan planeje moderar sua forma de governar.

Domínio da mídia

Erdoğan prevaleceu apesar de enfrentar uma oposição unida, na qual seis partidos deixaram suas diferenças de lado. Seu objetivo era acabar com a forma hiperpresidencialista de governo de Erdoğan e transformar a Turquia de volta em uma democracia pluralista, onde o parlamento possa agir como um freio ao poder presidencial excessivo.

Uma abordagem semelhante foi tentada na Hungria no ano passado, quando os partidos se uniram para tentar derrubar o autocrata Viktor Orbán, mas também falharam.

Alguns dos desafios enfrentados por eles foram semelhantes. Ambos foram obrigados a trabalhar em um ambiente midiático severamente desigual, no qual a mídia – a estatal e a privada, controlada por empresários ligados ao governo – se concentrava quase exclusivamente no governo em exercício e privavam o candidato da oposição de tempo de exposição.

Observadores da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa concluíram que, embora as eleições tenham sido competitivas, o ambiente de disputa não era equilibrado, com restrições à liberdade de expressão e viés midiático concedendo a Erdoğan uma vantagem injustificada.

Ao longo de seus 20 anos, Erdoğan concentrou o poder em si mesmo e reprimiu a dissidência. Em 2017, ele promoveu mudanças que transformaram um sistema parlamentar em um sistema intensamente presidencial, conferindo a ele poderes praticamente ilimitados.

E ele usou esses poderes. A Turquia é agora o quarto país que mais prende jornalistas no mundo,
com acusações de terrorismo frequentemente atribuídas, e o número de julgamentos e a duração das penas estão aumentando.

O ambiente hostil à dissidência ficou evidente após os terremotos, quando pessoas foram detidas por criticar a resposta do governo. Houve vários relatos de ataques e obstrução a jornalistas durante a campanha eleitoral.

Uma corrida para o fundo

Em eleições passadas, Erdoğan fez campanha com base em seu histórico econômico. Mas desta vez, com a crise econômica e a destruição causada pelos terremotos deixando-o incapaz de insistir nesses pontos, ele recorreu a outra arma, utilizando uma tática usada por nacionalistas e populistas em todo o mundo: a retórica da guerra cultural.

A oposição foi constantemente difamada por supostamente apoiar os direitos LGBTQIA+, enquanto Erdoğan se posicionava como o defensor ferrenho da família tradicional. Essa mensagem persistiu, mesmo que a oposição tivesse pouco a dizer sobre reverter os ataques de Erdoğan aos direitos das mulheres e das pessoas LGBTQIA+.

A estratégia da guerra cultural foi combinada com um forte apelo nacionalista. Os oponentes políticos foram retratados como extremistas e aliados de terroristas. Isso foi reforçado por vídeos de campanha falsos – um dos muitos exemplos de desinformação de campanha – que afirmavam mostrar membros de uma organização terrorista proibida apoiando Kılıçdaroğlu.

Os refugiados sírios também foram alvo. Há 3,6 milhões deles na Turquia. Eles cruzaram a fronteira para escapar da brutal guerra civil de 12 anos e das grotescas violações dos direitos humanos. Mas o declínio econômico da Turquia tem alimentado a xenofobia, que tem levado à violência, inflamada pela retórica política.

Independentemente do resultado das eleições, os refugiados enfrentariam perspectivas negativas. A oposição reagiu aos ataques de Erdoğan prometendo ser ainda mais rigorosa na questão dos refugiados. Na última etapa da campanha, ambos os lados lançaram linguagem discriminatória e inflamatória um contra o outro.

O apelo mais autêntico de Erdoğan ao nacionalismo e aos valores socialmente conservadores acabou prevalecendo. O presidente parece ter convencido o suficiente de pessoas de que ele é a única pessoa capaz de enfrentar a crise atual. Como em vários outros países, incluindo Hungria e El Salvador, a maioria dos eleitores abraçou o autoritarismo.

E agora?

Sem dúvida, o espaço cívico fortemente restrito da Turquia e a paisagem midiática profundamente distorcida desempenharam um papel importante. Mas, mesmo reconhecendo essas barreiras, a oposição precisará refletir sobre si mesma antes das eleições municipais do próximo ano, se quiser manter o controle dos principais governos municipais.

Como a estratégia de imitar a retórica de Erdoğan sobre migrantes e terrorismo falhou, eles precisam encontrar uma maneira de se conectar com os eleitores por meio de uma mensagem mais positiva.

Há desafios imediatos à frente para Erdoğan também, principalmente na economia. O presidente eleito conseguiu oferecer algumas vantagens pré-eleitorais, como aumento do salário mínimo e fornecimento temporário de gás gratuito, com o apoio de estados não democráticos, incluindo a Rússia, com os quais ele estabeleceu relações mais próximas.

O governo esgotou significativamente suas reservas de moeda estrangeira e ouro para tentar sustentar a lira turca, que ainda atingiu uma mínima histórica depois que a vitória de Erdoğan foi confirmada.

Pode-se esperar que Erdoğan reaja a dificuldades econômicas adicionais aprofundando seu autoritarismo para tentar silenciar os críticos. Aqueles que já estão na mira – refugiados, pessoas LGBTQIA+, mulheres, ativistas curdos e a sociedade civil que defende seus direitos e jornalistas independentes que relatam suas histórias – permanecerão na linha de fogo.

Mas os 25,5 milhões de pessoas que votaram contra Erdoğan merecem ter uma voz. O governante precisa mudar os hábitos de uma vida inteira, mostrar disposição para ouvir e construir consenso. Os aliados democráticos da Turquia devem incentivá-lo a ver que é do seu interesse fazer isso.

Andrew Firmin é Editor-Chefe da CIVICUS, co-diretor e escritor do CIVICUS Lens, e co-autor do Relatório do Estado da Sociedade Civil.

*Publicado originalmente em IPS – Inter Press Service | Tradução de Marcos Diniz

**Imagem em destaque: Jeff J Mitchell/Getty Images

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